A fortaleza e a virtude
Que forjei para mim
Não são de ferro ou de fogo
Eu não combato assim

Inesquecível e incomparável o show de abertura do Unimúsica 2013. Teresa Salgueiro e banda apresentaram o espetáculo O Mistério, originado do estupendo álbum homônimo formado por canções inéditas e autorais da cantora portuguesa e dos seus parceiros instrumentistas.

Praticamente lotado, o Salão de Atos da UFRGS abrigou uma plateia ansiosa e que, ao longo da apresentação, se mostrou admirada e emocionada com a interpretação impecável de Teresa, as surpresas do repertório (Valsinha, de Chico Buarque e O Pastor, dos Madredeus embasbacaram o público no bis) e a atmosfera sonora contagiante e sofisticada proporcionada pelo acordeón de Carisa Marcelino, o contrabaixo de Óscar Torres, a percussão de Rui Lobato e a guitarra de Graciano Caldeira.

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Da esquerda para a direita: Carisa, Óscar, Teresa, Rui e André Santos. Créditos: Isabel Pinto

Gravado no Convento de Arrábida, em Portugal, durante o mês de agosto de 2011, o álbum foi especialmente pensado para ser executado ao vivo, característica bastante evidente e muito bem realizada durante o show do dia 9 de maio passado. Na sonoridade, predomina principalmente traços da música ibérica, que remontam às tradições da música  portuguesa, como as canções de amigo, e às influências árabes na cultura da península.

Durante a interação com o público, Teresa Salgueiro explicou a origem e os temas da maioria das composições, afirmando que o “mistério” da vida, especialmente a incompletude do conhecimento humano sobre o mundo, inspiraram as canções lapidadas por ela e pelos músicos no intensivo e denso período de composição do repertório.

Em uma interpretação possível sobre as canções, podemos perceber que o “mistério” é relacionado principalmente com uma abordagem multifacetada do Amor e da Vida. No primeiro caso, tanto o amor realizado ou esperançoso (como em A Paixão, Cântico e A Partida) quanto aquele mediado pela solidão e pela saudade (Ausência e A Espera). Sobre a vida, há tanto uma defesa dela contra a morte despropositada e de memórias doloridas em A Batalha (“Dos corpos que tombaram, resta o esquecimento/Naqueles cuja razão os ceifou”) quanto uma abordagem poética da sua indeterminação e da procura incessante que a caracteriza (como em O Mistério, A Estrada e Ando entre portas).

Mas se o Amor e a Vida são assim tão misteriosos e de nuances diversas, esse não é um motivo para desespero ou angústia, pois uma verdade que combina a vida com amor e o amor à vida parece ser uma possível e bonita proposta das composições de Teresa. Em cada momento que o enfrentamento com os matizes mais perversos dos mistérios do mundo se fizer incontornável, o repertório do disco ensina que a nossa força e coragem não virão do sangue, da ofensa e da luta corporal, mas da festa (A Fogueira), da natureza (Senhora do Tempo) e da canção, esta última ao mesmo tempo espada, escudo e oração na espetacular A Fortaleza, que está abaixo para o deleite de quem acompanhou meus devaneios e minha singela homenagem à Teresa Salgueiro até aqui.

Saudações musicais!

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