No seu livro Filosofia e Ciência do Tempo, o filósofo Bernard Piettre escreveu:

“O tempo é, certamente, um dos mais antigos enigmas, se não de interrogação humana, ao menos da filosofia. Conhecemos a palavra de Santo Agostinho: ‘Por conseguinte, o que é o tempo? Se ninguém pergunta, eu sei; porém, se quero explicá-lo a quem me pergunta, então não sei’. Nada, ao mesmo tempo, é mais familiar, mais próximo de nossa experiência cotidiana, do sentimento mesmo da nossa existência; e também nada de mais estranho e mais inatingível. […] Nada nos soa mais familiar que o tema do tempo que passa, que nos consome e acaba nos levando para sempre; o tempo devora seus filhos como o monstro Cronos  – em grego, tempo [em uma de suas possíveis acepções] se diz Chronos – devorava seus filhos na medida em que sua esposa Rhéa os colocava no mundo. Nada nos parece mais natural que a personificação do tempo. […] Mas seria o tempo uma entidade, um ser, ao ponto de podermos personificá-lo? Nossa experiência do tempo é bem antes a de um não-ser: o passado não é mais, o futuro não é ainda e o instante presente já passou.”

aion

Se podemos considerar o tempo e sua inerente polissemia como parte incontornável das preocupações humanas, não é surpresa que diversas expressões artísticas tentem de alguma maneira interagir com essa questão fundamental da nossa experiência no mundo. Mas o álbum AIÓN, lançado em 2012 por Marcelo Fruet & Os Cozinheiros, assume explicitamente o desafio de abordar o tempo e seus possíveis desdobramentos na vida humana (em alguns momentos de forma direta e em outras com interessantes sutilezas). No texto do encarte do disco, Marcelo Fruet explica a escolha por um significado particular de tempo (que dá título ao trabalho):

“AIÓN significa tempo. Um tempo diferente, para além do cronológico [como seria o caso de Chronos]. Não o nosso tempo cotidiano, mas um tempo cíclico. O tempo da vida em si, sem morte. Um intervalo determinado pelo próprio ser. Um segundo ou uma eternidade: não importa. Palavra criada pelos gregos, Aión parece se referir a um tempo medido mais pela qualidade e menos pela quantidade. Todos somos parte de Aión. Cada um de nós tem seu próprio ciclo. Vários. Eu mesmo já fui tantos eus diferentes que perdi a conta. Cada vez que um deles morre nasce um novo. A cada eu passado, uma imagem do que pensava ser até então. A cada imagem, novos desejos e ilusões.”

Assim, o tempo entendido em suas mais diversas nuances e contradições aparece já na faixa de abertura do repertório, na qual está presente tanto uma análise sobre o conceito quanto uma conversa direta com uma personificação abstrata e imprecisa do Tempo, como vocês podem escutar abaixo e ler nos seguintes versos: “Tempo, me leva/ Concede-me um desejo/ Empresta teus pensamentos/ Pra eu aprender a te iludir/ E viver sem você.”

Apesar de conceitualmente a polissemia do tempo ser até uma obviedade (pelo menos para quem se dedica à reflexão sobre o tema), essa não parece ser uma constatação fácil quando pensamos na atual hegemonia da noção de tempo linear e na velocidade intensa e pretensamente anuladora das experiências que marca uma parte significativa das relações sociais do mundo contemporâneo. É inegável que a colonização da nossa percepção do tempo pelo modus vivendi capitalista imprimiu à suas feições uma noção de progresso e de razão instrumental que tornou cada vez mais difusa e complexa a percepção dos matizes da temporalidade relacionados à noção cíclica e aos seus aspectos qualitativos. Contribuições intelectuais das últimas décadas tentam problematizar esse tema, como é o caso da noção de sociedade “dromológica” em Paul Virilio ou a liquidez investigada por Zygmunt Bauman. É inclusive nessa última referência e em outras tantas, que Fruet busca inspiração, como nos relatou abaixo:

“Sou fã do Bauman, mesmo que muitos filósofos o critiquem pelo fato de ele “dizer de outra forma coisas que já foram sugeridas por autores anteriormente”. Da mesma forma, sou fã do Lacan, que me inspirou para buscar nas linhas de reflexão ópticas (que escrevem AION e as figuras do disco, como o “olhar do observador”) a representação da ilusão, tema presente em meu trabalho. Se quiser entender, pesquise “O Estádio do Espelho”.  Sou fã do Escher e também de Heráclito, entre muitos outros. No caso, AIÓN vem do grego antigo e é uma das três palavras que eles têm para tempo (as outras seriam Kronus e Kairós).

A última faixa do disco (fora a bônus), chamada Aión, é um texto de Heráclito sobre Aión, no idioma original. E a voz que interpreta o filósofo é do professor Donaldo Schuler, que traduziu  não só a obra do filósofo do grego para o português, como também Joyce e outros autores considerados difíceis. A aparição dele no meu estúdio também foi obra do acaso….no momento exato que o disco estava virando “AIÓN”, ele foi gravar uma locução para a obra Ist Orbita da artista plástica Elida Tessler para a Bienal. Quando perguntei sobre Aión, ele começou a me explicar em grego e daí não teve jeito, convenci ele a gravar…

Ainda na onda da última faixa, existe um detalhe sutil e muito legal sobre o disco: a primeira faixa (‘Tempo”) é interrompida bruscamente, dando sequência à faixa 2 (Song For Tom). O final dela, que ficou suspenso ou inacabado,  se realiza apenas quando as palavras de Heráclito cessam na faixa “Aión”, fechando o ciclo do disco.”

Créditos da imagem: Christian Jung
Créditos da imagem: Christian Jung

Mas se já não fosse suficiente os aspectos riquíssimos da proposta conceitual de Aión, o repertório de 14 canções demonstra uma sonoridade incrivelmente bela e heterogênea (rock, samba, tango e bossa, por exemplo) com arranjos compostos com esmero e executada de forma brilhante pelos instrumentistas “cozinheiros” Nicola Spolidoro (guitarra), André Lucciano (bateria), Lúcio Chachamovich (violões) e Leonardo “Brawl” (baixo). Não é à toa, portanto, que o disco faça parte da lista de alguns críticos especializados como um dos melhores lançamentos da música em 2012 e que o grupo tenha participado de apresentações e encontros pelo mundo afora, como foi o caso da recente participação no festival SXSW nos E.U.A. e a viagem, ano passado, para a Kansai Music Conference no Japão, como nos conta um pouco Marcelo Fruet:

“O problema de falar sobre o Japão é que o choque cultural é tão grande, que não tem nada que marque mais que isso. Apesar das construções, das roupas, entre outras coisas, aparentarem muita proximidade com o ocidente, em termos de relacionamento, comportamento, sociedade, religião, tudo é muito diferente. Parece outro planeta. No caso da conferência, me marcou muito entender algumas diferenças do mercado deles para o nosso e para o american/europeu. Primeiro que lá não existe muito “pedir ajuda”, logo, crowdfunding não pega bem. Fiquei sabendo isso quando tentei “vender”a ideia de que eles contribuíssem para nossa ida para lá. Bares e restaurantes não costumam cobrar ingresso. É um costume antigo e o povo Japonês não vê a cobrança de ingresso com bons olhos: não rola. Rola consumação e uma embutida no preço dos produtos consumidos para pagar a banda.. só que fica difícil de pré-negociar quando não se tem um histórico de shows e público na região… é uma situação de risco pros dois lados, bar e banda. Com o tempo a negociação melhora, mas tem que ficar por lá. Ou fazer um circuito em casas de espetáculo e teatros. Nesse caso, rola ingresso, mas tem que ter uma divulgação bem feita. Em outras palavras, é necessário se organizar com muita antecedência e envolver diversos profissionais no meio do caminho, o que torna mais difícil pra quem não está no mainstream ou num segmento organizado como o heavy metal, por exemplo. O japonês é um povo extremamente educado. Uma vez o Lao (produtor, amigo e falante de japonês que foi com a gente) dizia “o mais incrível é que se você quiser ir pro Japão e morar lá por 20 anos sem nunca trocar uma palavra com ninguém, você consegue sobreviver facilmente”… acho que isso exemplifica a organização da sociedade dos caras.

Acho que o mais legal do Japão foi ter feito bons amigos em momentos inesquecíveis, ver que nossa música é muito apreciada e respeitada. O clipe que gente fez com o Roberto Maxwell, brasileiro radicado em Tóquio a mais de 10 anos, foi muito espontâneo e retrata diversos momentos da viagem. Confiram abaixo:”

Para finalizar, inspirado no recado que a cantora portuguesa Cristina Branco nos deixou quando da sua entrevista aqui no Música Esparsa, convido os leitores/ouvintes para escutar mais duas canções comentadas exclusivamente pelo Marcelo Fruet e preparadas pelos Cozinheiros e seus convidados especiais: A música é o alimento da alma, o mote para “sentir”. Como cada vez sentimos menos, recomendo que se “coma” muita música como terapêutica dos tempos modernos. Recomendação: nada de versões light, vão pela música mais gourmet, sem medo de pecar! 

Saudações musicais!

Minha foi uma música que compus aos meus 16-17 anos de idade. Em 2006 arranjamos ela com a banda e eu imaginava aquele arranjo com umas cordas bem simples e básicas (pra não dizer “mela-cueca”) em cima, deixando bem pop no sentido novela de ser. Depois que gravamos a base e o Arthur de Faria passou a bola do arranjo de cordas pro Vagner Cunha, tudo mudou. O arranjo de cordas do Vagner me obrigou a re-pensar e re-montar todo o arranjo de base, transformando completamente a track, coisa que na hora eu odiei, porque me deu um puta trabalho, mas logo depois agradeci, pois o resultado acabou ficando incrível. Foi para mim a maior surpresa do disco!”

Ponto de Vista é uma canção minha em parceria com minha amiga Beca Furtado. Compusemos para um filme dela, homônimo, em 2003. O filme conta a história de um cego que se apaixona por uma cantora que passa diariamente em frente ao banco onde ele fica sentado gravando sons e poesias. A letra é uma poesia dele pra ela, que vira música no final do filme. Acho bacana escutar a música entendendo a história. Não que seja necessário, mas é legal. Essa gravação tem a participação do Martin Sued, um baita bandoneonista argentino que toca em projetos como o Surdomundo Impossible Orchestra.
Anúncios