“Sem objetivo e sem razão […], eis em duas palavras o significado profundo da deriva, que tem o dom misterioso de nos devolver, de uma só vez, o sentido da liberdade.”
(Michael Löwy)

Nas últimas semanas tenho ouvido de forma quase obsessiva o mais recente disco do argentino Nicolás Ciocchini [choco], o estupendo 11 derivas. Inspirado nas reflexões de Guy Debord, o nome do álbum remete à teoria da deriva, formulada pelo francês em 1958 quando, em uma contribuição à revista da Internacional Situacionista, problematizou as relações entre espaço geográfico (especialmente urbano) e as representações e interações humanas com o mesmo.

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Segundo o próprio Debord: “a deriva se apresenta como uma técnica ininterrupta através de diversos ambientes. O conceito de deriva está ligado indissoluvelmente ao reconhecimento de efeitos da natureza psicogeográfica, e à afirmação de um comportamento lúdico-construtivo, o que se opõe em todos os aspectos às noções clássicas de viagem e passeio. Uma ou várias pessoas que se lançam à deriva renunciam, durante um tempo mais ou menos longo, os motivos para deslocar-se ou atuar normalmente em suas relações, trabalhos e entretenimentos próprios de si, para deixar-se levar pelas solicitações do terreno e os encontros que a ele corresponde.”

A audição das 11 canções do álbum torna-se mesmo um itinerário intermitente e lúdico-construtivo graças à preciosa seleção de repertório de Nicolás, que garimpou belas histórias cantadas e contadas, majoritariamente, pelo tango argentino deste século XXI. Entre elas, temos contribuições de Lucio Arce, Juan Lorenzo (34 Puñaladas), Fernando Lernoud e Alfredo “Tape” Rubín, além de lindíssimas obras de Juan “Tata” Cedrón e Paco Ibáñez.

Entre as derivas que podemos desfrutar a partir das músicas, encontramos arranjos sofisticados e histórias diversas de angústias, solidão e saudade, como em Quiero dormir y no puedo, e de personagens que estão à margem da vida acelerada e alienada, como abordam de maneira preciosa as músicas Canción del prestidigitador, El afilador e Cantaba tangos. Além disso, é louvável o reconhecimento da herança afroamericana da música platina com a inclusão da composição Macumambé (de Juan Carlos Cáceres), que encerra o disco.

Enfim, os leitores/ouvintes devem escutar o álbum inteiro (disponibilizado pelo artista AQUI) para aproveitar essa experiência artística incomparável do disco 11 derivas. Recorrendo novamente à Michael Löwy, segue um pouco do que as canções do disco proporcionam: “Esta experiência da liberdade [da deriva] produz uma espécie de embriaguez, uma exaltação, um verdadeiro ‘estado de graça’. Revela uma face escondida da realidade – e de nossa própria realidade.”

Como sugestão, posto abaixo a Milonga viuda, parceria de Ciocchini com Alfredo Gómez e que conta com a participação de Matías Patinho na guitarra elétrica: uma deriva deslumbrante!

Saudações musicais!

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