No início de setembro, compareci a uma das três noites da edição de aniversário do projeto Escuta – O Som do Compositor, na Galeria La Photo. Apesar de já conhecer o trabalho de alguns integrantes do coletivo e mesmo de ter sabido das primeiras apresentações organizadas por ele, apenas nessa ocasião pude estar em Porto Alegre para conhecer de perto o projeto.

E a sensação de familiaridade com aquele ambiente de trocas artísticas e de expressão musical independente logo despertou em mim. A reunião de diversos compositores mostrando, a partir de uma descontração criativa, suas músicas, ideias e inquietações mais uma vez comprovou o quanto os intercâmbios artísticos coletivos são estimulantes e também a riqueza de um cenário diversificado e renovado da música independente por essas bandas.

cartaz jeanb

Naquele momento, lembrei inclusive das minhas primeiras andanças pelas apresentações musicais do cenário independente em Porto Alegre há cinco anos atrás, garimpando tudo aquilo que me comovia e/ou desafiava minha sensibilidade. Assim, assistindo vários compositores se revezando no palco, foi como se a minha gana pela diversidade musical tivesse se tornado concreta no show daquela noite.

Mas como um dos meus objetivos aqui no Música Esparsa não é restringir a apreciação musical apenas à minha subjetividade, convidei um dos integrantes do coletivo, o músico Leo Aprato, para contar um pouco sobre a sua relação com o Escuta:

Escreva sobre a importância do projeto “Escuta” para a cena musical independente e conte um pouco sobre como começaste a fazer parte do coletivo e os desdobramentos dessa participação na tua trajetória artística recente.

O coletivo “Escuta – O Som do Compositor” é um projeto independente e de esforço coletivo, por isso um “coletivo de individualidades” e, a meu ver, mercadologicamente falando, é um projeto despretensioso, no sentido de alcançar algum resultado específico ou ter uma significância x ou y, na cena independente ou na cena musical formal. No entanto, isso não quer dizer que a atitude perante o projeto seja de “o que vier, vem bem”. Bem pelo contrário, já que temos uma determinada rigidez com o conceito e uma responsabilidade com o que o Escuta significa pra cada um de nós, já que o cerne é exatamente a troca entre os compositores (os quais são público uns dos outros também), a convivência, a não competitividade musical, sendo que isso se dá a partir de um conceito de grupo aberto e horizontalizado.

A minha relação com o Escuta se deu exatamente através deste convívio que mencionei, já que comecei a conhecer vários amigos que faziam o mesmo que eu, que era compor. Então, a partir daí, as rodas de violão, as conversas sobre melodia, letra e harmonia começaram a ficar mais frequentes, parcerias começaram a surgir e todo o ambiente que envolve o fato de compor foi se apropriando de mim, assim como fui me inserindo naturalmente neste universo.

Minha primeira composição é de 2009, meu primeiro e único trabalho, o EP “Minha Confusão”, é de 2012… então, o trabalho é recente… sólido, mas recente. Alguns outros escuteiros têm seus trabalhos mais ou menos nesse patamar. Sendo assim, participar do Escuta é uma ótima oportunidade de conhecer pessoas, fazer mais parcerias e desenvolver novos projetos paralelamente, além da visibilidade que naturalmente acaba ocorrendo, por conta da troca entre públicos, que se dá devido ao grande número de pessoas envolvidas e à diversidade que o grupo abarca.

E para estimular os leitores/ouvintes a conhecerem melhor o Escuta e, portanto, a arte de seus integrantes, indico justamente o trabalho do Leo para uma audição cuidadosa. O EP Minha Confusão, lançado em 2012, traz quatro músicas que me chamaram a atenção pela abordagem diferenciada e perspicaz das relações humanas e do próprio fazer artístico. Para tentar esclarecer um pouco melhor que  tipo de abordagem diferenciada é essa, compartilho a resposta do músico a mais uma de minhas perguntas:

Pensando em uma definição bem simples da arte como uma forma de mostrar/expressar mundos diferentes daquele com o qual estamos acostumados, quais seriam os “mundos” que as tuas canções podem sugerir ao ouvinte?

Penso que esta pergunta não precisaria de uma resposta objetiva. Quando penso em dizer isso ou aquilo, me vem à mente a imensidão de outras respostas interessantes que coexistem sobre este tema, neste momento. Talvez essa não objetividade nas conclusões, nas ações, nas inspirações seja o “mundo” que sugiro.

Pensando algumas músicas do EP “Minha Confusão”, “Gracias” é um autoengano de uma mulher, que levemente se culpa, dentre outras coisas, pela alegria. Já em “Descoloriu”, a harmonia festiva se resolve em um forte coro de “eu tô mal”. Esta contradição, este não absolutismo, definido como confusão no nome do EP, talvez seja o que consigo observar de mais nítido neste “mundo” que “Minha Confusão” carrega, como síntese desse meu primeiro momento diante das minhas canções.

Além disso, tanto nas músicas do EP, quanto nas demais canções que ainda não estão registradas, busco atentamente pelo tema a ser abordado, por uma razão que justifique a existência daquela música. A observação, a reflexão sobre o que está sendo proposto, acredito que possa ser visto como um convite ao público a interagir e, de certa maneira, fazer parte, junto de mim, deste “mundo” de devaneios, angústias, saudades, tristezas, alegrias e demais controvérsias , que sugiro dentro do mundo.

Como exemplo dessa experimentação feita pelo artista com ideias não absolutas sobre o mundo, posto abaixo a belíssima canção Orgasmo, que consegue sintetizar de maneira brilhante e metafórica o invencionismo, a racionalidade não convencional e as inspirações mobilizadas pela criação artística.

Saudações musicais!

Num tempo em que me inspiro pra fazer arte
Sol não há
E a tempestade é bem vinda
Cai, como a cinza do breu
Deixa como marca o pó
E os devaneios desse louco que firmemente mente pra si mesmo
E diz que orgasmo é o pó que sai das asas das borboletas
E diz que orgasmo é o pó que sai das asas das borboletas

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