“[…] cada cor que vemos na natureza provoca, por uma espécie de repercussão, a visão da cor complementar, e essas complementares se excitam. Para obter no quadro, que será visto à luz fraca de interiores, o aspecto mesmo das cores ao sol, é preciso então fazer figurar nele não apenas um verde, se se trata da relva, mas também o vermelho complementar que o fará vibrar.” Com essas palavras, o filósofo francês Maurice Merleau-Ponty comentou um dos aspectos do impressionismo no ensaio A dúvida de Cézanne. Tal análise me remeteu imediatamente às cores sonoras vibrantes do mais recente disco da cantora e compositora Gisele De Santi, Vermelhos e Demais Matizes.

Gisele De Santi (por Alesi Ditadi)

Há algumas semanas atrás recebi o álbum em casa, resultado de minha contribuição ao financiamento coletivo da obra, junto com uma outra recompensa: um desenho feito pela própria Gisele e que é referência para a arte do disco. Ou seja, a relação entre artes plásticas e música nesse segundo disco da artista não é mera casualidade, mas uma impressionante troca sinestésica. No decorrer da audição mesclam-se cores, sons e imagens que são evocados e intercambiados pelos instrumentos, pela voz ou pela nossa imaginação, sensibilizada pelas composições.

Nas 12 canções do repértório do disco, as letras (quase todas compostas por Gisele, com exceção das parcerias com Moisés Westpaheln, Vitor Ramil/Roger  Scarton e Fabrício Gambogi) são jóias raras  que se apropriam das nossas experiências afetivas e as traduzem num mosaico que passa por diversos caminhos: nostalgia, paixão, tristeza, desencontro e aconchego. Todos esses caminhos, como escrito anteriormente, sedimentados por diferentes matérias poéticas e inspiradoras, como a chuva, as cores, as frutas e os sonhos.

Diferente da citação que abre o texto, as canções de Vermelhos não utilizam apenas as cores e suas relações complementares para vibrar, mas também uma percussão bem cuidada (a participação de Marcos Suzano é um sinal disso), um olhar não convencional sobre o corpo e sobre o amor e, entre muitas outras que vocês podem destacar nos comentários, uma voz cada vez mais refinada e tocante.

Para finalizar, proponho um pequeno experimento: leiam abaixo a definição do Novo Dicionário Aurélio para sinestesia e escutem a incrível Eita, terceira faixa do disco, para apreciarem a força sinestésica da composição de Gisele.

Saudações musicais!

Sinestesia: s. f. Relação subjetiva que se estabelece espontaneamente entre uma percepção e outra que pertence ao domínio de um sentido diferente (p. ex., um perfume que evoca uma cor, um som que evoca uma imagem, etc.)

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