Em 2012, a cantora e compositora mexicana Natalia Lafourcade lançou um álbum primoroso, com releituras inspiradas de canções do também mexicano Agustín Lara (1900-1970), prolífico artista que compôs mais de 700 músicas e ficou conhecido especialmente por seus boleros e pela canção Granada, todas elas admiradas e cantadas por diferentes artistas mundo afora.

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Natalia nas filmagens do videoclipe de “La fugitiva”.

No entanto, como era de se esperar, esse disco ainda é praticamente desconhecido no Brasil, cuja “imprensa especializada em música” (na sua maioria esmagadora) privilegia o pop e o rock em inglês e vira as costas para o que se faz na América hispanohablante, seja no caso dos vizinhos argentinos e uruguaios ou quando se trata dos “distantes” mexicanos. E, nesse caso, nem a presença de Gilberto Gil e Rodrigo Amarante, como parcerias de Natalia nas canções “Farolito” e “Azul” foram suficientes para uma mínima circulação desse trabalho por aqui.

Conhecido pelas composições românticas que tematizavam suas diferentes paixões, El Flaco de Oro, como era chamado Agustín Lara, é apropriado pelas recriações de Natalia de uma maneira diversificada, tanto na sonoridade (que emprega recursos e melodias que ora expressam nostalgia ora aproximam as versões do pop contemporâneo, sem falar na pegada latina que atravessa o repertório) quanto na divulgação do trabalho, que contou com certas releituras (às vezes baseadas num humor sutil) da contemplação às mulheres feitas por Lara (típica da sociedade patriarcal). Uma subversão dessa característica pode ser vista no videoclipe da faixa-título, com a participação do cantor argentino Arián Dárgelos, no qual a relação amorosa é homoafetiva.

Esta homenagem ao compositor mexicano é o quinto disco lançado na carreira de Natalia, que fez uma escolha imensamente feliz ao utilizar “sucessos do passado” para sua intervenção artística na atualidade, mostrando mais uma vez como a pesquisa musical e a atenção para a diversidade criativa do repertório de canções de cada povo pode nos levar para caminhos surpreendentes e belíssimos.

Composto de treze temas, Mujer Divina é um disco repleto de parcerias (excelentes, por sinal), no qual Lafourcade divide os vocais em 12 canções com diferentes cantores, entre eles Jorge Drexler, Devendra Banhart, Alex Ferreira, entre outros. Além disso, a banda que acompanha a artista é ótima e conta com Gustavo Guerrero (guitarra), Felipe Martínez (baixo), Carmen Correa (teclado), José “Chepo” (percussão) e Uriel Herrera (bateria).

Portanto, convido vocês para conhecerem o álbum inteiro de Natalia Lafourcade e desfrutar da experiência sensorial incrível que é escutar as canções de Mujer Divina e assistir aos diversos videoclipes já feitos sobre o repertório. Entre eles, para concluir essa postagem, disponibilizo abaixo a parceria da cantora com Kevin Johansen, no líndissimo tema “La fugitiva”, cuja fotografia, cores e demais elementos do videoclipe emprestam um siginificado todo especial à canção e torna-se um símbolo dessa inesquecível homenagem a Agustín Lara.

Saudações musicais!

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