Uma das grandes lacunas do Música Esparsa continua sendo a presença diminuta neste espaço de artistas que desenvolvem suas trajetórias nas cidades do interior do Brasil. E esse é um problema ainda mais grave quando se trata desse blog, que sempre prezou pela música independente e autoral antes de qualquer coisa. No entanto, aos poucos a situação vai se transformando e, nessa postagem, conto com a ajuda do músico cachoeirense Ezequiel da Rosa para me auxiliar nesse propósito.

Conheci virtualmente o artista há alguns poucos anos, mas só recentemente travamos uma conversa presencial muito frutífera e cujo um dos desdobramentos é essa nova edição do Conversa Esparsa, a seção de entrevistas do blog.

Músico e educador musical, Ezequiel desde cedo teve consciência de sua necessidade de expressão artística, dedicando-se à música como forma de concretizar aquela. Em Cachoeira, participou nos anos 1990 de grupos musicais de diferentes matizes, como a banda punk Ogiva Nuclear e do grupo Cheiro de Samba, justamente experimentando formas de expressão diferenciadas dentro da música.

Nos últimos anos, após a graduação em Música na Universidade Federal de Santa Maria, vem se dedicando à educação musical e à musica autoral independente (principais temas da entrevista abaixo). A experiência mais significativa de profissionalização como compositor aconteceu no cenário da música regional gaúcha/nativista, como é um exemplo a coletânea da qual participou em 2013 intitulada Conterrâneos (Coletânea Musical de Autores Cachoeirenses).

No entanto, diversificando mais uma vez sua expressão musical, atualmente Ezequiel está envolvido com outro projeto, a banda Os Soluzantes, que ele compõe ao lado de Felipe Radünz e Rafael Nunes e da qual o artista também fala nessa entrevista e ainda nos oferece a gentileza de escutarmos em primeira mão o segundo single do grupo, Nessa de entender. Além disso, quem primeiro comentar essa postagem leva como presente o cd Conterrâneos (outro regalo para os(as) leitores(as) do Música Esparsa.

Portanto, confiram abaixo as ideias e a música de Ezequiel da Rosa e Os Soluzantes e acompanhem as novidades na fanpage da banda.

Saudações musicais!

FOTO MSC ESPARSA

Música Esparsa: Qual a importância da educação musical para a educação básica?

Ezequiel da Rosa:  A música na escola é fundamental para a formação integral dos alunos. Sempre achei muito estranho, em um país como o nosso, a música ficar tanto tempo fora da escola. Tem coisas que a gente não entende. Mas isso está mudando, mesmo que muito lentamente. Hoje vemos projetos musicais acontecendo em várias escolas. Na fala dos colegas professores de outras áreas já percebo que está mudando o pensamento sobre a música no espaço escolar e a importância que ela tem na formação dos alunos.

Mas não podemos cair naquela história que música na escola é para preparar os alunos para se apresentarem nas datas comemorativas, ou que a função da música na escola é acalmar os alunos para que eles possam estar bem calminhos para as aulas de português e matemática. Ainda escuto essas coisas por aí! A música é uma área do conhecimento humano e tem tanta importância como qualquer outra.

Falando em projetos, vejo com bons olhos o Mais Educação. Tem várias oficinas legais, inclusive de música. Mas também entendo que, em alguns casos, precisa de gente capacitada para dar aula. Penso que os oficineiros desses projetos também têm que receber uma formação antes de tudo. A ideia de que se a pessoa toca alguns acordes no violão já pode dar aula de música é bem equivocada. E mesmo para aqueles que são excelentes músicos, uma formação pedagógica é fundamental.

Música Esparsa: Quais as dificuldades encontradas pela música autoral e independente (em termos de visibilidade, público e espaços) em cidades do interior como Cachoeira e o que tu sugeres para que a situação seja mais propícia a essa expressão artística?

Ezequiel da Rosa:  Fazer música autoral é um trabalho que requer paciência e persistência. O compositor não pode duvidar da sua própria música. Ser compositor faz parte da minha identidade e, como toda identidade que é móvel, minha música também é. Não tenho problemas em fazer música regional, rock, samba, etc. Ou até misturar tudo e ver no que vai dar como é o caso da música que estamos fazendo no grupo Os Soluzantes.

[Confiram abaixo a música Nem tudo é sorte, com a participação especial de Fábio Pivetta no bandoneón]

Penso que uma das formas de dar visibilidade para autores, principalmente no interior do estado, é a criação de coletivos. Juntar vários compositores e promover encontros, apresentações, criar novos espaços para a música autoral e gravar coletâneas em cd, usar as redes sociais, etc.

Mas não se deve ficar apenas com os compositores de sua cidade. É necessário ampliar as experiências com autores de outras regiões. Penso que diferentes dificuldades são encontradas em qualquer lugar, principalmente no Brasil, onde historicamente o compositor não tem o mesmo status do intérprete ou do instrumentista, por isso é interessante trocar ideias com autores de outros locais, assim todo mundo aprende junto.

Aqui em Cachoeira do Sul tenho participado de alguns projetos. O mais recente lançou uma coletânea intitulada Conterrâneos pela gravadora Luna Soluções Culturais. É focado na música regional e reúne diversas canções que participaram de festivais nativistas. Integrar essas coletâneas é importante principalmente para quem ainda não tem um álbum próprio, que é o meu caso.

Dia 21 de março, no Porto 21 Pub, estaremos lançando um projeto que se chamará “Compositor, muito prazer!”. É um coletivo de autores locais de diversos estilos musicais que apresentarão 21 canções. Esse projeto circulará por outros espaços na cidade e terá uma apresentação mensal. É um começo para criarmos uma cena de música autoral na cidade.

Música Esparsa: Comente um pouco sobre a canção “Nessa de entender”, que está sendo lançada com exclusividade nessa postagem.

Ezequiel da Rosa: Nessa de entender é uma canção feita em parceria com Dado Romagna, autor que reside em Porto Alegre. Um virtuose da palavra. Começamos a trabalhar juntos no final de 2007. Desde então já fizemos mais de vinte canções numa proposta mais híbrida, misturando elementos do rock, folk, soul e MPB. Também realizamos alguma coisa de música regional gaúcha, mas o nosso foco ficou mesmo em outros gêneros. Nessa de entender é um bom exemplo das nossas várias influências.

O interessante da parceria com o Dado é que comecei a compor as melodias e enviar pra ele colocar a letra. Eu nunca havia feito isso. Foi uma proposta que surgiu do próprio Dado. Sempre fiz letras e depois as músicas. Ou recebia as letras de alguém para fazer a melodia ou entregava minhas poesias para alguém musicar. Uma prática muito comum no contexto dos festivais nativistas de onde vem as minhas maiores vivências como autor.

Outra novidade desse repertório é que foi pensado para eu cantar minhas próprias músicas, numa ideia de cantautor. Tudo bem diferente das músicas que eu vinha fazendo direcionadas para os festivais nativistas e que, no próprio processo de composição, eu já ia pensando no intérprete para ela, os músicos que eu gostaria que estivessem no palco para apresentá-la, etc. Isso tudo entra junto no desenvolvimento da música criada, no meu caso é claro, pois cada compositor tem um forma de criar.

Ao fazer primeiro a melodia, me senti mais livre para criar. Deixei a música fluir sem me preocupar no que ia dar. Nossa única preocupação foi fazer uma música que as pessoas escutassem e “saíssem assoviando”. Que levassem junto consigo para onde fossem se valesse a pena levar. Na realidade nem foi uma preocupação, mas sim, uma construção que realizamos através de nossas conversas por e-mail. Não pensamos em uma proposta comercial ou em realizar algo completamente original, mas sim, em uma música simples e sincera com o nosso atual momento. Com o passar do tempo, fomos percebendo que as canções tinham uma direção. Temos como plano fazermos um álbum com estas canções.

É importante falar também que a Nessa de entender ficou com um arranjo bem na proposta de Os Soluzantes, que é o nome da banda que integro juntamente com Felipe Radünz (guitarra e vocal) e Rafael Nunes (percuteria e vocal). Eu faço voz e violão no trio. O grupo tem cerca de um ano de atividade. Enquanto banda, nós pensamos em construir uma sonoridade que tenha um “pé no rock e outro na América Latina”, mas, nem por isso excluímos outras possibilidades de ritmos, timbres, etc. A música comentada em questão exemplifica bem para onde estamos olhando musicalmente, hoje. É o nosso segundo single. A canção Nem tudo é sorte foi o primeiro.

Música Esparsa: Para concluir, deixe um recado para os leitores do Música Esparsa.

Ezequiel da Rosa: Gostaria de agradecer ao Icaro pela oportunidade. Valeu mesmo! Para finalizar gostaria de dizer que existem várias formas da gente passar pela vida. Eu “escolhi” ser esse cara que gosta de ensinar música, compor, tocar, cantar… E que gosta de compartilhar com as outras pessoas as vivências proporcionadas pelo trabalho com a música . Apenas isso! Bem simples. Encadeamento sem empréstimo modal. Só dominante/tônica!

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