Mais uma novidade dos 5 anos do Música Esparsa já está no ar. Meu grande amigo e companheiro de aventuras musicais Chico Cougo, do Memórias do Chico, será responsável por uma coluna tangueira aqui no blog, a TANGUERÍA. Sempre comentei sobre a cena do tango contemporâneo neste espaço, mas agora preparem-se para as intervenções de luxo desse que é o maior conhecedor de tango dessas e de outras plagas. Para iniciar a colaboração de Chico, uma excelente entrevista feita por ele com Lucio Arce, um dos expoentes da cena tangueira atual. Portanto, desfrutem e conheçam o tango vivo e pulsante que se faz nos dias de hoje.

Saudações musicais!

tangueria 2

por Chico Cougo

Qualquer coluna de tango que se preze (e que tenha como pretensioso objetivo ir além do tradicional) tem que passar pela turma da “nova geração” buenaerense, os protagonistas deste movimento mais ou menos formal chamado El tango vuelve al barrio, que teve início em meados dos anos 2000 e hoje vive um momento de total consolidação.

Para iniciar os trabalhos desta desafiadora Tanguería, escolhi um dos protagonistas deste movimento musical, o cantautor Lucio Arce. Artista dedicado ao tango burlesco e chistoso, Arce conta com três discos: Tangos Inesperados (2005), Trajiste la guitarra? (2008) e A la salida del cabaret (2013). Seus trabalhos têm a marca do autor que conta histórias comuns, transformadas em comédias (às vezes dramas) de notório domínio poético e excelente construção musical. Seu trabalho mais recente, seguindo a linha que o consagrou, está repleto de historietas que, no fundo, abordam a complexidade e contraditoriedade humanas – sempre de forma bem humorada.

Em dezembro passado, através do Facebook, tive a opotunidade de conversar com Lucio Arce a respeito de seu novo disco. No papo, o cantor contou um pouco sobre a gênese de algumas de suas canções, incluindo aí o samba Garoto de Fiorito, que integra seu novo disco e que une sua produção musical ao ritmo-símbolo brasileiro – pela primeira vez.

LUCIOARCE Tapa

MÚSICA ESPARSA – Como nasceu “A la salida del cabaret”? É possível notar que há um diálogo entre ele e os outros discos da tua carreira. Como se dá essa “conversa”?

LUCIO ARCE – Este disco é mais variado que os anteriores. Gosto disso. Saíram canções de outros gêneros, o que torna a escuta mais interessante. Pude colaborar com artistas amigos que admiro e que ajudaram a enriquecer o trabalho: Nacho Cedrún, Juan Villareal, Cucuza Castiello e Moscato Luna, entre outros. Há duas colaborações com Néstor Basurto (a música de Potrero argentino e Gorro, bandera y vincha) e isso também foi positivo.

ME – Algumas canções de “A la salida del cabaret” têm muita realidade, mas em outras há algo de muito burlesco, quase um deboche. De onde saem histórias como as de “Pisotón” (tango que fala de um sujeito com pés enormes, terror dos bailes), por exemplo? E a de “Promotora” (onde Arce conta da paixão por uma degustadora de produtos, em um supermercado)?

LA – Pisotón saiu em Villa Gesell. Roubaram meus chinelos na praia. Fui comprar outros e havia uma marca Pisotón. Achei muito engraçado. Pisotón acabou sendo um personagem das milongas. Promotora é a história de um amigo. Ele ia a exposições e se apaixonava pelas promotoras que sorriem para todos. Nunca aprendia com os desenganos.

ME – “Potrero argentino”, “Pasala morfón” e “Garoto de Fiorito” põem em evidência um futebol longínquo no tempo, o futebol de bairro, sem os efeitos da globalização e da elitização de hoje. Tenho observado que teus tangos têm essas marcas. És um dos tangueros da nova guarda que mais canta o futebol. Por quê?

LA – Amo o futebol. Gosto mais de jogá-lo do que de vê-lo. O futebol oferece intermináveis e imprevisíveis oportunidades de criar uma beleza espontânea e irrepetível. Até para os pataduras como eu. Sobretudo em partidas que não passam na televisão. Como gosto de dizer, estas histórias pedem tango para serem contadas.

ME – Teu disco tem um samba e uma canção com ritmo de bossa nova. Como foi a experiência de cantar ritmos do Brasil? O que gostas na música daqui?

LA – Adoro a música brasileira, especialmente o som do cavaquinho. Escutei um quarteto de choro e quis ter algo com esse som. Assim saiu Garoto de Fiorito (sacaneando a [Garota] de Ipanema), rindo dos brasileiros que riem conosco quando brincamos com eles. Procuramos um som como o de Chico Buarque quando gravamos. Já a bossa começou como habanera, mas sozinha se foi transformando em bossa e eu gostei. Buscamos um som parecido com o de [Tom] Jobim.

ME – “Su buen nombre y honor”, assim como “Yo so el que se fué” (do disco “Trajiste la guitarra?”) tem uma grande capacidade de fazer com que os que vivem situações de perda se identifiquem. Perdi me pai em 2010 e este tema me tocou profundamente quando o ouvi. Como foi compor esta canção?

LA – Quando fiz Su buen nombre y honor quis escrever um tango (que era o que mais cantava meu velho), mas saiu uma zamba. Às vezes parece que as canções se escrevem sozinhas e não há como brigar com elas. Fiquei encantado da maneira que ficou com os violões. Quando meu velho propôs casamento, a minha mãe lhe disse que o único que podia deixar-lhe era “su bueno nombre y honor”. Durante toda minha vida, minha mãe nos recordava disso periodicamente. Usei esta frase de meu pai para recordá-lo.

ME – Teu terceiro disco tem muitos convidados deste movimento que renovou o tango, que voltou a ter o tango como uma representação do bairro. O que opinas deste novo momento do tango no século XXI?

LA – Está bueníssimo o que tem passado com o tango na Argentina. Nunca antes houe tantas e tão diversas manifestações tangueras como agora. Há quinze anos os mais jovens não tinham onde chegar para escutar, aprender e conhecer o tango. Isso mudou. Cada vez mais jovens querem cantá-lo, tocá-lo e bailá-lo. Há muitos lugares onde podemos buscá-lo, em todas as suas expressões. Em um país onde se escuta muito mais música estrangeira que nacional, é esperançador esse novo panorama.

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