Relendo a postagem que fiz em 2010 sobre o lançamento da caixa Bebeto Alves em 3D identifiquei prontamente o tom deveras elogioso do meu comentário. E agora, com a chegada do mais recente álbum de Bebeto, o Milonga Orientao, não posso deixar de ir pelo mesmo caminho.

Renovando a parceria com os Blackbagualnegovéio (Marcelo Corsetti nas guitarras, Luke Faro na bateria e Rodrigo Rheinheimer no baixo), o disco apresenta doze canções muito fortes, seja pelo questionamento político e existencial afiado de algumas composições seja pela leveza e pelo lirismo não menos cortante de outras. Isso tudo reforçado pelas levadas impecáveis dos instrumentistas citados acima, pelas participações especiais, como a de Humberto Gessinger, e pelas parcerias com Rodrigo Rheinheimer, Fernando Corona, Gastão Villeroy e Reinaldo Arias.

Da esquerda para a direita (sentados): Rodrigo Reinheimer, Bebeto Alves e Marcelo Corsetti. Em pé: Luke Faro.
Da esquerda para a direita (sentados): Rodrigo Rheinheimer, Bebeto Alves e Marcelo Corsetti. Em pé: Luke Faro.

Mas como a minha intenção é que vocês escutem as músicas e percebam a força desse trabalho, organizei uma postagem diferente. É o seguinte: vocês escutam a canção, depois descobrem o que me instigou nela e produziu uma pergunta e depois conferem a resposta do próprio Bebeto, que gentilmente aceitou colaborar com o Música Esparsa.

Antes de começar, no entanto, convido a todos a adquirirem o álbum no site da Stereophonica e contribuírem para viabilizar o show de lançamento do Milonga Orientao no crowdfunding do Traga Seu Show em Porto Alegre, no Teatro do CIEE.

Prontos agora? Então vamos lá! Com vocês, Milonga Orientao!

Saudações musicais!

Primeira canção: CARNEADO DE LUZ

MÚSICA ESPARSA: Esse teu mais recente álbum contém algumas das canções mais instigantes que escutei ultimamente com conteúdo relacionado a certo desconforto com diversas questões culturais, políticas e existenciais. Que características do contexto histórico e cultural contemporâneo influenciam para o “desassossego” e para as “interrogações” que parecem ter motivado as canções do disco?

BEBETO ALVES: O meu trabalho é uma manifestação da minha própria vida, sou autobiográfico, sempre foi assim.  À medida que o tempo passa, obviamente, ela, a vida, vai se avolumando em sua própria experiência. Esse disco traz uma relação de/com coisas que aparentemente não teriam nada a ver, pois são de planos diferentes: social, espiritual, existencial, psíquico, como observaste, mas que em minha reflexão acabam construindo um mosaico do qual tiro a poesia necessária para continuar respirando, transformando, criando, recriando uma realidade que me absorve. Objetivamente, e esse é o tom maior do disco, minha experiência com a morte, ou na perspectiva dela, por exemplo, é o turning point do disco. Nesses últimos dois ou três anos, apesar de estar em atividade, filmando, criando canções e fotografando, a proximidade com a sensação de finitude me proporcionou amadurecer a sua ideia e o ambiente ao redor. Quero dizer com isso que vivi tão intensamente isso tudo ao ponto de contemplar a criação com todos esses aspectos. E acho que é esse o determinante desse disco, e daqui por diante. Apesar do desassossego, foi a leveza de uma sensação de amor o que me movimentou. É inexplicável e indescritível.

Tentando ainda contextualizar dentro da tua pergunta, um pouco mais, diria que esse sentimento fez com que eu olhasse para toda essa realidade, do ponto de vista intelectual, do que compreendemos pelo conhecimento, pela nossa estrutura educacional e cultural, com os olhos de uma outra humanidade possível. E assim me dei por um novo homem, com uma reflexão, completando uma ideia de estar por aqui.

Eu sempre estive aqui. (Humberto Gessinger)

Essa é uma outra coisa, a emoção de sentir o outro. O Humberto foi confessional nessa letra e muito perspicaz. Me causou uma emoção enorme reconhecê-lo nessa afirmação.

Segunda canção: ARMANDO

MÚSICA ESPARSA: Tu consideras que há uma tendência no pensamento contemporâneo de relativizar a propriedade intelectual e apontar determinadas “transformações” no mundo da cultura sem questionar as bases da produção capitalista?  Fico pensando nisso porque muitas vezes tenho essa impressão, como se alguns defendessem a possibilidade de questionar a propriedade sobre a criação na área da cultura ao mesmo tempo em que se aprofunda a monopolização do capital em outros setores da produção de bens e mercadorias.

BEBETO ALVES: É que isso, na verdade, se tornou uma moeda na disputa política, pelo menos aqui no Brasil. Não existe boa intenção nisso. O discurso da coletividade através de uma postura ideológica claramente identificada dentro da rede como uma esquerda digital, aliada ao campo político do governo, faz o seu jogo e sua negociação, onde a parte mais frágil da produção do capital, a indústria cultural, é depreciada e seus agentes condenados a um cárcere virtual, sujeitos a desapropriação ilegal de seus bens, em nome de um coletivo que se diz dono de tudo: tudo é de todos, toda a produção intelectual é do povo e para o povo e o criador vai ser remunerado por isso, se for,  conforme valores estabelecidos por esse poder. Ora, isso é muito feio. Roubo, assalto. Por que não fazem isso com as revendedoras de automóveis? Com os supermercados? Com os bancos? Isso é pura covardia. Jogo de interesses, jogo de cena que influencia os desavisados e inocentes úteis. No âmbito internacional, desde a quebra do mercado fonográfico pelo mau-caráter do Napster, que não lembro o nome, houve um efeito dominó e uma terra arrasada que faz suas vítimas em todos os segmentos do mercado da indústria cultural. Alguma coisa mudou e está mudando e vai continuar a mudar. Não está nada mais estabelecido. É tudo cada vez mais rápido e o que começou com esse desmantelamento está se construindo de diversas outras maneiras, por exemplo como os crowdfundings e crowdsourcings. Novos tempos. A inteligência humana não tem igual, o tiro saiu pela culatra.

Terceira canção: MILONGA ORIENTAO

MÚSICA ESPARSA: Um dos teus esforços artísticos (como exemplifica o documentário “Mais uma Canção”) tem sido rastrear caminhos e narrativas possíveis sobre as origens de expressões culturais e musicais como a Milonga. Quais os principais discursos sobre a cultura brasileira e gaúcha tu acabaste relativizando nesse percurso?

BEBETO ALVES: Eu não relativizei nada, nunca, sempre me postei na dimensão de uma cultura sul- brasileira, como um apêndice, como um anexo, ao que se convencionou denominar identidade nacional. E quando falo anexo, ou apêndice,  falo de uma dimensão cultural ininteligível para a postura de uma cultura dominante no país caracterizada como uma  cultura tropicalista. Sou pós-tropicalista, não no sentido estético, o que poderia ser uma identificação, mas, no sentido do que “vem depois”, do “adiante”, da dimensão de um país integralizado pelas suas manifestações regionais, por suas riquezas, diversidades e diferenças, pelo meu tempo, pela contemporaneidade. Poderia fazer uma dissertação sobre essa questão do ponto de vista do preconceito imposto pela inteligentzia nacional, pela centralização cultural, que sempre nos identificou com o autoritarismo, com a ditadura, com os militares, com a homofobia, com o racismo e separatismo, não exatamente nessa ordem e muito menos como uma cultura genuína. Nós temos muitos problemas internos e isso nos desfavorece, nos fragiliza nessa relação. Nós somos o nosso maior problema. De qualquer modo acho que essa dimensão de um sul rico, multicultural, contemporâneo e criativo é onde eu me encontro e não abro mão, seja para que Brasil for, ou que sul do Brasil for.

MÚSICA ESPARSA:  Deixe um recado para os leitores do “Música Esparsa”.

BEBETO ALVES: Se assuma!

Anúncios