A cantora e compositora Alessandra Leão lançou recentemente Pedra de Sal, o primeiro EP de uma trilogia a ser completada no próximo ano com Aço e Língua.

Dona de uma singularidade artística incomparável e surpreendente, Alessandra já apareceu AQUI no blog quando comentei sobre os álbuns Brinquedo de tambor (2006) e Dois cordões (2009), discos incontornáveis para quem quiser conhecer a música brasileira contemporânea.

2014 Pedra de Sal - EP (capa)

De surpresa e alegria, portanto, fui acometido quando soube do novo projeto artístico da “trilogia de EPs”, ouvindo inúmeras vezes as primeiras 5 canções da série, que formam o impactante Pedra de Sal. Nessa postagem, proponho uma audição faixa a faixa, mesclando meus comentários com apreciações feitas pela própria Alessandra Leão na sua fanpage do Facebook e no encarte do EP.

1) Doutrina e toque de Iemanjá

O repertório começa com duas toadas registradas pela Missão de Pesquisas Folclóricas capitaneada por Mário de Andrade. Os registros originais foram efetuados em 1938, em Belém do Pará e Recife. Aqui, a vitalidade da voz da intérprete é reforçada pelas participações especiais de Juçara Marçal e Sandra Ximenez. No arranjo, destaque para a combinação entre as guitarras de Caçapa e a bateria de Guilherme Kastrup.

2) Pedra de Sal

A faixa-título do EP, de letra que mistura corpo, cor e pedra, tem uma aridez cadenciada que mostra o quanto a poética e a música de Alessandra expressam uma caminhada diferente e autêntica na música contemporânea. Mais uma vez, o arranjo de Caçapa (que também é o diretor musical do trabalho) ajuda a transportar o ouvinte para a experiência artística proposta pela cantora.

3) Tatuzinho

Alessandra Leão: Fiz a melodia de “Tatuzinho” quando meu filho era pequeno (e lá se vão quase 16 anos), era uma música de ninar, gravei no meu primeiro disco, Brinquedo de Tambor, em 2006. Há uns dois anos atrás, Kiko Dinucci me mandou uma gravação com a letra que ele compôs, e assim “Tatuzinho” passou a ser nossa. Passou a ser pro meu filho hoje, porque o tempo passa e transforma a gente e transforma a música e transforma tudo… Viva o tempo!

4) Mofo

Alessandra Leão: Mofo é uma música dedicada ao Recife, e principalmente à luta do Grupo Direitos Urbanos e do Movimento#OcupeEstelita. Mofo fala dessa lógica insana de olhar e pensar a cidade a partir da “janela do 30º andar”. É preciso e urgente pensar a cidade a partir da perspectiva de quem anda na rua, onde o vento e a brisa do mar deveriam conseguir adentrar mais na cidade, arejar também as mentes e balançar os cabelos… É sobre o desejo por essa brisa, por uma cidade em que a gente (e quando digo a gente, falo de todos) consiga caminhar, pedalar, passear e viver de maneira menos “mofada” e mais feliz.

5) Devora o Lobo

Belíssima apropriação do tema do lobo e de sua sina devoradora na cultura ocidental, aqui pensada a partir de uma ótica mais subjetiva e existencial. Se você não acredita na existência de lobos interiores e prefere não ser convencido do contrário, recomendo não escutar essa impressionante interpretação de Alessandra. Mas se você quer uma companhia para o silêncio do lobo que te devora, essa é a canção ideal.

Para finalizar, o EP Pedra de Sal, parceria entre a Garganta Records e a YB Music, já é, em si, uma criação que se basta e, por isso mesmo, traz ainda mais expectativa quanto à sequência da trilogia que ao todo promete ser a mais visceral e original dos últimos tempos.

Para mais informações sobre o EP acesse o site de Alessandra Leão AQUI.

Saudações musicais!

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