Tatá Aeroplano (Cŕeditos: Maira Acayaba)
Tatá Aeroplano (Cŕeditos: Maira Acayaba)

Faz pouco tempo que conheci os dois discos solo do cantor e compositor Tatá Aeroplano, integrante das bandas Cérebro Eletrônico e Jumbo Elektro. Desde então, a audição constante das canções de Tatá Aeroplano (2012) e Na Loucura & Na Lucidez (2014) traz sucessivas descobertas sonoras e poéticas a partir da abordagem multifacetada de experiências urbanas, amorosas e noturnas que o artista explora nas suas composições.

Ironia, humor, filosofia, belos arranjos, melancolia: tudo isso é apropriado por Tatá na criação de suas crônicas musicais, repletas de narrativas tão vivas e de uma sonoridade tão contagiante que parecem nos transportar para um universo particular no qual encontramos nossas experiências e reminiscências traduzidas artisticamente pelo cantor e sua banda, formada por Dustan Gallas (baixo, mellotron, cravo), Júnior Boca (guitarras) e Bruno Buarque (bateria e percussão).

Confiram abaixo a entrevista que fiz com Tatá Aeroplano, escutem as canções sugeridas e, para conhecer mais sobre o artista acessem seu site AQUI.

Saudações musicais!

1) Tempos atrás estava lendo um excelente texto do Lorenzo Mammì (edição de fevereiro de 2014 da Revista Piauí) no qual ele defende que os LPs foram/são uma forma artística mais do que um suporte de registro fonográfico. Pois bem, em certa altura do texto ele afirma o seguinte (depois de abordar a gravação de Sgt Pepper’s dos Beatles): “Hoje não faria mais sentido uma gravadora investir cinco meses de trabalho e 700 horas de estúdio num único disco, como foi o caso de Sgt. Pepper’s. Estamos próximos da época em que todo mundo poderá produzir sua própria música. Mas em que, justamente por isso, todas as músicas serão igualmente irrelevantes.” Na hora que li essas últimas frases fiquei bastante indignado com esse prognóstico sobre a irrelevância, mas depois pensei que essa constatação é bastante desafiadora, ainda mais em um contexto no qual o trabalho de divulgação e visibilidade das músicas está cada vez mais difuso (com a enorme exceção do show business) e disperso entre os próprios criadores.

Poderias comentar um pouco sobre essa questão e como encaras o processo de dar sentido às tuas criações?

Ótima questão Icaro, fica claro que o Lorenzo Mammi parou com a indústria. A música existe muito antes dele e do que veio a ser a indústria fonográfica do século passado, que hoje sobrevive aos trancos e barrancos. O que aconteceu, inclusive ele cita um caso muito interessante, é que os Beatles acabaram abrindo a caixa de pandora, eles foram para o estúdio, quem quis aprender a gravar discos, aprendeu, que é o caso do Paul. Os Beatles levaram a indústria musical ao auge total. Depois sabemos o que aconteceu.
A primeira canção veio quando eu tinha seis anos de idade. Cheguei aos 17 anos com algumas dezenas de canções. Sem saber tocar violão. Guardando melodias na cabeça. Aprendi a tocar violão. Nasceram as bandas e nós nunca tivemos uma gravadora. O que eu agradeço todos os dias. A música cada vez mais ocupa minha vida e minha existência. Tem horas que eu simplesmente sou uma melodia. Isso não tem a ver com indústria. Tem a ver com espiritualidade. Conexão ancestral. Esse é o momento atual de todos que respeitam a música. Eu piro com tantos discos incríveis lançados todos os anos. Acabei de escutar o Presente da Trupe Chá de Boldo, que ganhei dias atrás. No ano passado escutei dezenas e dezenas de discos. E o que falar do Kiko, Juçara, França e o Cabral, mandando brasa com o Metá Metá e vibrando tantos discos sensacionais como o da Juçara ano passado. Estamos vivendo um dos melhores momentos da música de todos os tempos. Eu consegui estruturar minha forma de trabalhar, lançar discos, vender, conectar com meu público, de uma maneira simples e com muito dedicação, acho isso o máximo, poder viver dessa maneira, sem as neuras e toda a loucura dos tempos onde as bandas e a música viraram muita grana para a indústria. Hoje o tempo é outro e tem uma galera que respeita o tempo e a música.

2) Em muitas de suas canções as experiências urbanas, amorosas e noturnas são tematizadas a partir de diferentes aspectos. Qual a importância da diversidade dessas experiências para o teu processo criativo?

            Todas essas canções, principalmente presentes nos dois discos que lancei, nasceram das minhas vivências noturnas e amores boêmios. Vivi uma fase noturna muito intensa, continuo discotecando e tocando na noite, mas hoje priorizo também as belezas de acordar cedo, viver o dia, viver a natureza, conectar com os pássaros, foi justamente quando voltei a receber umas melodias loucas em embromation, foi quando eu reconectei com essa natureza! A diversidade das experiências que vivi e vivo até hoje são fundamentais no meu processo de consciencia cósmica. Inconscientemente eu sempre busquei essa liberdade de expressão, creio que toda essa vivência urbana misturada com esse momento rural ancestral vão me trazer novos temas cantados em português quando a fase de compor embromation for embora.

3) Aproveitando o mote do título do teu último álbum, que tipo de loucuras atualmente tu considerarias na verdade fontes de lucidez e que tipo de lucidez, considerada assim por determinados setores da sociedade, poderíamos pensar como um tipo de loucura?

Icaro, essa é a melhor pergunta que me fizeram sobre o tema do disco. Durante muito tempo eu vivi intensamente um estado de loucura quase que constante, até uma noite em que eu tive um sonho desses que mudam tudo. Lembro que tinha ido dormir chapado e acordei em estado de graça com esse sonho, onde aparecia a Patrícia Palumbo, num sítio, que era o sítio onde eu passei minha infância e ela dizia para mim: “Você tem que voltar pro sítio Tatá, os pássaros que você viu durante sua infância estão todos lá, e tem mais um monte que você ainda vai conhecer, você tem que voltar lá, eles estão todos lá”. Daí apareciam canários, pintassilgos, tizius, coleirinhas, tuins. Acordei transcendido. A partir daí uma sensação de lucidez tomou conta de mim aos poucos sem que eu precisasse deixar a loucura. As duas coisas convivem muito bem mesmo. Creio que a sociedade, como entidade, não aceita muito bem determinados atos de loucura e a lucidez pregada por ela acaba transformando a gente numa panela de pressão que pode explodir a qualquer momento.
A minha principal responsabilidade é com o Cosmos, é viver de uma maneira simples, conectado às pessoas, ao amor, à natureza, conectado à literatura, ao cinema, à arte e respeitar as diferenças. Não abro mão de ficar louco, de tomar minhas biritas e expandir a mente, mas faço isso consciente de que o importante é sempre manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo, senão não vale a pena a Loucura nem a Lucidez.

4) Deixe um recado para os leitores do Música Esparsa.

Gostaria de parabenizar o Música Esparsa e o Icaro! Sempre em frente com a música, as ideias, os sons, as palavras. Sou viciado nisso tudo! Abraços cósmicos a todos!

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