Lançado em 2014, o filme Siba – Nos Balés da Tormenta, é uma produção audiovisual indispensável sobre um dos artistas mais incríveis da música brasileira contemporânea.

siba

Dirigido por Caio Jobim e Paulo Francischelli e lançado pelo selo DobleChapa, a narrativa aborda a trajetória recente do músico pernambucano Siba que, a partir do álbum Avante (2012) reorientou sua atividade artística em uma síntese peculiar entre a “música tradicional”, representada principalmente pelo maracatu, e a música urbana contemporânea.

No material, Siba comenta a sua predileção pelo desafio artístico da poesia, que considera uma manifestação artística com um valor em si, diferente das apropriações que faz dos instrumentos, sejam eles a guitarra ou os tambores do maracatu, que servem mais como mediações possíveis para a expressão artística. Nesse processo, a poesia da Zona da Mata Norte, em Pernambuco, e suas características peculiares, é uma das referências fundamentais da criação do artista, que consegue, a partir desta matriz, abordar desde temas subjetivos, existenciais e amorosos, até críticas políticas e sociais como dificilmente se vê com tanta qualidade no cenário musical contemporâneo.

No primeiro disco desta nova fase do artista, Avante (2012), produzido por Fernando Catatau, as guitarras ganham um protagonismo decisivo e estimulante na sonoridade das músicas, em uma viagem de recriação e reconfiguração de trajetória altamente inspirada e inspiradora, como contam os versos da canção de abertura do disco, Preparando o salto, cujo videoclipe pode ser assistido a seguir.

No álbum mais recente, De Baile Solto (2015), Siba aposta em um desafio mais diferenciado, centrando o processo criativo no Maracatu de Baque Solto (influenciado por seus vínculos com esta expressão cultural e pelas polêmicas que envolveram sua tentativa de censura em 2014) e em um olhar atento e crítico à vida contemporânea.

No texto oficial de divulgação do disco, Siba diz: “No texto, não consegui ir muito longe da “rima, métrica e oração” de minha própria tradição, mas aqui e acolá as palavras se espalham um pouco mais do que o costume, inspirado na elasticidade da música congolesa, que é também a referência para as guitarras entrelaçadas, o gosto pela saturação do som, a dança como finalidade auditiva, a vontade de que nunca se acabe, elementos igualmente presentes na música ritual e de rua do Brasil”.

Para uma prova desta sonoridade rica e empolgante, assistam uma performance para a canção Mel Tamarindo, logo abaixo.

Finalizo o texto, afirmando que Siba é um artista excepcional, que consegue sintetizar em um trabalho muito original diferentes matrizes culturais (maracatu, rock, música tradicional) e expressões artísticas diferentes (poesia e música), sendo um dos principais representantes, no cenário artístico brasileiro da atualidade, daquilo que o filósofo francês Jacques Rancière conceitua como “regime estético das artes”, no qual a tradição do novo e o novo da tradição mesclam-se para criar algo singular e que, apesar de ter referências fundamentais nos compromissos ético-políticos do nosso tempo, produz um efeito autônomo do qual ele retira sua maior força na transformação poética e crítica do mundo em um material belo e instigante.

Confiram mais informações sobre Siba (incluindo a possibilidade de baixar toda a sua discografia gratuitamente) no site do artista AQUI e assistam o filme, disponibilizado no Youtube, logo abaixo.

Saudações musicais!

Anúncios