Em 2013, a cantora curitibana Juliana Cortes lançou seu álbum de estreia, intitulado Invento. Não tardou muito para que eu conhecesse o disco, cujo repertório incluía três músicas já gravadas por Vitor Ramil, cantor e compositor que escuto quase diariamente desde 2008.

Juliana Cortes (Créditos: Reinaldo Altamirano)
Juliana Cortes (Créditos: Reinaldo Altamirano)

Há três anos, portanto, já gostaria de ter escrito no blog sobre a beleza das músicas de Invento, mas, como tantos artistas e discos que não consegui comentar neste espaço por absoluta falta de tempo, acaba que só agora consigo abordar a música de Juliana Cortes e vocês, que ainda não conhecem a artista, podem desfrutar um pouco de sua arte através desta postagem.

A recompensa do atraso, no entanto, é bem especial: Juliana aceitou responder a algumas perguntas deste blogueiro e travamos uma conversa esparsa sobre algumas ideias musicais desta artista, que promete continuar uma trajetória incrível com seu próximo disco, a ser lançado em 2016, intitulado Gris.

Confiram abaixo este belo trabalho e a instigante e agradável conversa musical com Juliana Cortes.

Saudações musicais!

1) Escolha duas canções de Invento e comente sobre elas, para constarem como um guia sonoro da entrevista.

FILOSOFANDO

Filosofando, de autoria do Alexandre Nero, tem um arranjo que é a minha cara. Adoro os vocais, marcas do trabalho do Ronaldo Saggiorato, baixista que admiro muito e que escreveu parte dos arranjos do disco, além de tocá-lo maravilhosamente bem.

O VELHO LEON E NATÁLIA EM COYOACÁN

O Velho Leon e Natália em Coyoacán é um poema do Paulo Leminski que foi musicado por Vitor Ramil, dois personagens importantes no meu trabalho de intérprete. A obra do Vitor Ramil permeia todo o meu trabalho e me reinventou como artista. Dividir os vocais desta música com o Vitor foi um presente da vida.

2) Comente um pouco sobre tua trajetória na música, como intérprete e produtora.

Faço música desde a infância. Não houve uma ruptura entre uma coisa ou outra. Sempre cantei em corais e fiz vários espetáculos como corista – da música de concerto à música popular. Participei de vários discos infantis, trilhas, pesquisas relacionadas à música, livros de partituras, etc…. A minha mais recente investida nessa louca viagem musical é como artista solista ou, se preferir, cantora. Sou muito tímida e só me tornei solista porque havia em mim uma necessidade de cantar mais. Acredite, sou mais livre cantando do que falando.

Minha história na produção começou na faculdade. Além da faculdade de jornalismo, fiz Bacharelado em Música Popular e dentro do curso conheci um pouco mais do ofício do artista como um todo. Resolvi entender melhor o caminho da produção cultural: como produzir um show, um cd, um DVD, um livro… Percebi também que, além de somar ao meu trabalho de cantora, através da produção eu poderia aprender mais e vivenciar experiências musicais com outros gêneros e outros artistas. Eu pude – através da produção – mergulhar profundamente na obra de diversos artistas e isso me fez crescer muito. Produzi inúmeros trabalhos. Cd´s, DVD´s, livros, exposições, shows, turnês… A produção nunca parou, mas tirei “férias” desde o término de uma mega produção com o Raul de Souza e Ron Carter, em 2014.

Atualmente, tenho uma produtora chamada INVENTO que gerencia a minha carreira e que em 2016 se tornará um selo.

3) Há quem diga que arte é uma forma de criar e dar visibilidade a um novo olhar sobre o mundo. Partindo dessa premissa, que “outro mundo” os teus ouvintes podem vislumbrar a partir das canções de “Invento”?

INVENTO é uma possibilidade estética. Uma fantasia. Uma junção de vários elementos musicais de Curitiba (experimental + jazz + rock + pop) com uma literatura mais descritiva e uma poesia mais simbolista. Tentei imprimir um lugar fictício onde – na minha fantasia- esses elementos coexistem. Chamei isso de “terceira dimensão”.

Ao longo da divulgação do álbum, percebi que isso parecia uma loucura e deixei de verbalizar esse conceito para fazer com que cada um viaje nos seus próprios mundos. Dou elementos, palavras, intenções, mas o ouvinte cria seu próprio universo.

4) Vitor Ramil, em entrevista para este blog, comentou o seguinte sobre a “estética do frio”: “Na origem da ideia da estética do frio está uma motivação artística e outra identitária e política, que se confundem. Acho que ela, que tem se desenvolvido por mostrar-se receptiva à contribuição de outras ideias, tem contribuído, por exemplo, para que muitos brasileiros, mesmo de regiões distantes da nossa, como já me confidenciaram muitos nordestinos, nortistas ou paulistas, reflitam sobre suas próprias identidades. Isso é algo que só ajuda a dar relevo à nossa diversidade nacional.” Escreva sobre as motivações artísticas e identitárias que fizeram você dialogar com a estética do frio.

É impossível não se deixar tocar pela obra “A Estética do Frio” do Vitor, tanto na audição do álbum [Ramilonga, 1997] quanto no estudo literário. Me senti acolhida – finalmente – por um “movimento” artístico e a partir desta atração – primeiramente artística – desenvolvi INVENTO e, consequentemente, todo o meu trajeto na música. O estudo do Vitor permitiu que eu tivesse um primeiro encontro com o significado prático de “movimento artístico”. Consegui me identificar e, depois, me ressignificar.

Juliana Cortes (Créditos: Reinaldo Altamirano)
Juliana Cortes (Créditos: Reinaldo Altamirano)

5) Alex Ross, crítico musical dos E.U.A., escreveu o seguinte em um de seus textos: “Eu odeio ‘música clássica’: não a coisa, mas o nome. Ele aprisiona uma arte tenazmente viva num parque temático do passado. Elimina a possibilidade de que música no espírito de Beethoven ainda possa ser criada hoje. Condena ao limbo a obra de milhares de compositores ativos que precisam explicar a pessoas de outro modo bem informadas o que fazem para ganhar a vida. Essa expressão é uma obra-prima de publicidade negativa, um tour de force de anti-propaganda. Gostaria que houvesse outro nome. Invejo o pessoal do jazz que fala simplesmente de ‘a música’. Alguns fãs de jazz também chamam sua arte de’música clássica dos Estados Unidos’, e eu proponho uma troca: eles podem ficar com o ‘clássica’, eu ficarei com ‘a música’.” [Escuta só: do clássico ao pop. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p. 19]. Na tua percepção, quais rótulos utilizados atualmente mais atrapalham do que ajudam na relação dos artistas e do público em geral com a música?

Meus discos eu tenho chamado de “música do mundo” ou “música brasileira contemporânea”. Depende muito de onde/para quem dizer. No encarte do meu disco faço um pequeno retrato (irônico) dessa classificação. Em “INVENTO” há a inscrição “Sul Jazz Experimental Contemporâneo Latino”.

Particularmente, não gosto de nenhuma sigla ou rótulo. Em especial MPB que, na minha opinião, não acompanhou a produção da música atualmente.

Por fim, acho que as siglas engessam a criação artística quanto à forma, letra, interpretação….

6) Comente um pouco sobre teus novos projetos musicais, como o disco previsto para ser lançado no próximo ano.

GRIS é o nome do próximo trabalho e será lançado em 2016. O novo álbum foi gravado ao longo de 2015 em São Paulo, Curitiba e Buenos Aires.

A sonoridade é bem diferente de INVENTO. Os traços tangueiros e sulistas estão lá, mas há menos espaços para improvisações como no primeiro CD. No repertório, há uma inédita do Vitor Ramil e Paulo Leminski, duas canções do Leo Minax, uma parceria com Estrela Leminski e outra com Chico Amaral, uma versão minha para uma música do uruguaio Dany López além de duas obras feitas para mim: uma escrita pelo Luiz Tatit e outra pelo Arrigo Barnabé, ambas com música do Dante Ozzetti. Há também Carlos Careqa, Simone Wicca, Maurício Pereira, Grace Torres e Ulisses Galleto.

Este novo trabalho também tem várias participações especiais: Diego Schissi, Santiago Segret, Juan Pablo Navarro, Guilherme Kastrup, Du Moreira, Antônio Loureiro e também Paulinho Moska, que divide os vocais comigo na canção MISMO (Leo Minax/ Estrela Leminski) e Arrigo Barnabé que faz intervenções na faixa O MAL, que escreveu para mim.

7) Deixe um recado para os leitores do Música Esparsa.

Agradeço as provocações dessa entrevista. Paz e Bem!

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