Entre irmãos de arte, geografia
à parte, não há contrabando“.

Luiz Sérgio Metz

E chegamos à segunda entrevista da seção MetaBlog, dedicada a divulgar as ideias e as iniciativas de diversos blogueiros do Brasil dos quais sou leitor frequente e que há muito tempo penso em trazer para os leitores deste blog também apreciarem.

A ideia desta seção, de um blog divulgar outros blogs, não é apenas fortalecer parcerias ou evidenciar um percurso das minhas pesquisas e leituras na rede, mas principalmente convidar autores e editores de blogs independentes para colaborarem com a ampliação da nossa visão sobre cultura, música, arte e comunicação.

A colaboração de hoje vem do jornalista João Vicente Ribas, criador do blog Pampurbana, um excelente espaço virtual para quem quer percorrer música, fotografia e outras dimensões culturais de nossa América Latina através de um olhar diferenciado e de textos com informações precisas e interpretações criativas e instigantes.

Portanto, confiram a entrevista e acessem o blog PAMPURBANA.

Saudações musicais!

Música Esparsa – Quando e por que tu começaste a se interessar pela escrita sobre música e, especificamente, em divulgar tuas ideias através do blog Pampurbana?

João Vicente: Comecei a escrever sobre música no início dos anos dois mil quando era repórter do jornal Diário da Manhã, em Passo Fundo (RS). Cobria shows e produzia um caderno de Cultura. Na época eu também atuava como compositor e participava de mostras de música autoral na cidade. Por volta de 2003, levei ao ar na rádio Diário AM um programa dedicado ao Nativismo em suas amplas vertentes. Chamava-se Feito o Carreto, inspirado na música vencedora do festival Califórnia da Canção no ano anterior, composta por Mauro Moraes e interpretada por Pirisca Grecco. Depois passei a escrever na revista Glow e editei por dois anos um jornal alternativo chamado Cadafalso, ao lado do amigo e colega Daniel Bittencourt. Com o final da publicação impressa, em 2007, ainda na região norte do estado, resolvi seguir escrevendo via internet. Criei o blog Pampurbana e nunca parei de postar textos e fotografias, refletindo sobre a cultura do sul do país, sempre em diálogo com o Prata, o Brasil e o mundo. Desde o ano passado, passei a publicar também artigos acadêmicos abordando as relações entre música e mídia, resultado da pesquisa de doutorado que estou desenvolvendo na PUCRS, em Porto Alegre (RS). Mas a linguagem do blog segue na linha coloquial; às vezes, marota.

ME: Na tua percepção, quais rótulos utilizados atualmente mais atrapalham do que ajudam na relação dos artistas e do público em geral com a música?

JV: Não tenho nada contra os rótulos em si, pois o papel deles é simplificar a informação para ajudar as pessoas a entenderem sobre que tipo de música se está falando. É uma questão de comunicação. Quem não gosta de rótulo são os músicos, pois se sentem reduzidos, e com toda razão. Mas para jornalistas e público, acho ótimo que se inventem mil rótulos a cada dia, para qualificar toda e qualquer tendência que surja. Mas o bom é que o rótulo tenha o prazo de validade respeitado. Assim como emergem novas cenas e propostas estéticas a cada ano, e devemos designá-las com algumas palavras, não tenhamos dó de abandonar velhas siglas e adjetivos. Por exemplo: MPB hoje diz muita coisa e nada ao mesmo tempo. Já “gótico suave” pode daqui a 5 minutos ser super preciso e atual, mas amanhã já não servirá para mais nada. Então, respondendo objetivamente tua pergunta, MPB hoje é um rótulo pouco útil, pois engloba de Chico Buarque a Jorge Vercilo (isto se não o alargarmos mais, como faz o prêmio Multishow). Já Tchê Music, creio que foi um rótulo que respeitou seu tempo de vida, sumindo logo após seu fracasso comercial. Mas quero terminar citando um caso complicado sobre o qual estou pesquisando: a MPG. Nos anos 80 era uma designação corriqueira. Designava os cancionistas gaúchos que não eram nativistas, nem roqueiros. Hoje o rótulo saiu de moda e não se criou nada parecido ou diferente para adjetivar artistas como Bebeto Alves, Nei Lisboa, Vitor Ramil, entre muitos outros. Tudo bem enquanto o sepultar esta insígnia contribuiu para a liberdade criativa destes compositores. O problema ocorre quando queremos convencer um leigo de que existe uma música local tão interessante quanto a dos ícones da MPB, mas que não é bem MPB, nem rock, tampouco regionalismo. “É o que então?” O rapaz chega na guria e convida: “Topa ir num show hoje, de um cantor daqui? Um daqueles, sabe?” (Como diria Arthur de Faria: daquela música que não tem nome). Como convencer a gata se o indivíduo nem sabe o nome da música? Se houvesse um rótulo que indicasse um movimento, uma cena ou um circuito, serviria de breve referência para o público e para a mídia. Do ponto de vista da comunicação, reforçaria, pelo conjunto, cada um.

ME: Considero uma frase do André Bazin, citada a seguir, uma importante fonte de inspiração para persistir na divulgação da música independente: “A função do crítico não é trazer numa bandeja de prata uma verdade que não existe, mas prolongar o máximo possível, na inteligência e na sensibilidade dos que o leem, o impacto da obra de arte”. De alguma maneira tu também entendes a definição do autor para a “função do crítico” (independente de te considerares assim) como algo próximo do que publicas no Pampurbana?

JV: Bazin é luxo só! Tenho convicção de que não valeria a pena escrever um blog apenas com simples informes e divulgação de shows e discos que gosto. Este tipo de informação está acessível de forma ampla na internet. O blog Pampurbana só vale a pena para mim e para os leitores quando há conteúdo original: contextualização, descrição da experiência estética e juízo de valor. Em busca disto, invento histórias em cima de fatos, crio jogos e procuro fazer perguntas incômodas. A leitura de um texto do blog deve ser sim um prolongamento da fruição, ou o despertar para ela. De alguma maneira, faço um papel de “crítico”, principalmente quando comento shows de músicos locais, algo que a grande imprensa não faz mais (faz só em mega-espetáculo). É importante para a cena musical o registro e a crítica. Se não, fica só na divulgação e depois ninguém sabe se teve show mesmo, se tava bom, se tinha público. A não ser que se esteja presente ou se tenha amigos que postem fotos no Facebook. Por isso, o comentário é fundamental. Fortalece o circuito. Mesmo que possamos escrever opiniões das quais nos arrependamos depois, vamos aprendendo, compartilhando e criando juntos.

ME: Deixe um recado para os leitores do Música Esparsa.

Hein?!, Nei Lisboa, 1988

Meu amigo, não se desfaça nessa fama
Todo esse mundo do rock’n roll
É ruim de cama
Eles querem diversão e bolo
Eles querem tudo e mais um pouco
Eles querem Krig-ha, Bandolo!
E champaigne
Eles querem frases nos jornais
Eles querem parecer sinceros demais
Eles querem diversão e bolo
Eles querem te fazer de tolo
E eu também

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