Desde que ouvi o repertório completo do álbum GRIS, segundo registro discográfico solo da cantora Juliana Cortes, não tenho tido mais sossego. Primeiro no Spotify e agora com o disco físico na vitrola, o meu entusiasmo com a proposta musical desse novo trabalho é muito especial. Por isso, no texto de hoje, mais extenso do que o comum, vou comentar o álbum faixa a faixa e ainda escrever sobre o show de lançamento do disco, em Curitiba.

O álbum

Com produção e arranjos de Dante Ozzetti (que acompanho desde sua parceria com a irmã Ná e com Ceumar), GRIS inclui um repertório de dez canções diversas na forma e no conteúdo, mas unidas na qualidade dos compositores e instrumentistas e na atmosfera envolvente da voz de Juliana Cortes, que combina suavidade e força na medida certa.

Além de Dante no violão, as gravações contaram com Vina Lacerda (percussão), Ronaldo Saggiorato (baixo), Romildo Weingartner (violoncelo), e Guilherme Kastrup (programação), e com participações especiais mencionadas especificamente nos comentários faixa a faixa que se encontram abaixo.

Antes ainda dos comentários, um recado. Em seu programa “Provovações”, o saudoso Antonio Abujamra fazia uma pergunta recorrente aos seus entrevistados. “Você chora diante da beleza?”, dizia ele com seu tom instigante e provocador. Pois bem, sempre me emociono diante da beleza e, nos últimos tempos, este álbum GRIS tem sido a principal fonte das minhas lágrimas esteticamente motivadas. Então, preparem-se e aproveitem!

Uma carta uma brasa através

Como admirador inveterado da obra de Vitor Ramil, sempre persigo por aí criações dele que vão além daquelas registradas nos discos do próprio artista. Foi assim, inclusive, que conheci o disco Invento, da Juliana. Não preciso dizer então como fiquei feliz em saber que a abertura de GRIS é uma versão inédita do Vitor para poema de Paulo Leminski.

Germinal

Conheci o trabalho de Dany López em 2009, quando acompanhava Daniel Drexler, como instrumentista, em uma turnê no Brasil. Desde então, e principalmente a partir da sua parceria com Marcelo Delacroix em Canciones Cruzadas, tenho constantemente acompanhado as criações do músico. Para minha felicidade, encontro uma música dele em GRIS e é uma das minhas preferidas. O arranjo especial de Antônio Loureiro nos vibrafones, com a cadência da voz de Juliana, transmite uma sensação de infinitude muito especial. Essa é para ouvir e flutuar. Confiram abaixo.

O Mal

Nesta composição inédita e feita especialmente para o disco, Dante Ozzetti e o incrível Arrigo Barnabé criam uma sedutora história de um personagem enfeitiçado pelo mal, mas cujo agente não parece ser aquele ao qual sempre se atribui este tipo de sortilégio. Um tema lindo e envolvente.

Bandida

Grace Torres e Ulisses Galetto, parceiros do grupo FATO, brindam os ouvintes com uma instigante canção, repleta de sugestões e ideias que nos ajudam a interpretar poeticamente o movimento da vida e suas nuances. É uma das duas canções gravadas com o trio Santiago Segret (bandoneón), Juan Pablo Navarro (contrabaixo) e Diego Schissi (piano), que imprimem buenos aires tangueiros ao repertório. Para mim, o tema mais forte do disco.

Mismo

Uma parceira entre Leo Minax e Estrela Leminski, também foi gravada com o trio Santiago, Diego e Juan Pablo e com a participação especial nos vocais de Paulinho Moska. O jogo de palavras em espanhol torna a canção um bonito exercício vocal e interpretativo. Confiram abaixo.

Costura pra dentro

Carlos Careqa, já presente em Invento com o tema Achado, aparece aqui em uma parceria com Simone Wicca. A letra, relacionando afetos e dilemas existenciais com as tecituras do artesanato, possui até uma máquina de costura na sonoridade do arranjo.

Circular 102

Uma linha de transporte público de Belo Horizonte é o mote da parceria entre Leo Minax e Chico Amaral para traduzir em canção as idas e vindas do tempo e de seus desdobramentos na vida cotidiana e nas referências do novo e do antigo na nossa existência. A faixa traz uma leveza certeira ao repertório.

À você amigo

Letra e música de Paulo Leminski que também aborda, do seu modo, a passagem do tempo. Desta vez, um olhar para as transformações de uma amizade que sofre mudanças quando os sujeitos criam percursos e relações com o tempo de maneiras muito diferentes. A fina ironia e a tradução poética de um relacionamento transformado passeia pela melancolia e pelo bom humor de maneira incrível.

Balangandãs

Acostumado a ouvir essa música de Maurício Pereira na voz de Adriana Deffenti (em Peças de Pessoas, 2002), não encontrei resistência alguma em gostar muito também desta versão, que traz na letra e na interpretação de Juliana uma aparência despretensiosa necessária para transformar um diálogo e um devaneio em canção.

Outras Milongas

Uma parceria entre Dante Ozzetti e Luiz Tatit que resume o estado da arte das boas trocas musicais que criam preciosidades na cena artística atual e que faz uma síntese da própria trajetória do álbum, que agregou parceiros de diferentes locais e circulou, pelo menos no que diz respeito às gravações, por São Paulo, Curitiba e Buenos Aires.

O show

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Juliana e Dante (ao fundo), por Marcia Kohatsu.

Dentre as quatro apresentações destinadas ao lançamento do álbum GRIS no SESC Paço da Liberdade, em Curitiba, consegui apenas ir na última delas. Mas bastou a dose única para garantir contentamento e fruição emocionada.

Na apresentação, o ótimo suporte na produção, sonorização e iluminação deram um toque especial na atmosfera sonora, complementada com o anoitecer chuvoso entrevisto nas grandiosas e bonitas aberturas do centenário prédio do antigo Paço Municipal.

No repertório, todas as dez canções de Gris apresentadas com arranjos belíssimos, na companhia de Dante Ozzetti (violão), Vina Lacerda (percussão) e Ronaldo Saggiorato (baixo), três excelentes instrumentistas, compenetrados e criativos.

Além dos temas do novo disco, ainda tivemos duas das minhas preferidas canções do primeiro álbum, Invento (Achado e Velho León…) e duas gratas surpresas: Saia Azul (de Dante Ozzetti e Chico César), que marcou, segundo Juliana, o início de sua parceria com Dante e a participação incrível de Marcelo Delacroix que, além de dividir o vocal em Mismo e no bis de Velho León, interpretou lindamente duas canções de seu Depois do raio (2006). Escutar ao vivo Cantiga de Eira (Barbosa Lessa) e Ciranda da Lua (Marcelo Delacroix e Ronald Augusto) novamente, depois de sete anos, nesta circunstância especial, foi um dos melhores momentos que vivi este ano. Obrigado por isso Juliana e Marcelo!

Assim, um álbum incrível não poderia ser lançado de outra maneira se não com um lindo show como o que aconteceu sábado passado. Se usarmos como referência, então, o disco e seu lançamento, GRIS será a grande obra musical deste ano. Para mim, já é!

Saudações musicais!

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