E chegamos à terceira entrevista da seção MetaBlog, dedicada a divulgar as ideias e as iniciativas de diversos blogueiros do Brasil dos quais sou leitor frequente e que há muito tempo penso em trazer para os leitores deste blog também apreciarem.

A ideia desta seção, de um blog divulgar outros blogs, não é apenas fortalecer parcerias ou evidenciar um percurso das minhas pesquisas e leituras na rede, mas principalmente convidar autores e editores de blogs independentes para colaborarem com a ampliação da nossa visão sobre cultura, música, arte e comunicação.

A colaboração de hoje vem do blogueiro Chico Cougo, idealizador do Tanguería, espaço dedicado a comentar as músicas, os discos e os personagens tangueiros do passado e do presente fugindo dos clichês que brasileiros e mesmo produções for export do gênero teimam em reproduzir.

Mas além disso, Chico ainda tem outras histórias de sucesso na blogosfera – como as páginas Revivendo Teixeirinha e Memórias do Chico, que hoje se encontram sem atualizações e/ou com acesso restrito – e na pesquisa acadêmica sobre música e história. Sua excelente dissertação de mestrado “Canta meu povo: uma interpretação histórica sobre a produção musical de Teixeirinha (1959-1985)” pode ser baixada AQUI.

Não bastasse tudo isso, ele é o grande amigo que me incentivou a criar este espaço virtual, depois de me ver, empolgado, comentar sobre a cena musical de Porto Alegre após uma apresentação do saudoso Geraldo Flach (com Luciah Helena), em 2009. Resumindo, a entrevista de hoje é com o padrinho oficial do Música Esparsa, a quem o blog deve não apenas a sua origem mas também a sua continuidade (com os frequentes incentivos, novos layouts e troca constante de ideias e impressões sobre o mundo da música e da cultura).

Portanto, desfrutem das ideias do Chico e confiram o blog Tanguería.

Saudações musicais!

Música Esparsa – Quando e por que tu começaste a se interessar pela escrita sobre música e, especificamente, em divulgar tuas ideias através do blog Tanguería?

Chico Cougo: Tanguería é, na verdade, fruto de um longo percurso escrevendo sobre música – sempre de forma contemplativa, já que não sou músico. Em 2007, no boom da chamada blogosfera, eu criei o Revivendo Teixeirinha, um blog destinado à vida e à obra de Vitor Mateus Teixeira (a quem dediquei uma dissertação de mestrado). Essa experiência durou alguns anos e me mostrou o quão bom é escrever sobre música e seu universo. Em 2008, criei outro blog, o Memórias do Chico, que durou oito anos e está fechado agora. No Memórias eu dediquei muitos escritos à música em geral, mas especialmente ao tango – meu gênero musical por excelência. Tive outras experiências mais efêmeras envolvendo a Internet e música, como os blogs América Macanuda e Platinidades (que duraram poucas postagens) e a natimorta revista Platinidade (em parceria com o próprio autor do Música Esparsa). Em todos estes lugares escrevi sobre tango, tanto o do Rio da Prata, quanto o brasileiro (sim, ele existe!). No final de 2015, decidi me dedicar apenas a esse tema nos escritos internéticos e criei o Tanguería. A ideia de ter um blog brasileiro exclusivamente sobre tango era antiga, pois falta material em português sobre esse gênero musical e há interessados nele. Depois de muito pensar, neste ano (2016) finalmente lancei o blog novo, inicialmente republicando postagens do Memórias do Chico, atualizadas e revistas. Por enquanto, são poucos os posts, o blog recém leva três meses e só há pouco tempo escrevi o primeiro texto cem por cento inédito (uma resenha do disco “Tangos Inesperados”, de Lucio Arce), mas tenho muito material guardado, muitas ideias, análises anotadas em velhos cadernos, vários livros que li e sobre os quais quero comentar… Enfim, não vai faltar tema. A ideia é difundir o novo, homenagear o clássico e relacionar o tango para além da pura e simples musicalidade (muito marcada pela dança, aqui no Brasil). Enfim, “filosofar” um pouco sobre esse gênero tão especial.

perfil

ME – Alex Ross, crítico musical dos E.U.A., escreveu o seguinte em um de seus textos: “Eu odeio ‘música clássica’: não a coisa, mas o nome. Ele aprisiona uma arte tenazmente viva num parque temático do passado. Elimina a possibilidade de que música no espírito de Beethoven ainda possa ser criada hoje. Condena ao limbo a obra de milhares de compositores ativos que precisam explicar a pessoas de outro modo bem informadas o que fazem para ganhar a vida. Essa expressão é uma obra-prima de publicidade negativa, um tour de force de anti-propaganda. Gostaria que houvesse outro nome. Invejo o pessoal do jazz que fala simplesmente de ‘a música’. Alguns fãs de jazz também chamam sua arte de’música clássica dos Estados Unidos’, e eu proponho uma troca: eles podem ficar com o ‘clássica’, eu ficarei com ‘a música’.” [Escuta só: do clássico ao pop. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p. 19]. Na tua percepção, quais rótulos utilizados atualmente mais atrapalham do que ajudam na relação dos artistas e do público em geral com a música?

Chico: Troque Beethoven por qualquer compositor tangueiro e a citação serve como uma luva. O tango é um destes gêneros terrivelmente aprisionados pelo rótulo. No Brasil, ainda mais. Sem querer ser ácido por demais, mas o senso comum brasileiro sobre tango gira ao redor dos clichês mais precários possíveis. Para alguns, é o Al Pacino cego bailando com uma diva qualquer; para outros, é canção de cabaré de quinta categoria; e, para uma parcela gigante, é apenas música para a dança sensualizada e algo “ginástica olímpica” das academias. Quebrar esses rótulos é um desafio para o qual Tanguería não nasceu, mas do qual também não foge. As pessoas precisam compreender que o tango tem sua filosofia, mas que ela comporta um sem-fim de análises. É extremamente jovem em alguns casos, inclusive. Aliás, um dos erros comuns é ligar o tango ao velho (quem escuta, quem faz, o que é feito, não importa). Esse senso comum está muito relacionado ao desconhecimento sobre o tango contemporâneo argentino e uruguaio (e não estamos falando aqui do tango eletrônico, vendido como novidade tempos atrás). E também ao fato de que estamos tratando de uma esfera musical fora do mainstream. De qualquer forma, creio que os rótulos quase sempre atrapalham mais do que ajudam. O fã nunca se sente contemplado pela rotulação e o não-fã interessado em conhecer mais às vezes tem dificuldades em aceder à arte. Isso sem falar no fato de que os rótulos muitas vezes partem do que restou da chamada indústria cultural, que ainda opera naquelas ideias de homogeneizar para vender mais. Muitas vezes, isso gera uma confusão generalizada. Se um não-aficionado comprasse alguns dos CDs que analiso em Tanguería sob o rótulo “tango”, possivelmente haveria uma decepção enorme. O tango não se resume a Por una cabeza e àquele papo de todas son putas, menos mamá.

ME – Considero uma frase do André Bazin, citada a seguir, uma importante fonte de inspiração para persistir na divulgação da música independente: “A função do crítico não é trazer numa bandeja de prata uma verdade que não existe, mas prolongar o máximo possível, na inteligência e na sensibilidade dos que o leem, o impacto da obra de arte”. De alguma maneira tu também entendes a definição do autor para a “função do crítico” (independente de te considerares assim) como algo próximo do que publicas no Tanguería?

Chico: No caso do Tanguería, seria pretensioso pensar na lógica de Bazin. Escrevo sobre autores e artistas sobre os quais a maior parte do público brasileiro (meu público) nunca ouviu falar. Estou mais para alguém que apresenta essa gente estranha que canta música “velha” em pleno século XXI do que para alguém que prolonga o prazer de ouvi-los. E gosto de me imaginar assim, como alguém que está trazendo essa musicalidade ao Brasil. Esses parcos três meses de um blog exclusivo sobre tango não têm sido fáceis também por isso. Como estou escrevendo sobre outsiders (alguns são outsiders até em seus países natais!), às vezes tento ser ultra-didático, explico os detalhes, traduzo para além do idioma, busco relações com o Brasil, enfim… Talvez um dia haja um nicho mais claro de ouvintes de música sul-americana no Brasil e eu possa fazer elucubrações maiores, mas nesse momento estou mais interessado nas análises introdutórias, em apresentar, em elogiar e dizer “vejam, isso aqui também é música da boa e é feita aqui ao lado”!

ME – Deixe um recado para os leitores do Música Esparsa.

Chico: Que fenômeno! Sete anos de Música Esparsa e mais de setenta mil visitas depois, apareço por aqui para anunciar meu blog novo, partindo do zero. Os leitores não sabem, mas tenho uma relação muito especial com o glorioso “ME”. Digamos que me considero seu “padrinho”, além de autor de todas as identidades visuais da página, até hoje. Lembro bem de como o blog começou, numa lotação, voltando da Zona Norte de Porto Alegre, depois de um dos tantos shows que Icaro e eu íamos nos tempos em que morávamos na capital gaúcha. E que bom que aquela noite inspirou o Icaro e que esse blog nasceu. Hoje, ele é uma referência para aqueles que querem conhecer música de qualidade, muitas vezes escondida por aí. O Música Esparsa é aquela peneira fina do garimpo, o espaço democrático de musicalidades diversas, de poéticas únicas, modeladas pelo talento do autor em descobrir novos e velhos sons, indicando ao leitor o que eles podem significar. A verdade é que meu Tanguería é copiosamente inspirado no Música Esparsa, nessa capacidade de traduzir musicalidades. Tomara que eu consiga chegar à altura deste blog e de seu autor. Vida longa ao Música Esparsa! E aos leitores, não abandonem a blogosfera. Já nos deram por liquidados há tempos, mas talvez a vida mais inteligente da Internet ainda esteja nos blogs. Música Esparsa é um belo exemplo disso.

 

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