Para finalizar o ano de maneira especial, o Música Esparsa convida a todos para conhecerem o álbum Do Outro Lado, da cantora e compositora Carmen Correa (na imagem acima, em registro de Fabrício Simões), lançado há menos de um mês e que traz um conjunto de belas e instigantes canções.

Financiado pelo Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural de Porto Alegre (FUMPROARTE) e produzido por Marcelo Fruet, o trabalho tem a colaboração de diversos instrumentistas de altíssima qualidade, como Gabriel Görski (violão), Carlos Ferreira (guitarra), Alexandre Fritzen (teclados), Bruno Vargas (baixo) e o exímio percussionista Giovanni Berti. Além deles, quatro participações especiais diversificam a sonoridade do disco: Marquinhos Fê (bateria), DJ Anderson (scratches e colagens), Tati Portella (voz) e Hique Gomez (violino e vocalize).

Com repertório formado por 10 composições de Carmen, o disco soa altamente contemporâneo e diversificado, com temas que perpassam diferentes e complexas sonoridades, como na excelente Pardal e na “quase-fado” Branquela. Além disso, a abordagem poética sobre o mundo cotidiano, os relacionamentos e as diversas nuances da existência nos levam a um colorido sonoro e imaginativo que verdadeiramente transportam nossos ouvidos e mentes para um “outro lado”.

E foi sobre esse grande disco e sobre outras questões importantes do cenário musical gaúcho da atualidade que conversei com Carmen dias atrás, entrevista exclusiva que pode ser conferida logo abaixo e, junto com a dica do álbum, ser considerada o presente de final de ano do Música Esparsa para todos(as) os(as) leitores(as) da página.

Saudações musicais!

1) Comecei o Música Esparsa em 2009 com o objetivo de mapear parte da cena independente de Porto Alegre. No entanto, como saí da capital gaúcha em 2010, desde então venho acompanhando a cena à distância. Lendo um pouco sobre tua trajetória, descobri que fizeste parte dos coletivos Escuta – O Som do Compositor e Autoral Social Clube, além de ter o projeto do teu primeiro disco financiado pelo FUMPROARTE. Sendo assim, como é fazer e viver de música independente em Porto Alegre nos últimos anos?

Carmen Correa: Coincidentemente, em 2009 também comecei um blog sobre poesia e literatura, o Carmenestrel, mas foi no final de 2012 que, aproximando-me do coletivo Escuta, comecei a trilhar de maneira mais forte a carreira musical independente. Naquele ano, integrei o espetáculo do coletivo no Teatro de Arena e, no ano seguinte, já residindo em Porto Alegre, participei das ações promovidas em diferentes espaços, como durante o Festival de Inverno no Teatro Renascença. A experiência nesse caso foi extremamente enriquecedora, pois o Escuta proporcionava o contato com uma rede de artistas ampliada e na qual cada um dedicava especial atenção às criações do outro. Foi, portanto, um contexto de frutífera experiência coletiva e de grande motivação para o início da minha trajetória. Nos anos seguintes, contudo, a dedicação dos integrantes do coletivo aos seus projetos artísticos individuais, desdobramento comum desse processo, acabou adiando a retomada de ações integradas e com a marca do projeto.

As relações com o Autoral Social Clube nos anos seguintes (2014 e 2015) demonstraram mais uma vez a importância e a força das relações coletivas no meio artístico e proporcionaram importantes experiências de atuação nas performances de palco e também no circuito da cena independente porto-alegrense.

E durante essas experiências, a partir da construção e da aprovação do projeto do meu primeiro disco no Fumproarte, minha atenção foi cada vez mais se direcionando para a carreira solo e para os diferentes desafios demandados por uma dedicação mais integral e menos dispersa a ela, como o período de pré-lançamento, a produção musical, as dificuldades do trabalho autônomo (como a de estabelecer uma fonte de renda regular) e da formação de público. Mesmo assim, é importante nesses casos não sucumbir à acomodação e buscar formas diversificadas de manter o trabalho e ampliar sua visibilidade, ultrapassando fronteiras municipais e estaduais, diversificando o público consumidor e não esperando apenas estímulos externos para consolidar a carreira.

2) Tempos atrás li um texto do Lorenzo Mammì (edição de fevereiro de 2014 da Revista Piauí) no qual ele defende que os LPs foram/são uma forma artística mais do que um suporte de registro fonográfico. Pois bem, em certa altura do texto ele afirma o seguinte (depois de abordar a gravação de Sgt Pepper’s dos Beatles): “Hoje não faria mais sentido uma gravadora investir cinco meses de trabalho e 700 horas de estúdio num único disco, como foi o caso de Sgt. Pepper’s. Estamos próximos da época em que todo mundo poderá produzir sua própria música. Mas em que, justamente por isso, todas as músicas serão igualmente irrelevantes.” Na hora que li essas últimas frases fiquei bastante indignado com esse prognóstico sobre a irrelevância, mas depois pensei que essa constatação é bastante desafiadora, ainda mais em um contexto no qual o trabalho de divulgação e visibilidade das músicas está cada vez mais difuso (com a enorme exceção do show business) e disperso entre os próprios criadores. Poderias comentar um pouco sobre essa questão e como encaras o processo de dar sentido às tuas criações?

Carmen: Considero que a ideia da irrelevância nesse caso, mesmo entendendo  parcialmente a argumentação do autor, é bastante exagerada, pois a ampliação e a facilidade dos meios tecnológicos de produção musical nos últimos tempos não eximem os artistas e profissionais da área de investirem na qualidade da sua proposta e do conhecimento técnico empregado nas produções artísticas. Desse modo, se o contexto contemporâneo, com a ampliação das possibilidades e do contato com a diversidade, pode gerar mais dispersão e o risco da superficialidade, ele também é bastante desafiador já que nos impele a superar esses obstáculos.

Uma estratégia nesse sentido é a colaboração coletiva entre artistas e produtores (como foi o caso do meu disco), pois ela facilita um diálogo e uma percepção musical e artística ampliada que pode auxiliar a fugirmos da redoma em que o artista solitário pode se encontrar em determinados momentos e, por isso, colaborar na ampliação das possibilidades de expressão artística e de representação dela a partir de uma sonoridade e, sendo assim, ampliar também o sentido que essa criação pode ter para a comunidade na qual o músico está inserido. Mesmo no contexto mais comercial e massificado da produção musical, acredito que a irrelevância não seja o termo mais adequado, pois o que é produzido a partir dessa perspectiva faz sentido e tem uma função para determinados nichos.

3) Uma definição simples de arte pode ser aquela que a entende como uma forma de evidenciar e expressar uma visão diferenciada do mundo. Partindo dessa premissa, quais as principais referências da visão de mundo que fundamenta tuas composições?

Carmen: No meu processo criativo considero importante o diálogo das trocas artísticas que auxiliam na percepção dos vários caminhos possíveis com a própria verdade e autenticidade do autor/compositor. Apesar de ter inúmeras referências artísticas, não apenas do mundo da música, o meu estímulo principal é a necessidade de expressar-me subjetivamente através da arte, sempre em contato com uma diversidade de fragmentos e influências (quase uma colcha de retalhos) que fazem parte desse movimento interno de criação e recriação do mundo e da linguagem artística. O trabalho do Vitor Ramil, por exemplo, foi um daqueles que despertou minha atenção para a importância dessa marca subjetiva, dessa verdade pessoal, na expressão artística e musical.

Outra influência muito importante para mim é a tradição da música brasileira em relacionar de maneira intrínseca a literatura poética e a sonoridade. A minha experiência de leitura e escrita anteriores à trajetória musical, especialmente o apreço que tenho por figuras como Vinícius de Moraes, inspiraram-me a trilhar o caminho da expressão artística da canção, nessa combinação rara e rica entre melodia e letra, entre sonoridade e palavra.

4) Para um momento de audição comentada da entrevista, comente um pouco sobre a canção Terra Firme:

Carmen: A ideia da composição surgiu em uma situação de revolta. No momento em que tentava compor uma outra música, a dispersão virtual típica desses últimos tempos absorvia minha energia e o meu foco, impedindo a dedicação necessária para finalizar o trabalho da composição. Curiosamente, essa situação motivou o nascimento de “Terra Firme”, que aborda na letra essa dificuldade cotidiana que a dispersão e a alienação virtual provocam nas nossas energias criativas. Como as vivências são fontes essenciais da minha inspiração de compositora, nesse caso mais uma vez a experiência imediata facilitou a criação da música.

5) A primeira vez que escutei você cantar foi na versão de El seclanteño (Ariel Petrocelli), em dueto com o André Paz, que também editou o vídeo no qual a canção aparece. Indique outro projeto musical interessante para conhecermos por aqui.

Carmen: Além do Quiçá, se fosse, parceria do André com Róger Wiest, recomendo o novo projeto da Tati Portella, que estreou o show solo Noutra Direção, em novembro passado, no Bar Ocidente.

6) Deixe um recado para os leitores do Música Esparsa.

Carmen: Neste momento em que vivo agora, saturada pelas dificuldades de constituir um trabalho independente em um cenário árido e escasso de recursos, além da revolta e da indignação com diversas mudanças da sociedade em geral, está cada vez mais difícil vislumbrar perspectivas para o meio artístico em Porto Alegre e no estado. Avaliação que nos leva a pensar novamente nas estratégias de circular por outros lugares do país.

No entanto, apesar do contexto adverso, é imperativo desviarmos os olhos do que nos entristece e trocar o foco para aquilo que faz fortalecer nossa expressão artística e nosso lugar no mundo. Não podemos perder o ímpeto essencial para continuar compondo e devemos buscar caminhos alternativos para semear em solos mais nutritivos. Não quero sucumbir ao solo árido e à lama que às vezes nos envolve. Quero seguir amadurecendo meu trabalho e abrindo novos caminhos!

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