A sétima edição da série de postagens que comenta simultaneamente a discografia dos cantores e compositores Zeca Baleiro e Vitor Ramil aborda os álbuns O Coração do Homem-Bomba – Vol. 2 (2008) e Longes (2004), respectivamente dos artistas maranhense e gaúcho.

Em entrevista no registro em DVD ao vivo de “O Coração do Homem-Bomba”, Zeca comenta que se o primeiro volume da obra foi a “festa”, devido ao repertório mais animado e extrovertido, o segundo volume foi a “ressaca”. E na primeira canção do repertório, Era (uma parceria com Wado), temos a prova dessa interpretação, onde ouvimos mais uma das variantes do diagnóstico pessimista sobre nossa modernidade: “Não entendo bem que graça, que acham, num mundo que ruiu”.

Se em Era o desgosto é traduzido em termos coletivos e representado a partir de nossa época (o 11 de setembro não está ali à toa), talvez o cúmulo da ressaca no repertório seja a excelente Como diria Odair, na qual Zeca retoma a definição do artista goiano Odair José na canção A Noite Mais Linda do Mundo (do álbum Lembranças, 1974) de que a Felicidade não existe, o que existem são apenas momentos felizes, acrescentando ainda: “no mais são cruzes e crises”.

No entanto, a ressaca do disco não é absoluta e em diversos momentos aparecem temas com a crítica e a bordagem bem humorada e os sugestivos trocadilhos de Zeca, como em Na Quitanda (parceria com André Bedurê), Tevê (parceria com Kléber Albuquerque) e Pastiche. O auge dessa abordagem talvez seja o tema escondido no final da última faixa, a divertida Eu destesto Coca Light (parceria com Chico César).

Para uma amostra do disco, escolho o tema que melhor sintetiza, para mim, a combinação dos elementos do repertório marcado pela “ressaca”, pela ironia e ainda pelo bom humor de Baleiro: Boi do Dono é canção de amor, mas é também crítica política. Como combinar as duas coisas? Basta ouvi-la a seguir:

Longes, o sétimo disco de Vitor Ramil, é a minha obra preferida do artista. Na sua segunda parceria com o músico argentino Pedro Aznar na produção, a primeira foi em Tambong (2000), Vitor consegue expressar as nuances mais belas e surpreendentes da melancolia, já presente nos outros discos e nomeada como referência estética em Ramilonga, mas que agora adquire versatilidade e universalidade ainda mais pungentes.

Para essa tarefa de projetar a melancolia a um patamar estético insuperável para este que vos escreve, o artista é capaz de desacelerar um prelúdio de Bach (BWV 999) em Perdão, orquestrar (com arranjo de Vagner Cunha) uma belíssima milonga a partir de versos de João da Cunha Vargas em Querência, cantar um possível epitáfio em Adiós, Goodbye, ou mesmo criar um personagem que ousa colocar, em um momento dramático, os próprios livros sob a chuva em Livros no Quintal.

E assim como no disco de Zeca nem tudo é ressaca, a melancolia de Longes dá brechas para a entrada de dois belíssimos temas que abordam a arte e o amor como pontes para a felicidade. Para isso, Vitor recorre à trajetória de Paul Gauguin em Noa Noa e a uma transformação cancional de Chico Buarque em De banda.

Poderia eu aqui, pelo apreço imenso a esta obra, comentar detalhadamente cada canção, mas despeço-me com uma amostra do repertório a partir do tema Noturno, que se apropria de uma tradição musical que teve Frédéric Chopin como o principal expoente para cantar uma densa e microscópica cena amorosa que parece ao mesmo tempo acontecer no espaço externo e na intimidade do personagem. Sem falar que a combinação do piano com a percussão de Santiago Vasquez é uma das coisas mais lindas que já ouvi.

Para terminar, uma curiosidade: além do meu apreço em relação aos discos, entre essas duas obras há uma eventual coincidência: a presença de poemas de Emily Dickinson nos dois repertórios: Zeca musicou I’m Nobody e Vitor A word is dead.

Saudações musicais!

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