As relações entre música popular e literatura no Brasil são numerosas e intensas, como já demonstrou a pesquisa de José Ramos Tinhorão em sua trilogia A música popular no romance brasileiro, publicada pela Editora 34. Seja a partir da abordagem de escritores, que mencionam as experiências musicais populares como fontes de representação de seus personagens e cenários literários, seja a partir das composições musicais que tomam exemplos da literatura como inspiração, as reciprocidades entre as expressões artísticas citadas são vastíssimas.

Dentro dessa vastidão, não obstante, quero destacar um privilegiado momento de contato entre música e literatura: o show de abertura da 15ª Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), em 2017, no qual o pianista, compositor e arranjador André Mehmari apresentou a sua Suíte Policarpo, composta especialmente para o festival que homenageou o escritor Lima Barreto (1881-1922), sob a curadoria de Joselia Aguiar.

O autor de Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915) já nos primeiros diálogos do romance insere na fala do protagonista uma defesa da música popular, pois é repreendido pela irmã por estar andando com um “seresteiro”:

“- Mas você está muito enganada, mana. É preconceito supor-se que todo homem que toca violão é um desclassificado. A modinha é a mais genuína expressão da poesia nacional e o violão é o instrumento que ela pede. Nós é que temos abandonado o gênero, mas ele já esteve em honra, em Lisboa, no século passado, com o Padre Caldas, que teve um auditório de fidalgas. Beckford, um inglês notável, muito o elogia.”

Conhecedor da trajetória da música brasileira, Lima Barreto cita na fala de seu personagem o Padre Caldas, isto é, Domingos Caldas Barbosa (1739-1800), mulato filho de um funcionário real português com uma escrava de Angola e que se tornou o grande precursor da música popular brasileira, como nos traz a análise de Luiz Tatit em O Século da Canção: “[…] a música de Domingos Caldas Barbosa representou a configuração do tripé sobre o qual veríamos erigir, no século vinte, a canção popular […]. Suas peças baseavam-se num aparato rítmico oriundo dos batuques, suas melodias deixavam entrever gestos e meneios da fala cotidiana […] e, finalmente, suas inflexões românticas, expandindo o campo de tessitura das canções […]”.

Assim, em um pequeno trecho, podemos descortinar em Lima Barreto sua consciência sobre o caráter extremamente valioso e importante para a cultura brasileira de suas raízes mestiças e populares. Em outra de suas obras, para ficarmos com apenas mais um exemplo, assim começa a descrição do pai da protagonista de Clara dos Anjos, romance concluído pouco antes de sua morte, mas publicado somente em 1948:

“O carteiro Joaquim dos Anjos não era homem de serestas e serenatas; mas gostava de violão e de modinhas. Ele mesmo tocava flauta, instrumento que já foi muito estimado em outras épocas, não o sendo atualmente como outrora. […] na sua simplicidade de nascimento, origem e condição, Joaquim dos Anjos acreditava-se músico de certa ordem, pois, além de tocar flauta, compunha valsas, tangos e acompanhamentos de modinhas. Uma polca sua – ‘Siri sem unha’ – e uma valsa – ‘Mágoas do coração’- tiveram algum sucesso, a ponto de vender ele a propriedade de cada uma, por cinqüenta mil-réis, a uma casa de músicas e pianos da Rua do Ouvidor.”

Mas se o escritor talvez proceda, a partir de Policarpo e de outras personagens de seus romances, uma relação da sua expressão artística com aquela de Caldas Barbosa e dos músicos populares na passagem entre os séculos XIX e XX, André Mehmari optou com acurada sensibilidade para uma conexão de Lima Barreto com a obra de outro músico, seu contemporâneo Ernesto Nazareth (1863-1934), sobre o qual o pianista já havia interpretado parte de seu legado no excelente disco Ouro Sobre Azul (2014).

Assim, modinhas, maxixes e valsas compõem a paisagem sonora daquele Brasil mestiço e de riquíssima diversidade cultural no qual viviam Lima e Ernesto, mas que sofria processos brutais e significativos de exclusão e higienização social durante a Primeira República Oligárquica.

Ao resgatar essa conexão artística, André Mehmari nos transporta não apenas para as belezas indescritíveis da nossa arte popular, mas a partir dela nos inspira a continuar lutando por este Brasil que é forte na sua pluralidade cultural e na capacidade criativa de seus povos.

Por fim e, para especial deleite, confiram a apresentação da Suíte Policarpo na íntegra.

Saudações musicais!

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