Conheci Filipe Catto ainda em 2009, logo depois do lançamento de seu EP de estreia, Saga. Recordo que quando morava em Porto Alegre, aquele conjunto de canções viscerais explorando as sonoridades do tango e do samba me deixaram absolutamente surpreendido e encantado. Na época, até uma entrevista rolou AQUI no blog.

No ano seguinte, em uma cena pouco comum no circuito independente da capital gaúcha, assisti uma apresentação do artista em um Teatro Bruno Kiefer (da Casa de Cultura Mário Quintana) absolutamente lotado, transbordando um público ávido pela novidade de um compositor jovem tão inspirado.

Desde então, Filipe percorreu o Brasil e o exterior e lançou três discos: Fôlego (2011), Entre Cabelos, Olhos e Furacões (2013) e Tomada (2015). Todos ótimos, mas é o recente lançamento pela Biscoito Fino, CATTO, que me faz voltar a escrever sobre esse grande artista.

Nas dez canções do repertório do disco, há uma intensa viagem acontecendo, que nos remete a sonoridades e referências múltiplas, mas que parecem unificar os momentos de lirismo ou de maior franqueza dentro de uma estética fortemente espiritualizada, que nos tira do chão a cada arranjo ou interpretação visceral de Filipe.

A viagem pode ser acelerada como na excelente Torrente (Filipe Catto/Fabio Pinczowski) – que imprime na música o movimento subjacente ao nome – ou mais psicodélica como em Lua Deserta (Filipe Catto), na qual as simbologias religiosas em Satã, Jesus e Vênus imprimem uma interessante e criativa novidade na composição que declara “todo o meu amor me envenena de manhã”. As duas canções, ao lado da parceria com Zélia Duncan em Só por Ti, mostram a força permanente da faceta de compositor de Filipe, para mim um dos melhores dos últimos anos.

Alem disso, são ótimas as três composições de Romulo Fróes, uma em parceria com Nuno Ramos (Como um Raio) – que funciona como uma espécie de manifesto da persona artística do disco, entoando “Minha canção vai acender o teu silêncio como um raio” – e as parcerias com César Lacerda, Faz Parar e É Sempre o Mesmo Lugar.

Para finalizar a postagem, no entanto, recomendo a audição da incrível releitura da clássica Canção de Engate, do compositor português António Variações. Se nas próprias composições do repertório Catto impressiona, na escolha deste tema o artista não deixou por menos. O amor como momento de entrega é, talvez, uma das mais importantes mensagens do cancioneiro português.

Saudações musicais!