Foi do manancial de versatilidade e hibridismo que caracteriza a canção brasileira – e que a tornou uma das principais manifestações artísticas da cultura popular mundial – que a cantora Patricia Souza retirou sua inspiração para o excelente disco Entre (2017), uma joia da discografia contemporânea que aborda de maneira criativa e bem lapidada um dos principais aspectos da riqueza cancioneira nacional: a intertextualidade.

Em parte de sua apresentação do livro O Século da Canção (Atêlie Editorial, 2004, p. 11-12), Luiz Tatit escreveu: ” Nossa canção incorporou […] uma grande variedade de fisionomias que […] tornou trabalhosa sua definição artística e, acima de tudo, sua apreciação crítica. Comportou-se como um organismo mutante que ludibriava os observadores por jamais se apresentar com o mesmo aspecto. […] sem contar com um mínimo de consenso sobre o que a define como expressão artística, a canção brasileira converteu-se em território livre, muito frequentado por artistas híbridos que não se consideravam nem músicos, nem poetas, nem cantores, mas um pouco de tudo isso e mais alguma coisa”.

É certo que, a partir desse hibridismo e dessa pluralidade, se desenvolveu uma tendência já permanente da composição brasileira, a intertextualidade. A força incomensurável da poesia, dos registros por vezes abstratos, metafóricos ou aprofundadamente referenciados em uma realidade e experiência partilhada, fez com que as canções brasileiras criassem um mundo no qual compositores e compositoras citam uns aos outros, inspiram-se uns nos e aos outros, tornando o universo da canção um local de múltiplas expansões internas.

Assim, o disco de Patricia Souza já traz no nome o convite para entrarmos nesse mundo que, na relação entre as composições, percorre as sutilezas e os múltiplos movimentos deste universo cancional que, ao contrário do que possa parecer, faz de seus momentos autorreferenciados uma fonte de expansão e não de hermetismo. Como sugere uma das imagens do encarte do disco, a poesia e a sonoridade que perpassam a canção brasileira criam um acervo e um manancial de polinização criativa, fazendo das composições, em diversos momentos, simultaneamente flores e abelhas.

Para isso, o repertório foi delineado em 11 canções, cujas relações entre si são diversas. Algumas possuem uma relação direta, formando pares que dialogam na linha do tempo da canção, como é o caso de Pra que mentir (Noel Rosa/Vadico, 1937) e Dom de Iludir (Caetano Veloso, 1982).  Em outros casos, no entanto, a música não dialoga necessariamente com tema do repertório, mas sim com outras canções emblemáticas da tradição musical brasileira (como À beça, de Vitor Ramil, na sua alusão a um clássico de Noel). E também há composição própria de Patricia, em parceria com o arranjador do disco, Martin Pantuso. Em Queixume, há uma delicada e sofisticada homenagem ao Cartola de As rosas não falam.

Vale a pena conferir, para compreendermos a conceituação do álbum, a arte da contracapa do disco (de Claudio Guerra Rojo), cujos traçados indicam as relações de intertextualidade.

Para expressar a sonoridade da proposta – pois a intertextualidade também perpassa as melodias – a artista contou com uma diversidade de ótimos instrumentistas, que imprimem nos arranjos, em geral, relações entre o samba, a bossa nova e os improvisos jazzísticos. Além disso, aparecem também sonoridades platinas, já que a cantora vive há alguns anos em Buenos Aires, local de gravação do disco, no Estúdio Bulo.

Entre os instrumentistas estão os excelentes Pedro Rossi (violão e guitarra), Martin Pantuso (baixo, contrabaixo acúsitco), Eduardo González (piano rhodes e acústico), Horacio Vázquez (percussão) e Pablo Favazza (bateria e percussão). Além deles, participações especiais impecáveis com Matias Gobbo (bandoneón), Juan Pablo Isaía (guitarra portuguesa), Emanuel Brusa (sax, flauta e arranjo de metais), Santiago Castellani (trombone), Andrés “Niño” Ollari (trompete), Mercedes Morello (fagote) e María Laura Rojas (voz).

Para finalizar, apreciem duas das canções abaixo e confiram na íntegra o disco AQUI.

Saudações musicais!

CHÃO DE ESTRELAS

A clássica canção de Sílvio Caldas e Orestes Barbosa, criada em 1937, tornou-se uma grande referência da música popular brasileira devido à sua beleza incomparável e grande habilidade em poetizar o amor e a ternura a partir da vida simples e da canção popular. A música Como 2 e 2, de Caetano Veloso (gravada pela primeira vez por Roberto Carlos em 1971), e parte do repertório de Entre, tem inspiração na famosa música, onde o luar e o zinco do telhado se relacionam de maneira extremamente poética. Na versão de Patricia, a seresta vai do choro ao fado, percorrido pela guitarra portuguesa de Juan Pablo Isaía e com a participação de María Laura Rojas nos vocais. Emocionante!

 

PRECISO APRENDER A SÓ SER

A composição de Gilberto Gil, que saiu pela primeira vez em um compacto de 1973, estabelece um diálogo com o samba Preciso aprender a ser só, dos irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle. Como afirmou Julio Moura: “Ao inverter a lógica das paixões, quase indissociáveis à música popular, o coração repudia as agruras da mente e, ao revelar sua essência, abre mão da dor – sobretudo a de cotovelo.” Na releitura, temos uma “bossa platina” tecida pelo bandoneón de Matías Gobbo e pela interpretação bela e precisa de Patricia Souza.

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