O mais recente lançamento do Rodrigo Nassif Quarteto, o álbum Rupestre do Futuro (2017), é um destacado exemplo de ousada expressividade artística e de fricção de musicalidades (expressão utilizada pelo pesquisador Acácio Piedade para caracterizar diversas expressões do jazz brasileiro).

No que se refere à expressividade artística, o próprio nome do álbum, Rupestre do Futuro, nos leva a pensar sobre a permanência da expressão artística através dos tempos, expressão essa que pode adquirir inúmeras leituras e perpassar diversas temporalidades. Se a inspiração original para a ideia foram os grafites de São Paulo (uma influência da presença frequente do quarteto na cena paulistana), o trabalho de composição, arranjo e execução dos 12 temas do disco nos desafia a pensarmos nas múltiplas sonoridades que podem representar uma expressão artística baseada na música popular instrumental no Sul do mundo, mas que mantém intensa relação com a tradição jazzística do Norte.

Sendo assim, uma proposta de audição possível para o disco é pensar cada tema como uma “inscrição”, um “grafismo sonoro” possível dentro das inúmeras possibilidades sonoras do nosso tempo, contando cada um individualmente, mas também no seu conjunto, histórias sobre a comunicação artística da nossa cultura contemporânea através dos sons.

Para destacar duas dessas histórias, escolhi para a audição dos leitores dois temas inspirados em outra expressão artística: a literatura. Muito presente na inspiração de Nassif desde o seu primeiro disco, as leituras que faz acabam transportando para a sua criação musical um elo de comunicação entre diferentes “inscrições” artísticas. Como exemplo no repertório, temos as faixas Ainda Estou Aqui e Cia do Caribe, inspiradas, como afirmou o músico em uma entrevista para a Noize, respectivamente nos livros Ainda Estou Aqui (Marcelo Rubens Paiva, 2015) e O Amor nos Tempos do Cólera (Gabriel Garcia Marquez, 1985).

 

 

 

 

Já no que se refere aos diferentes matizes sonoros do disco, nas primeiras audições que fiz dos temas lembrei de uma importante expressão analítica desenvolvida por Acácio Piedade em seu texto Jazz, música brasileira e fricção de musicalidades (que pode ser acessado aqui). A definição do autor parece se aproximar bem da interessante proposta que Nassif (violões, guitarra, percussão e piano), Carlos Ezael (violões), Leandro Schirmer (bateria, percussão e piano) e Samuel Cibils (baixo acústico, elétrico e harmônica) constroem utilizando referências do rock, do jazz, do tango, do ska, do funk, do rap etc. Como afirma o autor citado:

“É o caso da fricção de musicalidades, que pode ser observada em termos musicológicos no discurso musical que se pronuncia nas composições e improvisações dos músicos da música instrumental.  […] Aqui, as musicalidades dialogam, mas não se misturam, suas fronteiras musical-simbólicas não são atravessadas mas são objetos de uma manipulação que acaba por reafirmar as diferenças. A metáfora mecânica da fricção implica que os objetos postos em contato se tocam e esfregam suas superfícies, podendo chegar a trocar partículas, mas os núcleos duros das substâncias tende a se manter. Por isto não é o caso de se falar em complementaridade, como muitos discursos ingenuamente fazem, pois o caráter não é construtivo, mas sim de tensão e flexibilidade, e muitas vezes de ironia […]” (PIEDADE, 2003, p. 203)

A criativa fricção que permeia Rupestre do Futuro é proporcionada não apenas pelos diferentes estilos musicais que povoam a formação e a trajetória musical dos instrumentistas do quarteto, mas também pelo trabalho minucioso nos arranjos que exploram diversos timbres e “inscrições sonoras”, que deixam em diversos momentos o ouvinte em uma tensão musical instigante e desafiadora. Com dez temas compostos exclusivamente por Rodrigo Nassif e dois tem parceria (Martial, com Leandro Schirmer e A hora dupla, com Samuel Basso), o esforço coletivo na elaboração dos arranjos faz toda a diferença para imprimir qualidade e identidade ao processo de fricção musical.

Para exemplificar um pouco da tensão mencionada recomendamos o tema abaixo, Acrobacias Aéreas.

 

 

Para finalizar, destaco que Rupestre do Futuro foi lançado em formato digital pelo Selo 180, e o álbum está disponível na íntegra nos principais serviços de streaming, além de contar com camisetas e canecas personalizadas com a incrível pintura de Adão Iturrusgarai, que podem ser adquiridas entrando em contato com o grupo aqui.

Que os arqueólogos do futuro possam escavar os sons do quarteto e preservar as inscrições sonoras para outros tempos!

Saudações musicais!

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