Após o lançamento da trilha sonora do filme Insolação, que comentamos aqui, já está disponível, desde o ano passado, outra excelente trilha composta por Arthur de Faria para um filme de Felipe Hirsch, o belíssimo Severina (2018).

Lançada ano passado, a película é uma enigmática e sutil história que envolve literatura e romance a partir de uma livraria de calçada de Montevidéu, abordando diversas nuances do envolvimento entre o livreiro (interpretado por Javier Drolas) e uma mulher (interpretada por Carla Quevedo) que furta livros do estabelecimento.

Apoiado em uma intensa criatividade que mescla a música orquestrada e diversas referências das sonoridades platinas (incluindo aí temas do uruguaio Hugo Fattoruso), Arthur constrói uma trilha monumental e que, mais uma vez (como no caso de Insolação), pode ser plenamente desfrutada em audição isolada do filme. No entanto, dada a reciprocidade entre a narrativa fílmica e a proposta sonora, fica aqui também meu apelo para que o leitor/ouvinte confira as duas obras e se delicie com as interseções entre elas.

Traduzindo a melancolia e o ritmo típicos das ruas montevideanas, mas também os vaivéns dos sentimentos internos das personagens, a trilha nos ajuda a ouvir os movimentos e rumores das diversas vidas imaginadas tanto na história do filme quanto na imprecisão e nas mudanças que constituem muito das nossas vidas contemporâneas. Como uma tradução possível e poética dessas características (narrativas e sonoras), tudo parece estar envolto naquilo que evoca o nome de um tema clássico de Piazzolla: tudo é, para além e aquém de nossa subjetividade, fuga y misterio.

Gravada em três países, com quarenta músicos e com a sempre competente produção de Gustavo Breier, a trilha pode ser conferida a seguir.

Saudações musicais!