No retorno da seção de entrevistas do blog, compartilhamos a música e algumas buenas ideias do músico Francisco Pellegrini, compositor, pianista e acordeonista nascido em Niterói e já com quatro discos lançados.

O artista,  que percorre algumas das sendas mais bonitas da música brasileira, latino-americana e ibérica, apresenta destacadas performances instrumentais recheadas de virtuosismo, elegância, lirismo e ludicidade. Preparando seu quinto disco, que deve sair no próximo ano, Francisco já lançou os álbuns Três (2011), Piano Solo (2015), Delicado (com a cantora portuguesa Fernanda Paulo, 2018) e Los viajes de Chico (2018). Os discos, na íntegra, podem ser ouvidos no site do artista AQUI.

Confiram a entrevista abaixo e ouçam a bela música de Francisco Pellegrini.

Saudações musicais!

Música Esparsa: Tempos atrás li um texto do Lorenzo Mammì (edição de fevereiro de 2014 da Revista Piauí) no qual ele defende que os LPs foram/são uma forma artística mais do que um suporte de registro fonográfico. Pois bem, em certa altura do texto ele afirma o seguinte (depois de abordar a gravação de Sgt Pepper’s dos Beatles): “Hoje não faria mais sentido uma gravadora investir cinco meses de trabalho e 700 horas de estúdio num único disco, como foi o caso de Sgt. Pepper’s. Estamos próximos da época em que todo mundo poderá produzir sua própria música. Mas em que, justamente por isso, todas as músicas serão igualmente irrelevantes.”

Na hora que li essas últimas frases fiquei bastante indignado com esse prognóstico sobre a irrelevância, mas depois pensei que essa constatação é bastante desafiadora, ainda mais em um contexto no qual o trabalho de divulgação e visibilidade das músicas está cada vez mais difuso (com a enorme exceção do show business) e disperso entre os próprios criadores.

Poderias comentar um pouco sobre essa questão e como encaras o processo de dar sentido às tuas criações?

Francisco Pellegrini: Cada obra de arte nasce por necessidade de expressão. Eu já me perguntei muitas vezes porque algumas ideias musicais eu considero composições e outras ficam só na experiência, não saem do laboratório de composição. É difícil de explicar racionalmente, mas fica claro quando alguma melodia, harmonia, textura ou ritmo tem relevância.

Se pensarmos a vida de uma forma econômica não viveremos, no sentido mais profundo da palavra. É como se uma árvore desistisse de nascer porque o desmatamento aumenta assustadoramente a cada dia. A vida vive por necessidade de viver. E a arte é a expressão do ser humano. Cada criação é parte de uma vida, das circunstâncias emocionais do indivíduo e da realidade que ele vive. As pessoas que decidem suas ações e tentam entender a vida pela ótica econômica tentam todo o tempo desanimar o artista a criar. Misturam arte com entretenimento, com recreação, colocam o mesmo rótulo. Não por maldade, mas por desconhecimento, por desconexão.

Essa angústia é recorrente na vida de qualquer artista. Se olharmos para a história, Beethoven, Mozart, Schubert, Haydn tiveram problemas com os editores e mecenas, os Russos com a ditadura, etc. Em outras artes acontece da mesma maneira. Alguns artistas viveram situações muito privilegiadas, como essa dos Beatles. Mas a grande maioria passou por muitos apertos financeiros e dificuldades emocionais relativa à sua época e lugar. Suas obras estão aí hoje porque tem algo muito mais forte e profundo dentro de cada indivíduo que insiste em fazer arte, que insiste em viver.

É fato que a nossa crise parece sem solução, que a música está super desvalorizada, que o mundo sofre de excesso de informação. Mas é um erro pensar que nossa crise é pior que outras. Não se pode comparar momentos históricos. Embora não vejamos a solução ainda, sabemos que todas as crises passam, e essa certeza é que traz alguma tranquilidade. E digo mais, se olharmos sob outra ótica, podemos inverter o jogo e dizer que justamente nos momentos de crise, onde tudo parece sem lógica e sem futuro é que é mais relevante criar.

Agora, sobre dar sentido às criações, é uma questão bem interessante também. Acho que não é o artista que dá sentido à obra e sim os encontros, as trocas que os encontros geram e o público.

Música EsparsaEscolha duas músicas suas para fazer parte da audição dos leitores durante a entrevista e escreva um pequeno comentário sobre elas (curiosidades, parcerias, ideia da composição etc.) para orientar a escuta.

Francisco Pellegrini: É sempre difícil escolher que filha vai representar as outras (risos), mas vou tentar ser coerente com a entrevista.

O meu último disco Los Viajes de Chico é fruto de um processo pessoal muito intenso de se jogar no mundo para entender o que eu sou profundamente. Gravei na Espanha depois de um ano e meio compondo e seis meses ensaiando. É em quinteto: piano, violão, violoncelo e duas percussões.

A faixa 4, Compartindo [escute acima], mostra bem como a música brasileira pode se enriquecer com outros instrumentos e instrumentistas. Ela é baseada no ritmo do partido alto, uma vertente do samba que tradicionalmente se cantava e tocava em roda, com muito improviso, compartindo alegria nos terreiros do Rio de Janeiro. Resolvi compartir essa alegria com meus amigos na Europa e deu nisso aí.

Eu sou um cara que ainda pensa no disco como uma obra de arte. Como se fosse um espetáculo que deve ser ouvido do começo ao fim. Então evito terminar com sentimentos perturbadores como angústia ou tristeza pro ouvinte ir embora com uma boa energia, uma boa sensação. Essa música She’s all I want [escute no final da postagem] é uma ode à felicidade de viver. Dedicada à minha companheira. Nós mesmos fazemos o coro.

Música Esparsa: Há quem diga que arte é uma forma de criar e dar visibilidade a um novo olhar sobre o mundo. Partindo dessa premissa, que “outro mundo” os teus ouvintes podem vislumbrar a partir das tuas músicas?

Francisco Pellegrini: Meu maior desejo é que minha música desperte os sentimentos mais bonitos e mais nobres dentro de cada ouvinte, que se sintam mais animados, mais compreendidos, mais felizes, e que atuem por um mundo mais igualitário, mais justo, mais pacífico, mais verdadeiro, mais carinhoso, e sobretudo mais amoroso.

A música sem palavras é abstrata e subjetiva, e estando o sistema tão carente de abstração e subjetividade, ao entrar no mundo mágico dos sons, das texturas, dos ritmos, das dinâmicas, o ouvinte tem a oportunidade de ampliar, de expandir a sua percepção de realidade.

Música Esparsa: Alex Ross, crítico musical dos E.U.A., escreveu o seguinte em um de seus textos: “Eu odeio ‘música clássica’: não a coisa, mas o nome. Ele aprisiona uma arte tenazmente viva num parque temático do passado. Elimina a possibilidade de que música no espírito de Beethoven ainda possa ser criada hoje. Condena ao limbo a obra de milhares de compositores ativos que precisam explicar a pessoas de outro modo bem informadas o que fazem para ganhar a vida. Essa expressão é uma obra-prima de publicidade negativa, um tour de force de anti-propaganda. Gostaria que houvesse outro nome. Invejo o pessoal do jazz que fala simplesmente de ‘a música’. Alguns fãs de jazz também chamam sua arte de ‘música clássica dos Estados Unidos’, e eu proponho uma troca: eles podem ficar com o ‘clássica’, eu ficarei com ‘a música’.” [Escuta só: do clássico ao pop. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p. 19]. Na tua percepção, quais rótulos utilizados atualmente mais atrapalham do que ajudam na relação dos artistas e do público em geral com a música?

Francisco Pellegrini: É curioso você ter escolhido esse texto porque justamente tenho estudado Bach e Beethoven na tentativa de tirá-los da cova, de interpretá-los realmente como música viva, pertinente, com a liberdade que eu interpreto qualquer compositor. Essa coisa de colocar algum ser humano num pedestal é prejudicial, pois gera o entendimento de que existem pessoas melhores e outras piores.

Bom, sobre rotular arte, acho que todos os rótulos atrapalham a compreensão de um artista. Cada indivíduo é único e passa por diferentes etapas na vida. É inevitável que nossa mente procure referências pra saber em que compartimento do cérebro guardar aquela informação. A questão é que cada pessoa tem um conhecimento diferente de música, uma bagagem musical diferente. Então o que um acha tranquilo o outro acha agitado, por exemplo.

Aqui no Brasil sinto que quando falo que faço música instrumental as pessoas tem uma ideia um pouco mais próxima do que eu faço. Mas lá fora preciso usar outros termos e dizer que é uma mistura de world-music, música clássica e jazz. Patético! Se justo o que mais prezo na hora de compor é ser inclassificável, diferente! Penso: “Da próxima vez vou lançar um disco de samba só pra saber explicar” (risos).

Uma vez me juntei com alguns amigos no intuito de criar um prêmio para a nova música brasileira. E foi justamente na hora de definir os estilos que eu pulei fora porque pra mim essa classificação em estilos pode servir pra alguns mas não abarca muitos outros. E se queríamos fazer algo diferente era justamente aí que não podíamos encaretar. Eu propunha as seguintes categorias: tesão; bem feito; antropófago; e inovação. Onde você me colocaria? :)

Música Esparsa: Poderia colocar nas quatro categorias (risos), talvez as boas composições muitas vezes transitem por todas elas. E você, leitor, se quiser opinar, escreva nos comentários!

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Francisco Pellegrini: Cada indivíduo é um universo, cada ser vivo é sagrado. Conecte com o sagrado que tem dentro de você. A pessoa que gera mais ódio é a mais carente de amor. Ame. Se tiver com dificuldade, ligue o som e viaje. Axé! Namastê!