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Música Esparsa

MARCELO JENECI

“Fomos serenos num mundo veloz
Nunca entendemos então por que nós
Só mais ou menos”

(Marcelo Jeneci. Por que nós?)

Não tenho dúvidas em afirmar que Feito pra acabar, do Marcelo Jeneci, é o álbum que mais me surpreendeu e me emocionou este ano. Toda essa certeza parece vir tanto da inegável qualidade das composições quanto da persuasão destes aromas primaveris que andam por aí, que combinam muito bem com a atmosfera do disco.

Chegando hoje (!) às lojas, o primeiro trabalho solo do cantor, compositor e multiinstrumentista paulista expressa uma leveza e uma sensiblidade ao tratar de temas como o amor, a felicidade e outros dilemas existenciais que para mim parecem inéditas, apesar das diversas referências pop.

Ano passado tive o privilégio de assistir o instrumentista Jeneci em ação, em duas oportunidades acompanhando Arnaldo Antunes no acordeón e no teclado, como ele faz com outros grandes artistas do nível de Luiz Tatit, Chico César e Zé Miguel Wisnik. E desde que soube do seu álbum em preparação fiquei bastante curioso em conhecer o lado mais autoral do músico.

São tantas coisas boas que passeiam entre as 13 faixas do disco que precisarei de mais postagens futuras para escrever sobre todas. Uma delas é a combinação especial da voz de Marcelo com a da cantora Laura Lavieri, que inunda de graciosidade diversas músicas do repertório. Outra são as versões preciosas de músicas em parceria com Arnaldo Antunes, já gravadas por este, como Quarto de dormir (Ao Vivo No Estúdio) e Longe (Iê Iê Iê).

O time de instrumentistas do álbum também é de primeira, com João Erbetta (guitarra), Regis Damasceno (baixo), Richard Ribeiro (bateria) e Estevan Sinkovitz (guitarra), que garantem nos arranjos uma combinação que emana também das letras, entre o pop e a liberdade criativa da cena independente.

Abaixo, uma provinha das canções com Dar-te-ei (parceria de Jeneci com Elder Lopez e Zé Miguel Wisnik) e Quarto de dormir (com Arnaldo Antunes), numa versão pra lá de emocionante. Vocês podem ainda conferir outras músicas acessando o MySpace do artista.

Saudações musicais!

GEORGINA HASSAN

Bom, eu estava elaborando um texto deveras extenso sobre a trajetória artística da argentina Georgina Hassan. Então me dei conta que minhas palavras, na verdade, só seriam obstáculos a você, leitor, que deve conhecer o mais rápido possível a voz e a interpretação de rara beleza e delicadeza desta artista.

Nascida em Buenos Aires e especializada em guitarra folklórica, Georgina já dividiu palco com Liliana Herrero, Chango Spasiuk, Ana Prada, entre outros grandes artistas da música platina. Seu disco de estréia, Primera Luna, é de 2004 e ano passado saiu o segundo álbum solo, intitulado Como respirar. Em ambos, uma preciosa combinação de jazz e folclore latino-americano.

Abaixo, confiram a interpretação de Georgina para a clássica La Llorona (do primeiro disco) e Carta de abuelo, linda canção do álbum mais recente.

Saudações musicais!

DIA DO MÚSICO

Uma singela homenagem àqueles que são os agentes da razão de existir deste blog: Caja de música, poema de Jorge Luis Borges interpretado por Pedro Aznar e Mercedes Sosa ao vivo no Teatro Colón (Buenos Aires) em 24 de agosto de 1999. “En esa música. Yo soy. Yo quiero ser. Yo me desangro”.

Caja de música (Jorge Luis Borges)

Música del Japón. Avaramente
De la clepsidra se desprenden gotas
De lenta miel o de invisible oro
Que en el tiempo repiten una trama
Eterna y frágil, misteriosa y clara.
Temo que cada una sea la última.
Son un ayer que vuelve. ¿De qué templo,
De qué leve jardín en la montaña,
De qué vigilias ante un mar que ignoro,
De qué pudor de la melancolía,
De qué perdida y rescatada tarde,
Llegan a mí, su porvenir remoto?
No lo sabré. No importa. En esa música
Yo soy. Yo quiero ser. Yo me desangro.

ROGER CANAL & PABLO GIGNOLI

Gente amiga, hoje (terça, 16 de novembro), o músico porto-alegrense Roger Canal (cujo trabalho logo ganhará espaço exclusivo aqui no blog) faz um dueto imperdível com o bandoneonista Pablo Gignoli (da Orquesta Típica Fernandez Fierro) às 23h no Prefácio Bar. Quem for não se arrependerá! Mais informações no release abaixo.

Saudações musicais!

Alma gaucha sul-americana em Porto Alegre

A fusão musical inusitada de Roger Canal e Pablo Gignoli chega ao Brasil

Encontro ou reencontro de culturas. Esse é o mote da apresentação de Roger Canal e Pablo Gignoli, em Porto Alegre, no próximo dia 16 de novembro. Brasil e Argentina soam como universos irmãos, que convivem de forma muito harmoniosa nos espetáculos realizados pelo duo, que já passou por Buenos Aires e Montevidéu. Em sua terra natal, Porto Alegre, Roger Canal recebe o amigo e parceiro argentino Pablo Gignoli, integrante da Orquestra Típica Fernandes Fierro, para um show inédito, onde combinam suas visões artísticas peculiares. Assim, a noite tem o clima de reencontro não só de dois músicos criativos, mas da própria experiência sociocultural sul-americana, que aproxima, em demasia, os dois povos meridionais. Características que integram o imaginário e a alma musical destes expoentes da arte contemporânea em seus países, unidos e divididos por fronteiras físicas e imateriais. Tango, milonga, jazz, ruído, melancolia, euforia, introspecção e fúria, alguns tons que ecoam de suas notas.

Baseado no improviso e na experiência sonora do encontro, o show aproxima as vivências dos compositores em torno de novas propostas de criação e interpretação. De certa forma, releituras dos folclores locais a partir de bandoneon, bumbo leguero, violão, melódica, combinados com vocalizações, efeitos, até mesmo canções. As vezes, pode soar como uma visão renovada do cancioneiro gaúcho em busca de sentido e harmonia, na verborragia acelerada e caótica da metrópole. Muito Buenos Aires e um tanto Porto Alegre. Costura que rende frutos a dupla, que já tem gravados, em fase de finalização, dois CD’s e um DVD. Portanto, não se trata de um experimentalismo estéril, sem sentido, lançado ao vento, mas de uma pesquisa musical comprometida com a busca visível no trabalho intercontinental: propor um sopro de novidade, de renovação das culturas e vivências folclóricas sulistas, as vezes tão carimbadas pelos clichês, quanto pelas repetições oportunistas. Oigalê!

DISCOGRAFIA ESPARSA (SINHÔ)

Com essa postagem, inauguro uma nova seção no blog intitulada Discografia Esparsa, destinada a comentários sobre discos raros, esgotados ou que possuem alguma destacada peculiaridade e/ou importância histórica. Continuar lendo “DISCOGRAFIA ESPARSA (SINHÔ)”

RAUL DE SOUZA EM PORTO ALEGRE

Pessoal, abaixo reproduzo o release do show do grande trombonista Raul de Souza, que se apresentará em Porto Alegre no próximo dia 10 de novembro, em apresentação única e em comemoração aos seus 55 anos de carreira. Raul já dividiu o palco com mestres da estirpe de Sarah Vaughan, Hermeto Pascoal e Milton Nascimento e tem 12 álbuns lançados, entre eles os excelentes À Vontade Mesmo (1965) e Elixir (2005).

Aproveitem essa rara oportunidade e prestigiem!

Saudações musicais!

 

Créditos: Yamaha Musical do Brasil

Trombonista Raul de Souza comemora

55 anos de carreira em Porto Alegre

Um dos mais importantes trombonistas do mundo, e um dos grandes nomes da música brasileira, Raul de Souza faz apresentação única em Porto Alegre, no dia 10 de novembro. O espetáculo faz parte da turnê  “Raul de Souza 55 anos”, que percorre  cinco capitais para comemorar em grande estilo a brilhante carreira musical que marcou palcos brasileiros, americanos e de diversos países da europa.

Acompanhado do grupo curitibano “NaTocaia”, Raul apresenta ao público composições próprias como “À Vontade Mesmo” e “Jump Street”, mas abre espaço para “Inútil Passagem” de Tom Jobim e “Sweet Lucy” de George Duke, e de músicos como Pixinguinha, Glauco Sölter e Djavan.

Raul  já dividiu palco em encontros  memoráveis com gigantes como o ele, tais como: Hermeto Pascoal, Cal’Tjader, Lionel Hampton, Sarah Vaughan, George Duke, Stanley Clarke, Ron Carter, Frank Rosolino, Airto Moreira, Flora Purim e Milton Nascimento. O trombonista, que divide seus dias entre França e Brasil, é considerado uma referência da música instrumental em todo o mundo.

Aos 76 anos, esbanja energia neste espetáculo ao lado de músicos inventivos e talentosos como Sölter, Mário Conde, Jeff Sabbag e Endrigo Bettega assistido em Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e agora Porto Alegre.

A série de shows é produzida e idealizada pela Gramofone Cultural e tem patrocínio da Petrobras. A assessoria de Imprensa é da Transpira Produção Criativa.

Teatro CIEE – Porto Alegre

10 NOV – 21h00

Rua Dom Pedro II, 861 – Bairro Higienópolis

(51) 3363-1111


QUEYI

Foi em meados do ano passado que, através da indicação do Marcelo Corsetti, ouvi falar pela primeira vez no nome de Queyi. A partir daí, não demorou muito para que eu ficasse encantado com algumas de suas canções e a admiração aumentasse quando a cantora e compositora espanhola fez uma participação especialíssima no show de lançamento do álbum homônimo do Realidade Paralela.

Depois disso, ainda tive a oportunidade e a honra de ver uma apresentação especial dela em um sarau e, ao lado de Ana Prada, dividir o palco novamente com o Realidade Paralela, quando no repertório foram apresentadas canções do Realidade e do recente álbum Soy pecadora de Ana.

Queyi, atualmente radicada em Montevideo, mas fazendo shows em Madrid e Buenos Aires, já lançou dois álbuns: Nada como un pez (2007) e El desayuno a mi modo (2009), nos quais faz uma síntese original, sofisticada e surpreendente entre influências do rock, do pop e do jazz, sempre com uma interpretação que transita facilmente entre a força e a delicadeza.

Nas próximas postagens teremos mais algumas novidades sobre o trabalho de Queyi e, até lá, saboreiem os dois vídeos abaixo, com performances musicais ao vivo da cantora, além de belíssimas intervenções artísticas com imagens, interagindo de forma preciosa com as canções Lorca, El desayuno a mi modo e The ninth wave, todas do álbum mais recente.

Saudações musicais!

BALEIRO/RAMIL (parte 4)

Posso afirmar que Pet Shop Mundo Cão (2002) foi o álbum que confirmou minha admiração incondicional à arte do cantor e compositor Zeca Baleiro. Digo isso porque antes mesmo de escutar o disco, assisti o show do maranhense em Santa Maria e me surpreendi deveras. E essa surpresa teve dois motivos: o primeiro é que, baseado na audição anterior do álbum Líricas, esperava um espetáculo mais acústico e intimista, mas, o que presenciei foi uma apoteose sonora com guitarras, samplers, DJ e mais outros instrumentos que formatam o mosaico surpreendente das canções de Pet Shop. Já o segundo motivo da surpresa é que, guri novo e recém desencantando das fantasias do mundo lá em 2002, vi espelhadas nas letras das músicas do disco toda a crítica e o deboche à vida moderna que  alimentavam minhas angústias da época e que ficariam mais nítidas para mim nos anos seguintes.


Assim, apesar dessa mudança sonora e temática (mesmo que o lirismo do disco anteiror também tenha sua referência crítica à modernidade desalmada) o meu apreço pelas canções de Baleiro só aumentou e, mais do que isso, adquiri uma noção mais exata das potencialidades críticas e criativas deste grande compositor.

Neste álbum de 2002, preenchido por canções autorias de Zeca, com exceção de Filho da Véia (Luiz Américo/Braguinha), que também fez parcerias valiosas com Mathilda Kóvak, Ségio Natureza e Érico Theobaldo, exala uma visão multifacetada sobre diversos aspectos da vida moderna, como os problemas identitários (Minha tribo sou eu), a exploração do trabalho (Eu despedi o meu patrão, que tem uma citação fantástica de Gregório de Matos Guerra no final), a “morte do poema” (Mundo dos negócios), entre outras abordagens mais sutis e não menos eficazes. E é justamente dessa última música que deixo o vídeo para apreciação, com o seu maravilhoso convite “vamos viver do comércio barato de poemas de amor”.

Depois do fabuloso álbum Tango (1987), Vitor Ramil adiou por alguns anos o lançamento de um novo disco, dedicando sua vida artística ao teatro, com o personagem Barão de Satolep, à literatura, com a bela novela Pequod e ao mundo ensaístico com A estética do frio, reflexão que lançou as bases das características da sua identitade artística, que ficarão ainda mais claras quando do lançamento de Ramilonga em 1998.

Mas antes disso, em 1995, surge encartado em uma resvista de Porto Alegre, com tiragem limitada, o cd À Beça, apresentando diversas músicas que seriam retomadas por Vitor em trabalhos posteriores, como em Tambong (2000, Grama Verde e Não é Céu) ou em Satolep Sambatown (2007, Café da Manhã) e que demonstravam uma grande riqueza sonora e alguns experimentos que seriam essenciais para a melhor definição da sonoridade e poética “ramiliana”.

Além desses aspectos, esse disco pra mim tem um mérito mais inquestionável: foi nele que apareceu pela primeira vez na face da terra uma das canções mais lindas que já escutei e que esta no vídeo abaixo: Foi no mês que vem.

Bueno, espero que tenham gostado desta quarta parte da série Baleiro/Ramil, que contemplará na sua próxima aparição os álbuns Baladas do Asfalto e Outros Blues (2005) do Zeca e Ramilonga (1998) do Vitor. Até lá!

Saudações musicais!

RODA MORTA (ou as verdades que não calam)

RODA MORTA

(Sérgio Sampaio)

O triste nisso tudo é tudo isso
Quer dizer, tirando nada, só me resta o compromisso
Com os dentes cariados da alegria
Com o desgosto e a agonia da manada dos normais.

O triste em tudo isso é isso tudo
A sordidez do conteúdo desses dias maquinais
E as máquinas cavando um poço fundo entre os braçais,
eu mesmo e o mundo dos salões coloniais.

Colônias de abutres colunáveis
Gaviões bem sociáveis vomitando entre os cristais
E as cristas desses galos de brinquedo
Cuja covardia e medo dão ao sol um tom lilás.

Eu vejo um mofo verde no meu fraque
E as moscas mortas no conhaque que eu herdei dos ancestrais
E as hordas de demônios quando eu durmo
Infestando o horror noturno dos meu sonhos infernais.

Eu sei que quando acordo eu visto a cara falsa e infame
como a tara do mais vil dentre os mortais
E morro quando adentro o gabinete
Onde o sócio e o alcaguete não me deixam nunca em paz

O triste em tudo isso é que eu sei disso
Eu vivo disso e além disso
Eu quero sempre mais e mais.

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