GISELE DE SANTI

Gisele De Santi (créditos: Alesi Ditadi)

Gisele De Santi (créditos: Alesi Ditadi)

Em março, publiquei aqui no blog uma entrevista com o acordeonista gaúcho Matheus Kleber. Na ocasião, comentando sobre a geração mais recente da cena musical porto-alegrense, o instrumentista destacou o nome da cantora Gisele De Santi como uma das promessas da música da capital gaúcha. E não teve erro!

Nas últimas semanas, chegou às lojas o álbum de estréia homônimo da cantora e compositora Gisele De Santi, financiado pelo FUMPROARTE , produzido por Gilberto Ribeiro Jr., co-produzido por Gisele e Fabricio Gambogi e pós-produzido por Leo Bracht. São 12 faixas que apresentam a voz encantadora da intérprete acompanhada de ótimos arranjos que passeiam por jazz, bossa nova, samba-rock, blues e chamamé.

Todas as músicas foram compostas pela própria Gisele, que estabeleceu parcerias em apenas duas: Chama-me (com Fabricio Gambogi) e Por Aqui (com Moisés Westphalen). Em síntese, o que se vê é um trabalho autoral sólido e diversificado, que ganha nuances inesperadas e intensas com a interpretação inconfundível da artista.

Não bastasse isso, um conjunto muito qualificado de instrumentistas garantem a rica sonoridade do álbum: Vagner Cunha (violinos e viola), Carlos D’Elia (baixo), Alexandre Diel (violoncelo), Alexandre Vianna (piano), Diego Silveira (bateria), Fernando Sessé (percussão), Fabricio Gambogi (violão e guitarra), Gilberto Ribeiro Jr. (guitarra), Leonardo Boff (piano Rhodes), Milene Alverti (violoncelo), Rodrigo Siervo (sax tenor), Tuzinho Trompete (trompete), Huberto “Boquinha” (trombone), entre outros.

Além disso, são ótimas as participações de Marcelo Delacroix na excelente Entenda (no vídeo abaixo), fazendo um dueto maravilhoso com Gisele; de Mateus Mapa (no vocal e na flauta) em quatro músicas, com especial destaque para a empolgante Quinhão; de Julio “Chumbinho” Herrlein (guitarra) na ótima Disco Duplo e de Clovis Boca Freire (baixo acústico) e Matheus Kleber (acordeon) na extasiante Por Aqui, que proporciona uma atmosfera sonora incrível. Todos estes destaques, mais E Eu? e Morena Branca já são hits aqui em casa.

Com este conjunto de qualidades, o primeiro álbum de Gisele De Santi enriquece ainda mais a cena musical porto-alegrense, dotada de ótimas cantoras e/ou compositoras como Vanessa Longoni, Adriana Deffenti, Karine da Cunha, Renata Adegas, Andréa Cavalheiro, Ana Krüger, entre outras. E, assim como estas citadas, a arte de Gisele merece, no mínimo, um reconhecimento nacional.

Quem quiser conferir mais detalhadamente tudo isso que acabo de escrever é só acessar o Site e o MySpace da cantora e ouvir as canções. Além disso, o cd está à venda na Livraria Cultura, local onde no dia 10 de julho Gisele faz um pocket show com sessão de autógrafos para o lançamento do álbum. Não percam!

Saudações musicais!

SEMPRETANGO 5: 34 PUÑALADAS

Depois de alguns meses retomo a seção do blog dedicada a algumas dicas sobre intérpretes clássicos e recentes do tango.

A dica de hoje trata-se da Orquesta 34 Puñaladas, que se especializou, nos primeiros álbuns, em interpretar e resgatar antigos tangos que representam o lado mais marginal dos arrabaldes argentinos e rioplatenses, entre criminales e cuchilleros.

Assim, nos discos Tangos Carcelários (2002), Slang (2005) e Argot (2006), as quatro cordas e a voz que formam o quinteto esbanjam ótimas e fortes interpretações de tangos casi olvidados. Nos vídeos abaixo, A la luz del candil (Carlos Vicente Geroni Flores/Julio Navarrine, 1927), que é do repertório do disco de 2006 e La Gayola (Rafael Tuegols/Armando Tagini, 1927), que está no álbum de 2002, são bons exemplos:

A partir de 2006, os integrantes da orquestra, Augusto Macri, Edgardo González y Juan Lorenzo (guitarras), Lucas Ferrara (guitarrón) e Alejandro Guyot (voz), depois de indicados a diversos prêmios com seus álbuns de versões, começam a preparar as composições inéditas que deram origem ao prestigiado álbum Bombay Bs. As. (2009), considerado um dos mais originais álbuns de tango da atualidade, com participação especial de Vitor Ramil. No vídeo abaixo, a faixa-título em uma apresentação de 2007 do grupo e que pode ser ouvida no site da orquestra AQUI:

Está aí, portanto, um belíssimo representante do tango contemporâneo, que dialoga com a tradição reiventando-a de forma criativa e original. É o “submundo” tanguero protagonista de belíssimas canções.

Saudações musicais!

VERSÕES ESPARSAS 10

Na décima edição das “Versões Esparsas”, uma fantástica releitura da canção Asa Branca, composta por Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira em 1947.

Nela, o talentoso e exímio pianista pernambucano Vitor Araújo desfila seus dedos no piano em um arranjo diferenciado e com muita personalidade sobre o clássico baião. As imagens fazem parte do primeiro cd/dvd lançado pelo artista, intitulado TOC: Ao vivo no Teatro de Santa Isabel. Desfrutem!

Saudações musicais!

DÉLIBÁB NO THEATRO SÃO PEDRO

Sempre preferi a vida nas cidades. Apesar de achar bela a paisagem pampeana, a vida no campo nunca atraiu minhas atenções, a não ser quando ouvia as histórias contadas pela minha família. Muitas vezes, convidado a passar férias no campo, decidi mesmo ficar nas cidades onde morei, mesmo que isso significasse muito calor e o predomínio do cinza nas cores do horizonte.

Talvez por essa preferência, me acostumei a escutar músicas que tematizavam quase exclusivamente a vida urbana, vendo com um distanciamento até certo ponto preconceituoso aquelas canções que falavam sobre a vida rural ou, mais especificamente, sobre a lida campeira do “gaúcho”.

No entanto, minha paixão irremediável pelo tango e pela milonga  contribuíram para a minha paulatina identificação com os temas da região platina e o mergulho nesse universo musical e poético auxiliou na minha redefinição em relação ao material folclórico do lado brasileiro do Pampa.

Eu e Vitor Ramil após o show

Mas essa reaproximação com os “temas campeiros”, devo admitir, não teria sido tão rápida e nem tão prazerosa sem a audição cotidiana da discografia de Vitor Ramil. Como se não bastassem as milongas distribuídas em alguns de seus discos ou mesmo a empreitada artística de Ramilonga (1998), o mais recente álbum do pelotense, Délibáb (2010), parece expressar com maior nitidez do que antes uma leitura sobre a musicalidade da região platina que me parece ainda mais próxima da minha relação subjetiva com essa tradição.

Se essa idéia ficou clara para mim quando escutei exaustivamente o álbum, ela foi reforçada de forma mais intensa quando assisti o show de Délibáb na semana passada. No sábado do dia 12 de junho, fui prestigiar Vitor Ramil e Carlos Moscardini apresentarem o show Délibáb em uma das três noites dedicadas ao espetáculo no Theatro São Pedro. No repertório, todas as 12 músicas do álbum que transforma em canções os poemas do argentino Jorge Luis Borges e do brasileiro João da Cunha Vargas e outras milongas da discografia de Vitor, como Semeadura (A Paixão de V Segundo Ele Próprio), Ramilonga, Noite de São João (Ramilonga) e Querência (Longes).

Carlos Moscardini e eu após o show

Nos arranjos de dois violões (de aço e de nylon) que perpassam as músicas do disco e que estruturam o show do mesmo é destaque evidente a performance do inigualável violonista argentino Carlos Moscardini, que mostrou sua extrema importância nas interpretações e  no arranjo das canções. A precisão e criatividade do violonista me fazem afirmar ser ele um dos melhores instrumentistas que já assisti ao vivo. Segundo o violonista gaúcho Rodrigo Nassif, Moscardini nasceu em terras argentinas (Paraná, capital da província de Entre Ríos) reconhecidamente férteis em ótimos violonistas, como Eduardo Isaac e Walter Heinze.

Seja abordando a história dos arrabaldes buenairenses (pelas letras de Borges) ou o pampa sul-rio-grandense (pela sensibilidade fora do comum de Vargas), a “miragem” construída pelas canções e pela atmosfera do show me aproximaram poeticamente de uma realidade distinta da que vivo, mas que trouxe à tona, na forma como é musicalmente traduzida, muitos sentimentos e emoções que parecem produtos genuínos da minha subjetividade.

Assim, muitas das qualidades que vejo em Délibáb, seja no formato discográfico ou no espetáculo que assisti, são, a despeito da importância de Vitor Ramil e  de Carlos Moscardini, relacionadas com a minha trajetória de ouvinte que, cada vez mais, apaixona-se pelo diálogo lírico e poético com mundos diferenciados daquele que vivo cotidianamente. E essas minhas impressões podem mesmo estar relacionadas com a idéia que Vitor expressa no dvd do álbum, sugerindo a aproximação da milonga com a densidade da literatura e, podemos concluir nesse caso, com a capacidade que esta arte possui de nos transportar para mundos diferentes.

Saudações musicais!

THIAGO PETHIT NO SANTANDER CULTURAL

Domingo passado (dia 6 de junho) assisti o cantor e compositor paulista Thiago Pethit apresentar seu álbum Berlim, Texas (2010) em Porto Alegre, no Átrio do Santander Cultural. O show, que foi divulgado AQUI nesse blog a partir de uma entrevista com Thiago, foi bem representativo da qualidade das canções e da performance artística do cantor.

Acompanhado pelos ótimos Pedro Penna (violão e ukulelê) e Camila Lordy (acordeón e piano), Pethit apresentou diversas músicas do seu álbum de estréia, como Sweet Funny Melody, Fuga Nº1, Forasteiro, Não se vá e também Essa canção francesa, do seu EP Em outro lugar (2008). Abaixo uma versão do cantor para Volver (1935), o belíssimo tango de Carlos Gardel e Alfredo Le Pera.

Entre os momentos de destaque da apresentação posso salientar a interpretação de Mapa-Múndi, que embalou o bis do show com a participação da platéia, canção, aliás, que dá o tom do bonito projeto gráfico do disco. Já em Voix de ville, a empolgante performance do cantor precedeu sua explicação para o público de como o conceito de cabaret influencia a atmosfera e a sonoridade de suas composições. E, falando em vaudeville, Thiago mostrou uma versão intimista de Bad Romance (Lady Gaga), para ele uma canção indispensável no repertório do vaudeville pop contemporâneo.

Deixo registradas aqui, portanto, minha imensa satisfação em prestigiar o show de Thiago Pethit e a minha lástima por aqueles que não seguiram o conselho deste blog e não foram lá no Santander Cultural aproveitar a criatividade do artista. Mais do que uma possível viagem entre Berlim e Texas, o espetáculo proporcionou ótimos elementos sonoros para uma viagem emocional em grande estilo.

Saudações musicais!

SHOW COLETIVO RÁDIO BUZINA

Por favor, quem estiver em Porto Alegre amanhã  (dia 1º de junho) não perca o show histórico de lançamento do CD da Rádio Web Buzina do Gasômetro. O espetáculo acontece às 20h, com entrada franca, no Salão de Atos da Reitoria da UFRGS.

Renovando o espírito coletivo da cena musical porto-alegrense, que há tempos não reunia tanta gente maravilhosa em um show grande e plural, a Buzina do Gasômetro, que você pode acessar AQUI, convidou diversos artistas para dar uma contribuição toda especial para esse projeto. Lá estarão os ótimos Marcelo Delacroix, Fausto Prado & Caetano Silveira, Kako Xavier, Bebeto Alves, Gelson Oliveira, Marisa Rotenberg, Richard Serraria, Luiza Caspary, entre outras excelentes atrações. Portanto, compareçam e prestigiem esse grande espetáculo e depois, por favor, me contem como foi…

Saudações musicais!

SAUDADES DE PORTO ALEGRE

Mesmo não morando em Porto Alegre há um bom tempo, os dois anos que morei lá sempre recordo com grande felicidade pelas experiências vividas. As minhas andanças pela cena musical da cidade, das quais este blog é uma das expressões, e as amizades que construí nesse trajeto já deixam saudades nestes anos de ausência, mesmo que continue visitando com frequência a capital gaúcha.

Toda essa nostalgia, inclusive, é sempre despertada quando leio um texto do blog do meu grande amigo Chico Cougo, o Memórias do Chico. No texto, Chico fala sobre uma das melhores tardes de parcerias que compartilhamos na capital gaúcha em maio de 2009. Além disso, a experiência envolveu a aquisição de um LP do grupo Saracura, do qual falei pouco aqui no blog, ainda mais pensando na importância que as músicas da banda têm na minha vida e para a história da música em Porto Alegre.

Assim, tomo a liberdade de reproduzir aqui o texto que Chico escreveu e proporciono a vocês momentos de uma leitura prazerosa. As palavras do texto, vistas de hoje, funcionam como uma bela “fotografia narrativa” daqueles ótimos tempos que vivi em Porto Alegre. Espero que gostem.

Saudações musicais!

PEQUENA AVENTURA PORTO-ALEGRENSE

por Chico Cougo (22/05/2009)

PORTO ALEGRE (Podia ser um pouquinho mais fácil…) – “Eu tenho esse. Tá com a capa meio estragada, mas eu te dou ele” – falou o senhor de meia-idade, pele morena, óculos pendurados no pescoço. Agachado, tentando desvendar o ano de um Teixeirinha Norte a Sul, me chamou atenção aquela frase vinda logo de um vendedor. O local: Mercado Público de Porto Alegre, Feira de Vinis. O momento: uma jovem tarde de segunda, tempo lusco-fusco típico do outono, friozinho ameno.

Vi o Icaro – que não é o que vôa – num passo miúdo, um tanto quanto afoito, quase que abduzido pela proposta do vendedor. Levantei-me. O “eu te dou ele” me fez, por um momento, duvidar que aquilo podia ser, de fato, verdade. Mas não! O vendedor de vinis estava falando sério mesmo! Se Icaro comprasse um dos discos à venda, ganharia “de brinde” o LP Saracura, gravado em 1982 pelo grupo musical homônimo.

Minutos depois, ele já havia feito sua escolha. Levaria um outro disco – o primeiro dos Engenheiros do Hawaii – especialmente para ganhar o Saracura. Quando vi a capa do “brinde”, pensei cá com meus botões: “mas o que o Icaro quer com um disco desses, com uma capa toda ‘desecha’?”. Porém, de imediato lembrei que ele estava “ganhando” o LP, o que – afinal – me parecia um bom negócio.

***

O toca-discos da Nicole é temperamental. Em dez meses, nunca consegui desvendar seus verdadeiros segredos, mas suponho que ele tenha sido adestrado, ensinado a reproduzir apenas os discos da dona. Digo isto porque em mais de uma ocasião tentei rodar meus vinis nele sem sucesso. Só depois de colocar um disco da Nicole no prato é que ele se digna a tocar – e aí toca o que for.

Foi o que aconteceu com o Saracura, o “brinde” do Icaro. Depois da compra, viemos aqui pra casa ouvir o disco. Inicialmente, o toca-discos com vida rodou o LP, mas não emitiu sons. Depois de alguns minutos negociando, ele aceitou o “intruso” e, passados aqueles milímetros sem vincos e silenciosos que todo vinil tem, um acordeom bem tocado começou a ritmar um autêntico xote gaúcho, que me surpreendeu de pronto.

***

O grupo musical Saracura alcançou grande repercussão na Porto Alegre dos anos 1970-80. Chegou ao fim em 1984, mas seus integrantes continuaram na estrada, alguns com boa fama, como o baterista Fernando Pezão e o show-man Nico Nicolaiewsky, o qual prefiro chamar de Nico, o Gênio. O LP Saracura foi gravado nos estúdios da ISAEC, aqui mesmo, na capital. A prensagem aconteceu em São Paulo, pela Fermata; uma segunda edição – assinada pela Continental – chegou às lojas em 1983.

Antes de comprar o vinil, Icaro já havia garimpado o grupo nos blogs da vida. Como sempre, ele chegou a me trazer as mp3 do disco para ouvir. Mas, sabem como é, sou meio preconceituoso com várias coisas – dentre elas a “música de Porto Alegre”. É feio, muito feio ter este tipo de preconceito e estou tentando reduzi-lo a curto-médio prazo (até porque descobri que é muito melhor ser pósconceituoso!).

Mas eu dizia que o Icaro já havia me aprensentado o Saracura e que não ouvi por pura bobagem minha. Daí a minha surpresa ao me deparar com as oito faixas do disco rodado no prato do toca-discos teimoso, naquela – a essas alturas – nebulosa tarde de segunda. Genial é o adjetivo mais próximo (embora não suficiente) para expressar o que achei sobre aquele disquinho de capa bobinha, que nem corresponde com o conteúdo da produção. Saracura não é um LP para ser apenas ouvido, mas sim degustado, cantado, dançado, vibrado. O lado A é “agitadinho”, com dois xotes puxados para o humorismo – mesclando instrumentos do rock, algo semelhante ao que Kleiton e Kledir faziam no início da carreira (Kledir Ramil, aliás,  compõe o Xote de Jaguarão, faixa 3) -, com um tango (Tango da mãe), que hoje compõe o repertório do espetáculo Tangos e Tragédias e com um bolero sensacional, o Bolero lero.

Parêntese para falar de Bolero lero: é fantástico, incrível, simplesmente genial! Uma mistura de bolero com rock, uma letra muitíssimo bacana (lavra de Mário Barbará… tá explicado), vocal perfeito de Silvio Marques e Nico, o Gênio. Enfim, uma música que entra fácil nas dez melhores que já ouvi. Na vida.

O lado B é mais intimista, mais piano, mais romantismo, mais Porto Alegre. Com Marcou bobeira e Flor, duas obras de arte, dá até pra sonhar acordado e sem fechar os olhos!

***

Conhecer música é algo que sempre me fascinou. A Internet facilitou muito o processo, mas – por outro lado – tornou as coisas mais gélidas. São três cliques e a música está em nossos ouvidos. É bacana, tem seu valor, mas não substitui a aventura de manusear um vinil, de descobrir 40 minutos de talento puro como os constantes em Saracura, de ouvir e de ter vontade de repetir tudo aquilo mil vezes, de sorrir sabe-se lá porque, acho que apenas pelo encantamento de estar diante de algo que nos faz ver o quanto o ser humano pode ser, no fim das contas, sempre genial.

Das pequenas aventuras porto-alegrenses que tive, acho que a “Missão Saracura” ficará bem viva durante muitos anos na minha mente. Cada vez que eu ouvir este disco – e ouvirei muitas vezes mais – vou me lembrar de como ele esteve nas minhas mãos durante tantas vezes e de como descobri que ele é absurdamente incrível só depois de andanças e mais andanças que incluem um café no Mercado Público, a pindaíba momentânea de um grande amigo, uma Usina do Gasômetro que não funciona nas segundas e um mestrado que, cada vez mais, gosto pelo que me proporciona.

Essa é a graça da vida, afinal.

DANIEL DREXLER E VITOR RAMIL

Daniel Drexler e Vitor Ramil são os convidados

da OC Fundarte em concerto no Teatro do SESI

por Guto Villanova, MS2 Produtora

Com um repertório que supera as fronteiras entre o erudito e o popular, o Sesi Arte e Cultura apresenta Daniel Drexler e Vitor Ramil com a Orquestra de Câmara Fundarte,  dia 30 de maio.  O concerto, regido pelo maestro Antônio Borges-Cunha,  inclui Villa-Lobos e canções dos convidados, com tratamento orquestral,  que contam com arranjos e direção musical assinados por Vagner Cunha.

O concerto, por Antônio Borges-Cunha

A superação das fronteiras entre os gêneros populares e eruditos é uma necessidade para a atualização estética  do  repertório orquestral e para  a valorização da arte verdadeira, aquela que com sua originalidade e conteúdo expressivo comove os ouvintes. Como regente, tenho a responsabilidade de estimular a transgressão de preconceitos através do diálogo entre o repertório orquestral histórico com as múltiplas tendências da música contemporânea, incluindo a canção popular que é central na cultura brasileira.

Vitor Ramil e Daniel Dexler são compositores e intérpretes clássicos de nossa cultura genuína. Hoje, suas canções recebem tratamento orquestral e estão ao lado de Villa-Lobos, compositor que representa a alma do povo brasileiro e que conquistou sua identidade a partir da música popular e de nosso folclore.

Programa

Villa-Lobos                                        Bachianas Brasileiras nº 9

Prelúdio

Fuga

Vitor Ramil/João da Cunha Vargas          Querência

Vitor Ramil                                                          Neve de Papel

Vitor Ramil/Fernando Pessoa                    Noite de São João

Daniel Drexler                                                    Salón B

El horizonte de los sucessos

Banda Ancha

Novedad

Vitor Ramil/João da Cunha Vargas         Pingo à soga

Vitor Ramil                                              Livro Aberto

Ramilonga

Daniel Drexler                                                  La rambla de Montevideo

Lo que sempre fue

Vacío

Vitor Ramil                                                       Estrela, Estrela

Vitor Ramil e Daniel Drexler, voz e violão

Direção musical e arranjos: Vagner Cunha

Regente: Antônio Borges-Cunha


SESI ARTE E CULTURA

O SESI RS acredita que a cultura está presente em todas as ações da sociedade. Neste sentido realiza o SESI ARTE E CULTURA, uma ação institucional que tem como prioridade o acesso aos bens culturais para trabalhadores da indústria. Democratizar e promover a arte e a cultura, é o principal objetivo do programa cultural que consiste em apresentações de espetáculos de diversos segmentos artísticos (música, teatro, dança, circo) no Teatro do SESI,.

O projeto pretende valorizar a arte do espetáculo por meio da promoção de artistas regionais, proporcionando o acesso aos trabalhadores da indústria de diferentes regiões do estado a espetáculos de excelente qualidade artística. Em 2009, foram atendidos 2.763 trabalhadores, uma ação institucional que tem como prioridade o acesso ao Teatro do Sesi para os trabalhadores  da indústria e seus dependentes, gratuitamente.

O QUE: Orquestra de Câmara Fundarte com Daniel Drexler  e

Vitor Ramil no Teatro do SESI

Dia: 30 de maio de 2010

Local: Teatro do SESI, Av. Assis Brasil, 8787 – Porto Alegre

Horário: 19h

Ingressos:

Platéia baixa: R$ 40,00

Platéia alta: R$ 30,00

Mezanino: R$ 15,00

Inicio das Vendas: a partir de 21 de maio

Pontos de Vendas: Panvel  do  Shopping Iguatemi e Praia de Belas

Informações:

Telefone 0800518555

Sites:  www.sesirs.org.br/sesilazer

CONVERSA ESPARSA COM THIAGO PETHIT

Foto: Tainá Azeredo

Quando lançou em 2008 o EP Em Outro Lugar, Thiago Pethit já demonstrava trilhar um caminho diferenciado e autêntico no cenário musical brasileiro, característica que se tornou ainda mais visível com seu recém-lançado Berlim, Texas, que reúne 11 canções inspiradas numa abordagem intimista e poliglota sobre o amor e seus desdobramentos. Produzido por Yuri Kalil, o álbum é atravessado por uma sonoridade que tem como referência artistas da estirpe de Yann Tiersen, Edith Piaf e Nick Cave, entre outros.

Surpreendido que fiquei ao escutar as músicas de Pethit, resolvi escrever um pouco sobre elas aqui no Música Esparsa, até que descobri que o cantor e compositor fará show em Porto Alegre no dia 6 de junho no Santander Cultural e pensei em publicar aqui uma entrevista com ele para convidar os estimados leitores deste blog para conhecerem e prestigiarem o artista na sua passagem pela capital gaúcha.

Portanto, confiram abaixo o retorno da seção Conversa Esparsa, com o cantor e compositor Thiago Pethit, além de acessarem o MySpace e o SITE do artista.

Saudações musicais!

1) Como está sendo a recepção do teu trabalho autoral, tanto o EP “Em Outro Lugar” quanto o recente “Berlim, Texas“? A divulgação pela internet ajudou na multiplicação dos teus ouvintes?

Thiago Pethit: A recepção tem sido ótima, por vezes até surpreendente, se pensarmos em parâmetros de música autoral e independente. A internet é o maior aliado de qualquer artista atual em termos de divulgação, mas é o pior inimigo também. Tudo se dissipa na mesma velocidade em que se dissemina. É preciso saber disso para fazer um bom uso desse meio. Só a internet não basta, mas ajuda, e bastante.

2) Tanto no teu EP “Em Outro Lugar”, quanto no álbum “Berlim, Texas”, existem canções em português, inglês e francês. Essa característica pode expressar a pluralidade das tuas influências musicais que, com certeza, extrapolam os limites do cancioneiro brasileiro. Nesse sentido, quais são as principais referências musicais estrangeiras que nortearam o teu processo de composição destes dois trabalhos?

Thiago Pethit: São muitas. Qualquer coisa que eu goste acaba me influenciando, mais ou menos. O que eu gosto realmente e que norteia um pouco as minhas idéias musicais são artistas como Edith Piaf, Yann Tiersen, Lou Reed, Nick Cave, Tom Waits, Kurt Weill. A maioria músicos que de algum jeito passaram pelo teatro, ou possuem alguma semelhança com o espírito de “cabaré”. E tem os mais atuais também, suecos como Lykke Li e Peter Bjorn and John ou até mesmo a Lady Gaga, que me interessa de certa forma.

3) Em grande parte das tuas canções há um tom melancólico e confessional bem marcante. Que outros tipos de referências artísticas além da música (como cinema, teatro, literatura) influenciaram nessa característica das tuas composições?

Thiago Pethit: Essa forma de composição das letras em tom mais confessional, eu nunca soube muito bem de onde veio. Foi o jeito mais natural de escrever as canções, só.

Trabalhei 10 anos como ator de teatro, e minha formação artística veio desses anos. Por isso minha música remete um pouco aos vaudevilles, aos teatros de bizarrices e aos cabarés, mas está presente mais nos arranjos que nas letras. Quando comecei a fazer música não tinha um método. E o mais natural foi ser sincero nas letras. E direto.

4) Há quem diga que arte é uma forma de mostrar uma visão diferenciada do mundo. Partindo dessa premissa, que “mundo” os teus ouvintes podem vislumbrar a partir das tuas canções?

Thiago Pethit: Um mundo no qual a beleza das coisas está contida na sujeira de um cabaré decadente, que pode estar em qualquer lugar deste nosso mundo. Aliás, a idéia de um cabaré é refletir o próprio mundo, num tom saturado, mas é um reflexo.

5) Algumas matérias recentes na imprensa destacam que tu, junto com outros artistas como Tiê, Karina Buhr, Filipe Catto e Juliana Kehl, entre outros, faria parte de uma “nova geração” da música brasileira. No teu processo criativo ou mesmo na divulgação do teu trabalho há uma preocupação com essa questão do “novo”, da renovação e/ou ampliação de horizontes para a música feita aqui no Brasil?

Thiago Pethit: Não tenho intenção de renovar nada, nem preocupação com o “novo”. Me preocupo sim, em ser atual e dialogar com o mundo que estou inserido, com a internet e com as possibilidades criativas e de divulgação que ela me apresenta. Mas não para representar uma novidade. O novo hoje é um enigma sem resposta. A internet nos propôs essa dificuldade, da aleatoriedade, na qual o novo deixa de ser novo a cada pequena descoberta. O que era velho vira novo, de novo e o que é o mais novo, daqui a instantes é velho. Mais do que renovar, me importa estar atualizado em relação ao mundo e responder aos meus anseios de comunicação com a minha música, nos tempos em que vivo.

6) Como foi a escolha dos instrumentistas e demais parceiros que te ajudaram na gravação de Berlim, Texas? Alguns deles te acompanham nos shows?

Thiago Pethit: O ‘Berlim, Texas’ foi resultado da minha temporada de shows após lançar meu primeiro EP . Foram muitas transformações da banda nessa etapa. Comecei com 5 músicos me acompanhando, passei para 4, testei 2, fechei em 3.  Com estes eu descobri um tipo de sonoridade, mais vazia, que norteou o disco novo.  As canções ficaram mais “na frente” e a voz se destacou. Isso me interessava, foi como criar uma nova linguagem. Alguns me acompanham ainda, como o Pedro Penna, violonista que está desde a primeira formação.

7) Quais são teus principais projetos para esse ano de 2010?

Thiago Pethit: Ainda tem muito por vir em 2010. Nos meus projetos estão alguns clipes do “Berlim, Texas”, viajar com o show do disco e o que pintar no meio desses caminhos.

8 ) Deixe um recado para os leitores do Música Esparsa.

Thiago Pethit: “Esparsem” a música!

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