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Música Esparsa

R.E.M. (Collapse Into Now)

No dia 6 de novembro de 2008 assisti o melhor espetáculo musical da minha história de vida em Porto Alegre: o show da turnê Accelerate do grupo estadunidense R.E.M. Fã incondicional da banda há anos, aquela grandiosa oportunidade de prestigiar Michael Stipe, Peter Buck e Mike Mills ao vivo me parecia demasiadamente irreal até entrar no Zequinha Stadium, como ficou conhecido o campo do time de futebol São José naquela noite fantástica.

Na apresentação, marcada na época pela eleição de Barack Obama (cuja candidatura foi apoiada pela banda, que fez várias críticas ao governo George W. Bush, especialmente nas canções de protesto sóbrio em Around the Sun), desfilaram as principais canções da carreira do grupo, além de quase todo o álbum recém-lançado na época. Assim, músicas fantásticas dos discos Green (1988), Out of Time (1991), Automatic for the People (1992), Monster (1994), New Adventures in Hi-Fi (1996), Up (1998) e Reveal (2001) rechearam um show de alta energia embasado nas canções de Accelerate, indicador da vitalidade e da criatividade inesgotável da banda de Athens.

Por todo esse envolvimento que tive nos útlimos anos com a música do R.E.M., minha ansiedade pelo 15º álbum do trio era muito grande, desde que a novidade discográfica foi anunciada tempos atrás. E nesta semana que passou, Collapse Into Now (cujas canções foram sendo liberdas aos poucos) deu as caras de forma completa e, mais uma vez, confirmou minha grande admiração pela forma com que os caras conseguem mesclar músicas rápidas e fortes com baladas pop e fazer um álbum formidável toda vez que pisam em um estúdio. Nesse último disco, essa habilidade ainda foi incrementada com as participações fantásticas de Peaches, Patti Smith e Eddie Vedder

Dessa vez, infelizmente, parece que as 12 faixas do disco não serão divulgadas em uma grande turnê, mas sim a partir de vídeos exclusivos, como os das músicas Überlin e It Happened Today. Como já li em algum lugar, o R.E.M. é um raro tipo de banda que consegue explorar o pop sem sofrer as principais e nefastas consequências que acometem outros incautos que dialogam com essa vertente da indústria cultural.

Com vocês, então, duas das excelentes canções de Collapse Into Now: Mine Smell Like Honey e Oh My Heart, que não deixam dúvidas sobre a voz poderosa e belíssima de Michael Stipe.

Saudações musicais!

 

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MULHER: A TRAMA DO DESTINO

Era uma vez uma mulher
Que via um futuro grandioso
Para cada homem que a tocava
Um dia
Ela se tocou…

(Alice Ruiz, Ladainha)

Efemérides como este 8 de março, Dia Internacional da Mulher, podem ser encaradas através de pelo menos duas interpretações. A data pode ser usada como uma homenagem efetiva às mulheres, a partir da denúncia da exploração e da violência que as mesmas sofrem cotidianamente (além da discriminação em diferentes espaços da sociedade) ou podemos visualizar nesse tipo de “comemoração” certo “agendamento da crítica” (como já escreveu alguém que não lembro), isto é, reivindicar os direitos das mulheres passa a ter dia marcado, quando deveria ser uma atitude cotidiana.

Em certo sentido também penso que investir demais na ideia de um “dia da mulher” acaba muitas vezes sucumbindo ao binômio masculino/feminino que por muito tempo foi degradante para as mulheres, qualificadas  como a parte mais “frágil” e “inferior” desta dualidade. Ainda tenho minhas dúvidas se é possível atribuir sentidos verdadeiramente positivos ao feminino (pensando que tenham efeito concreto) sem acabar com a dicotomia dos gêneros.

Mesmo assim, essa postagem é uma homenagem que se alimenta de algo que muitas vezes se enraiza nessa dualidade e divisão de papéis entre homem e mulher: o romantismo, expresso nessa letra fantástica do Walter Franco. Apreciem a belíssima canção Senha do Motim, do álbum Tutano (2001).

Saudações musicais!

ANA PRADA (SOY PECADORA)

Acabei de assistir o belíssimo show da Ana Prada no Musicanto de Santa Rosa (em dezembro de 2010) e me lembrei que cometi o sacrilégio de até hoje não ter escrito um comentário específico sobre Soy Pecadora, o segundo disco da cantautora uruguaia.

Lamento este fato até porque as músicas de Ana são presença constante no meu cotidiano e é mais do que dever fazer menção nesse espaço, sempre que  possível, a uma das artistas que mais me sensibilizou nos últimos tempos. Além disso, tive o privilégio de assistir uma apresentação das músicas de Soy Pecadora logo depois que o disco foi lançado, quando ela participou, junto com Queyi, de uma das edições do Realidade Paralela Convida. Portanto, já poderia ter feito alguns comentários sobre o segundo álbum de Ana há muito tempo.

Assim como no disco de estréia Soy Sola (2006), Ana Prada mescla composições próprias e temas de outros artistas em Soy Pecadora, consolidando uma interpretação segura e de incomparável beleza. A mistura de sons e estilos, que vão dos ritmos do folklore platino até o pop e diversas expressões da música urbana, tornou-se uma marca registrada da artista uruguaia que, como poucos, conseguiu criar um universo musical específico para seu trabalho.

Mas nem só as letras inspiradas ou a musicalidade envolvente fazem de Soy Pecadora um grande álbum, já que  a faixa-título traz à tona um importante tema da nossa cultura: a vinculação da mulher e da realização dos desejos das pessoas com o pecado e a culpa. Ou seja, a parte mais repressora da cultura religiosa cristã ainda pauta muitas das ações e dos valores da nossa sociedade. Portanto, confiram o belo videoclipe desta “milonga pop”, que mostra o talento artístico de Ana Prada e sua sensibilidade para uma questão fundamental da nossa cultura.

Saudações musicais!

 

CONVERSA ESPARSA COM CRISTINA BRANCO

No início de 2011, a cantora portuguesa Cristina Branco lançou seu décimo segundo álbum, intitulado Não há só Tangos em Paris (na edição portuguesa). No disco for export, com previsão de lançamento para abril, o nome ficou como Fado Tango, deixando evidente o tom das canções que fazem parte do repertório do substituto do excelente Kronos (2009).

Aproveitando esse momento especial, a intérprete portuguesa aceitou conversar com o Música Esparsa sobre o álbum e ainda sobre sua trajetória artística e sua relação com a música brasileira.

Em 2009 escrevi alguns comentários sobre a discografia da artista, que se destaca pela combinação de quantidade (incluindo o próximo são 12 discos em 15 anos de carreira) com qualidade. Os álbuns, sempre vinculados a uma temática específica (seja o tempo, as viagens, o amor físico ou mesmo homenagens à Amália Rodrigues e Zeca Afonso) transbordam interpretações emocionantes e repertórios de alto nível.

Neste Não há só Tangos em Paris acontece uma viagem musical entre Lisboa, Paris e Buenos Aires, combinando tangos, fados, milongas e boleros e apostando na sinergia entre bandoneón, piano e guitarra portuguesa. É o fado de Lisboa e o tango de Buenos Aires que sofrem uma síntese cosmopolita na capital francesa. A prória trajetória artística de Cristina Branco (que começou sua carreira na Holanda), marcada pela divulgação da sua música por diversos países europeus, dá sentido para esse “transatlântico musical” que caracteriza o álbum.

Entre os instrumentistas que formam a base do disco encontramos os excelentes Bernado Couto (guitarra portuguesa), Bernardo Moreira (Contrabaixo), Carlos Manuel Proença (viola), João Paulo Esteves da Silva (piano) e o inigualável Ricardo Dias (acordeón).

No grupo de compositores das letras, encontramos Antônio Lobo Antunes, Mário Laginha, Miguel Farias, Vasco Graça Moura e até mesmo Charles Baudelaire, com seu poema Invitation au Voyage. A faixa-título, que vocês podem conferir no vídeo abaixo, é de autoria de Pedro da Silva Martins (do grupo Deolinda).

Saudações musicais!

Desde sua apresentação na Holanda em 1996 até a preparação deste Não há só tangos em Paris (2011) que mudanças ocorreram na recepção da sua música em Portugal e nos outros países? Possui informações sobre a recepção de seus álbuns na América Latina e Brasil?

Claro que aconteceu muita coisa, eu mudei, o mercado e o mundo também, isso faz girar as opiniões, a concepção que fazemos das coisas e sobretudo, crescer, eu e o público. Sobre mim e já agora sobre o Fado também, sabe-se mais qualquer coisa, no fundo, Portugal passou a aceitar melhor a minha música e a respeitá-la como sua.

No álbum a ser lançado em breve, Não há só tangos em Paris, as trocas culturais que permeiam as canções se deslocam no eixo entre Buenos Aires, Lisboa e Paris. Qual a importância destas cidades e da cultura que elas agregam na tua trajetória artística?

Conheço um pouco todas elas e nunca o suficiente para me apoderar de alguma. A nenhuma posso chamar minha e têm todas o charme de intemporal senhora experiente e misteriosa. No meu caminho são rituais de passagem, cais de partidas e chegadas (Paris ou Marselha, por Paris não ter um cais), de sensualidade vincada em cada esquina, que têm uma música própria que se expressa nos corpos dos que passam e que se colam aos turistas, que as levam no peito para casa para nunca mais se libertarem, como se fossem doenças…não se esquecem de nós e nós estamos inexoravelmente presos, vítimas de tanta luxúria, de tanta saudade! Enquanto observadora, canto-as e desfaço novelos de encontros e possíveis desencontros num imaginário transatlântico onde o Fado e o Tango trocam olhares.

Carlos Gardel chegou a cantar fados, como o famoso Caprichosa, e Amália Rodrigues cantarolava tangos do zorzal na sua juventude. Para além dessas coincidências entre os dois maiores intérpretes destes gêneros musicais, que aproximações você enxerga entre os dois estilos? E quais são outros ritmos presentes no álbum que fazem parte da proposta sonora das canções do repertório?

Coincidências não faltam, basta ouvir alguns tangos e logo trauteamos um fado! De resto, é a minha música, a sonoridade de sempre, mesmo o Tango aqui, assume os trejeitos de música universal…pode ser que seja um Fado? Ou um Fado que poderia ser um Tango?

A cantora argentina Karina Beorlegui lançou dois álbuns (Caprichosa, 2003 e Mañana zarpa un barco, 2008) promovendo também um diálogo entre tango e fado. No último disco, o nome tenta dar conta dos “ares portuários” dos dois estilos. Neste seu próximo disco, tu já escreveste como ele pode ser também um “convite à viagem” (como no poema de Charles Baudelaire) bem como um disco de memórias, referências importantes quando falamos de Fado e Tango e quando pensamos nas “raízes portuárias” destes dois estilos. Comente um pouco sobre esses aspectos.

A viagem é um processo inerente ao meu trabalho, é natural que a evoque quase obsessivamente, afinal, é o que nos afasta daqueles amamos. Há também uma confessa dualidade, uma atracção pelo indizível, uma tentativa de nomear este amor inominável pelo canto e a dor rasgada da separação.

Esta é a minha viagem também e porque não o relato mais ou menos enfatizado dos que tiveram que partir?

Qual a origem de sua relação com a música brasileira, já que gravou versões de músicas daqui, como O meu amor (Chico Buarque) e Soneto da separação (Vinicius de Moraes/Antônio Carlos Jobim)? Do que conheces, quais são tuas preferências na música brasileira?

A origem está nos LP’s na casa dos meus pais, e a minha preferência é vasta tal é a força da música brasileira. Pixinguinha, Elis Regina, Chico Buarque, Adriana Calcanhoto (just to name a few!)

Quais seriam as características de tua interpretação do fado, já que esta parece ser influenciada pela questão de divulgares a música portuguesa para outros países? Como seria, portanto, efetuares uma abordagem original de uma tradição (o fado) e divulgá-la sem sucumbir a uma imagem “aprisionadora” de fadista?

Naturalmente, o que sucedeu, o que acontece todos os dias no meu canto, no palco, é que o que ouço e vejo, ou como (pela mesma ordem de ideias, em exemplo) condiciona o que sou ou o que canto. Não acredito em indivíduos estanques, incapazes de se “adulterarem”, de se corromperem, seja no amor, na ideologia, no credo ou na mesa. E isso eu já faço, não creio que passe uma imagem tradicionalista ou conservadora da música do meu país, não transporto ícones do Fado comigo e o meu discurso é universalista e despojado. A minha música é já e desde sempre por força das minhas escolhas sonoras, do meu apetite musical abrangente e sabe a música urbana e cosmopolita do séc.XXI.

Deixe um recado para os leitores do Música Esparsa.

A música é o alimento da alma, o mote para “sentir”. Como cada vez sentimos menos, recomendo que se “coma” muita música como terapêutica dos tempos modernos. Recomendação: nada de versões light, vão pela música mais gourmet, sem medo de pecar!

PRÊMIO AÇORIANOS DE MÚSICA 2010 (INDICADOS)

A lista dos indicados da vigésima edição do Prêmio Açorianos de Música, promovido pela Prefeitura de Porto Alegre, saiu ontem e pode ser acessada  aqui. O evento, que acontece dia 26 de abril no Teatro do Bourbon Country, premiará diversos artistas da música do Rio Grande do Sul subdivididos em sete gêneros musicais e suas respectivas categorias.

Troféu Açorianos

Nestes dois anos do Música Esparsa, comentei aqui o resultado das edições  2008 e 2009 do Açorianos. Mesmo que esse tipo de premiação seja importante, eventualmente, para deixar em evidência artistas que talvez demorássemos para conhecer, não costumo pautar minha “pesquisa musical” por elas. Até porque a seleção dos indicados e dos premiados, sem desmerecer os justos premiados em diversas edições, nem sempre possui critérios claros (pelo menos que eu conheça).

Dos indicados para a premiação que acontece em abril próximo, comentei sobre apenas 6 discos, já que os meus interesses concentram-se, com raras exceções, basicamente nos gêneros de música instrumental e MPB. A exceção, nesse caso, foi em relação ao lançamento discográfico triplo do Bebeto Alves, a caixa Bebeto Alves em 3D, que comentei em dezembro passado, que concorre no gênero Pop-Rock, nas categorias de compositor, intérprete e disco.

No gênero Instrumental, vocês podem conferir a postagem que fiz semana passada sobre o ótimo álbum Fronteira, do Rodrigo Nassif (compositor, instrumentista e disco) e a entrevista com o acordeonista Matheus Kleber, cujo disco Ida (em parceria com Pedro Franco) concorre também nas três categorias do gênero.

Em MPB, a disputa também será fortíssima, pois, além de Raul Ellwanger, Victor Hugo, Luciah Helena, Sérgio Napp, Geraldo Flach (in memorian) e Flora Almeida, que concorrem em diferentes categorias, temos em destaque o mais recente álbum do grande Nelson Coelho de Castro, Lua Caiada; o disco de estréia homônimo da cantora e compositora Gisele de Santi e o incrível délibáb do Vitor Ramil.

Buenas, estas são as sugestões para quem quiser acompanhar alguns dos indicados a partir do Música Esparsa e, é claro, depois da premiação, farei meus comentários por aqui. Enquanto isso, escutem abaixo a canção de uma das indicadas, E Eu, por Gisele de Santi.

Saudações musicais!

 

 

CONVERSA ESPARSA COM KARINA BEORLEGUI

Hoje o Música Esparsa, em parceria com o blog Memórias do Chico, traz uma entrevista exclusiva com a cantora argentina Karina Beorlegui, que dedica sua carreira artística a cantar tangos e fados belíssimos. Mencionada aqui no blog na entrevista concedida pelo 34 Puñaladas, a artista gentilmente aceitou responder algumas perguntas sobre sua carreira e sobre seus novos projetos. Para isso, eu e meu amigo Chico Cougo elaboramos algumas questões que contribuíssem para mediar a relação do público brasileiro com esta maravilhosa intérprete argentina.

Karina apresenta com Los Primos Gabino, dia 18 de fevereiro no La Trastienda Club, o show “Tango, fado, música de otros puertos…“, que apresentará um espetáculo centrado nas relações entre diversos portos e culturas a partir dos dois genêros musicais mais representativos da história portuária: o fado e o tango.

Karina já lançou dois discos: o primeiro, Caprichosa (independente, 2003), traz como destaques a faixa-título, fado composto por Froilán Aguilar e eternizado na voz de Carlos Gardel e a valsa Parece mentira, de Francisco Canaro e Homero Manzi, muito conhecida na voz de Nelly Omar, que parece ser uma das grandes referências de Beorlegui.

No segundo álbum de sua carreira, Mañana zarpa un barco (Acqua Records, 2008), Karina fez uma excelente parceria com os três guitarreros Los Primos Gabino e apresentou um ótimo repertório, cantando inclusive em português os fados Uma casa portuguesa (Artur Fonseca, Reinaldo Ferreira e V. M. Sequeira), Amor em casa (Alain Oulman) e Barco negro (David Mourão Ferreira, Caco Velho e Piratini). Outros destaques são os tangos Martírio (de Enrique Discépolo) e Amores de estudiante (Le Pera, Gardel e Battisttela), além da faixa-título composta pelos grandes Homero Manzi e Lucio Demare.

Aproveitem, portanto, essa oportunidade de conhecer esta incrível intérprete que é uma das mais destacadas da cena contemporânea da música argentina. Para mais informações acessem o site de Karina Beorlegui.

Saudações musicais!

ICARO BITTENCOURT – Faça uma pequena apresentação de sua trajetória artística para o público brasileiro:

KARINA BEORLEGUI: Defino-me como portenha, cantora e atriz. Filha de pais atores de cinema, teatro e TV, me criei entre roteiros e bastidores. Meu pai sempre teve amor pela música e na minha casa formavam-se grandes tertúlias nas quais me colocavam para cantar blues e temas de Moris, Janis Joplin e Beatles. No tango comecei profissionalmente quando Alejandro Dolina me converteu na co-protagonista Laura, em sua opereta Lo que me costó el amor de Laura. Eu já havia trabalhado junto ao grupo de teatro Los Macocos no Teatro Municipal Gal. San Martín e antes em várias obras de teatro underground, inclusive em um monólogo de humor. A partir daí não parei de investigar e me apaixonar por cantar tango e fado português, que já formavam parte de minha discoteca caseira e sempre me pareceram irmãos.

IB – Escreva acerca das possíveis relações entre o tango e o fado no que se refere à interpretação, harmonia e poesia das canções:

KB: O tango e o fado nasceram para a mesma época nos distintos portos; têm esse ar arrabalero, das ruas suburbanas da cidade portuária. Historicamente, eles têm muitas coincidências nas correntes imigratórias, algo que está plasmado em suas letras de alto conteúdo existencial e poético. Quanto à música, há finais e cadências em comum, mas a marcação base é diferente, ainda que soem tão nostálgicos… Outra semelhança – ou coincidência – é que o trio de guitarras gardeliano e a base de formação do fado são iguais e característicos, salvo pela guitarra portuguesa, de 12 cordas, que é o símbolo instrumental do fado. Mas ainda há muito que descobrir sobre essa relação entre fado e tango, e a isso estamos nos dedicando.

 

Mañana zarpa un barco (2008)

IB: Em seu último álbum, “Mañana zarpa un barco”, assim como no show do clube La Trastienda a imagem do porto é bastante significativa. Que sentidos essa metáfora portuária imprime nesta combinação que mescla tango, fado e outros ritmos que você promove?

KB: Agora, 18 de fevereiro, em La Trastienda (Buenos Aires), com Los primos Gabino estrearemos um novo show com tango, fado e outros “portos” que se vinculam às suas origens, com a imagem de que todas as águas desembocam em uma mesma água. Há um DNA nas músicas de porto, como se o vínculo entre elas fosse imperceptível… Como em Cabo Verde ou Brasil que tem o carnaval em comum. E Lenine, Chico Buarque, que fizeram uma homenagem ao fado várias vezes. Faremos o fado tropical, por exemplo. A mistura que promovemos é natural em nós, porque nascemos em um lugar onde os rostos que vemos são uma combinação de diferentes raças e cores. Sabendo de onde viemos, investigando as raízes musicais, saberemos onde estamos para voltar a ter nossa própria identidade.

CHICO COUGO: Pertences a uma nova geração do tango. Como vês o movimento que busca dar uma nova face ao ritmo? Que importância o retorno das guitarras como fundamento do tango tem neste processo?

KB: Sempre gostei das guitarras porque, como contei antes, meu pai tocava canções com guitarra e eu cantava. Elas me são familiares e, além disso, para uma dama fica melhor, dá uma contenção especial estar rodeada por um trio de guitarras. Da mesma forma, os sons que incorporamos se rompem com o tradicional, ainda que sejam igualmente portuários. Mas agora também teremos violinos, acordeom e percussão, que sempre aparecem em algum momento de meus discos.

IB: Você poderia comparar a recepção do tango em Portugal (ou na Europa como um todo) com a recepção do fado na Argentina? Quais são as semelhanças e as diferenças entre os dois cenários?

KB: Não sei como está o fado ultimamente na Europa, porque faz dois anos que não viajo e tenho trabalho por aqui. Porém, seguramente, o gênero se difunde e é conhecido muito mais que por aqui, já que Portugal faz parte daquele continente e, por fazer parte da Comunidade Européia, tudo se globaliza mais; é natural que seja assim. No entanto, na Argentina, recém agora se está começando a conhecer mais do fado, até porque, há algum tempo já, uma ou duas vezes por ano algum fadista apresenta-se no país. Contudo, as pessoas que prestigiam são principalmente da elite cultural ou fãs de sempre do fado, como eu. Aqui, quase ninguém sabe o que é o fado. A comunidade portuguesa na Argentina está começando a ter um impulso maior através das novas gerações, mas ficou por muito tempo retraída nos espaços onde se assentou. Agora a situação está se modificando. O tango já é diferente, por que a dança é mundialmente famosa. Entretanto, não se pode comparar: a dança e a música ao vivo são duas coisas diferentes. Em Portugal, há anos existem milongas, organizadas por argentinos que viajam pelo mundo e vivem em outros países. Um dançarino de tango tem mais oportunidades no exterior do que aqui, ao contrário do cantor.

IB: Qual é a contribuição dos Primos Gabino para esta fusão entre o tango e o fado que interpretas?

KB: Permita-me dizer que não é uma fusão. Tratamos de dar espaço para cada gênero à medida que o interpretamos; apenas damos um novo olhar a eles e os Primos Gabino fazem uma sonoridade que não é exatamente tradicional para nenhum dos dois gêneros, característica que é muito importante para expressar um som parelho, sustentando muito bem minha interpretação. Somos uma equipe de trabalho. Trabalhamos desde a idéia e o repertório; a partir disto fazemos logo os arranjos, levando em conta também minha intuição ou necessidade interpretativa.

 

Caprichosa (2003)

CC: No ano de 2003, você gravou o fado “Caprichosa”, de autoria do uruguaio Froilán Aguilar (irmão de José María Aguilar, conhecido guitarrista). Esta canção foi primeiramente cantada por Gardel, em 1930. Desde então, ela figura no hall de êxitos secundários do Morocho. De onde veio a idéia de resgatar este tema?

KB: Caprichosa tem uma história muito linda. Um fã que sempre ouvia a canção como clássica e moderna me enviou por correio, do sul da Patagônia. Ele me disse “- Se cantas fado tens que cantar o fado que cantava Gardel!”. Escutei o tema e a reinterpretamos, fazendo uma releitura mais feminina e atual. Agora é um de meus carros-chefe, um hit! (risos). De fato, a canção me encantou tanto que o meu primeiro disco levou o nome desta música, até porque era simpático para me definir (risos).

CC: Como te sentes aproximando tua obra dos dois maiores símbolos do tango e do fado, Carlos Gardel e Amália Rodrigues?

KB: Sinto-me em comunicação com eles, totalmente conectada. Às vezes sinto emoção ao ensaiar em minha casa, ou ao redescobrir suas canções. Daí desperto um dia pensando em um clássico deles, o ponho a tocar e me arrepio, concluindo que devo cantá-lo – e logo comprovamos que estou certa! Assim é o meu repertório e assim escolhi tudo o que vão escutar em La Trastienda e no próximo disco, tudo muito intuitivo.

CC: Em teu segundo disco há algumas canções interpretadas em português. Que tamanho tem o desafio de cantar em outra língua?

KB: É muito difícil, porque o português de Portugal não tem nada que ver ao vizinho do Brasil. Custa-me. Digo sempre: desculpe meu português. Terei que viver um tempo por aí para ver se me impregna a língua!

CC: Quais são teus novos projetos? Tens planos de vir ao Brasil?

KB: Por enquanto, tenho os shows em La Trastienda e estou gravando um disco em estúdio. Depois, faremos uma homenagem à Revolução dos Cravos de Portugal em abril, no Teatro Alvear. E na segunda metade do ano, o Fado-Tango Club, no CAFF (Club Atlético Fernandez Fierro), ciclo que cumprirá três anos! Depois, Deus dirá… Oxalá viajemos ao Brasil. Estamos esperando um convite de algum contato. Estamos abertos a visitá-los com todo gosto! São vizinhos, irmãos… Tomara que seja em breve!

RODRIGO NASSIF (FRONTEIRA)

Créditos: Tadeu Vilani

Em dezembro passado, a Revista Bravo indicou como um dos principais lançamentos discográficos no Brasil, o segundo álbum do violonista gaúcho Rodrigo Nassif. Na nota, consta o seguinte texto: “Influenciado por nomes como Astor Piazzolla e Vitor Ramil, o compositor gaúcho faz um excelente trabalho com base na música regional. Destaque para a faixa-título“.

Apesar de certamente se inspirar naqueles dois compositores citados pela revista, neste segundo disco o violonista mostra que não tem a intenção de limitar sua musicalidade como apenas uma nova versão destas grandes influências, mas deixa evidente uma marca pessoal nítida nas composições e na interpretação de seu repertório. Com isto, quero dizer que escutando os dois álbuns lançados por Nassif (o anterior homônimo e este Fronteira), percebemos facilmente e de forma prazerosa o desenvolvimento e consolidação de uma identidade musical própria do artista.

Outro aspecto importante, que podemos analisar a partir do comentário da Bravo, é que realmente as composições de Rodrigo Nassif têm base na música regional. Contudo, este embasamento soa mais como uma referência quase inevitável e não como um “projeto” artístico. Ou seja, não é uma música instrumental regionalista, pois dialoga com outras referências para se tornar universal. E nesse sentido, a própria palavra Fronteira expressa essa característica.

Assim como é evidente nos estudos históricos e culturais, as fronteiras são espaços de troca e não de cristalizações identitárias. Assim, o regional que se abre e se transforma a partir do intercâmbio de referências é uma boa metáfora para representarmos (ainda que não na sua totalidade) essa segunda criação discográfica de Rodrigo Nassif.

Lançado em 2010, Fronteira foi gravado no estúdio Café com Leite e mixado e masterizado por Evandro Lazzarotto. A imagem da capa Açude e Lua é obra do fotógrafo Luiz Carlos Felizardo. Abaixo, vocês podem conferir os temas Todas as coisas não ditas aquela noite (com uma sonoplastia muito interessante acompanhando o violão) e Fronteira. E, é claro, visitem o MySpace de Rodrigo Nassif para apreciar outras composições do artista.

Saudações musicais!

 

CONVERSA ESPARSA COM LIGIANA

Em 2009, a cantora, compositora e musicóloga Ligiana lançou seu álbum de estréia intitulado De Amor e Mar. Ano passado, escrevi um singelo comentário sobre o disco aqui no blog, que nem de longe aproxima o leitor da qualidade e da beleza daquele trabalho.

Créditos: Sébastien Dolidon

O repertório do disco de Ligiana é um dos que mais ressoa nos meus ouvidos nos últimos dois anos, pois a qualidade e refinamento das escolhas feitas pela artista, somada à sua voz forte e doce, fazem das canções obras de arte a serem apreciadas cotidianamente.

Em De Amor e Mar, que conta com excelentes participações especiais (como Philippe Baden Powell e Hamilton de Holanda), Ligiana interpreta canções de sua autoria (como Onda) e “clássicos desconhecidos” do cancioneiro brasileiro (como Consideração, de Cartola e Heitor dos Prazeres), entre músicas já consagradas, como Eu quero é botar meu bloco na rua (Sérgio Sampaio).

Nascida em Brasília e agora radicada em São Paulo, a artista estudou na universidade de sua cidade natal e também na Itália, Holanda e França, onde desenvolveu seus estudos sobre música barroca e concluiu seu doutorado.

Nesta entrevista, concedida gentilmente por Ligiana, com exclusividade para o Música Esparsa, a artista conta um pouco sobre sua trajetória, seu álbum de estréia, seus novos projetos e seu trabalho no Centro de Referência da Diversidade, abordado pela Revista Trip dias atrás.

Assim, aproveitem esta Conversa Esparsa (a primeira deste ano) para conhecerem um pouco mais sobre essa ótima artista e apreciar o que há de melhor na música brasileira mais recente. Vocês podem também acessar o MySpace da cantora aqui. E, para finalizar, fica aqui um apelo para produtores e donos de casas de espetáculo do Rio Grande do Sul: brindem-nos com um show de Ligiana!

Saudações musicais!

De Amor e Mar (2009)

1) No teu álbum de estréia, a base da sonoridade foi formatada a partir do samba. Teus interesses ainda continuam voltados para esse estilo ou estás se aventurando em outros ritmos e influências?

O samba é uma das  matrizes da nossa música, é algo de muito fundamental e foi por este caráter, por ser iniciático e por mexer com meu coração de forma direta, que comecei a cantar música popular a partir do samba. Por isso fui atrás de aprender um pouco desse universo e gravei um disco que “flerta” com ele. Mas minha criação atual tem sido mais livre, mais aberta para o mundo e para os tempos, o próximo disco deve ser por esse lado (esses lados, aliás).

2) Como foi a recepção do teu disco “De Amor e Mar” no Brasil e no exterior? Tem alguma previsão do show deste álbum ser apresentado no Rio Grande do Sul?

Foi muito interessante! Eu não vivia no Brasil há nove anos e não tinha ninguém que conhecesse a minha música por aqui, assim que voltei lancei o disco e fiquei feliz com a forma como foi recebido. Claro que nada é fácil, começar algo artístico é difícil em qualquer lugar do mundo, é duro e é batalha constante… mas gosto disso.

No caso do exterior nem sei dizer muito porque este disco ainda não foi verdadeiramente lançado fora do Brasil, fiz alguns shows pela Europa e África mas o disco não saiu por lá, apesar disso alguns jornais e revistas escreveram sobre ele, em alguns casos porque haviam acompanhado o iniciozinho do meu trabalho de cantora na França.

Ainda não tenho show previsto para o Sul, espero que seja em breve, brevíssimo!

3)  Tu pretendes investir mais no trabalho de compositora ou em futuras produções ainda deve predominar principalmente tua faceta de intérprete?

Tenho composto bastante e quero muito gravar algumas dessas coisas, acho que o próximo disco vai ser quase todo de composições minhas. Mas gosto muito também de interpretar, de ser a leitora de um poema, de uma idéia, isso é um privilégio enorme.

4) Na releitura feita no teu álbum de estréia da canção “Se” (Tom Zé) há um diálogo com o tango a partir da música “Malena” (Lucio Demare e Homero Manzi). Essa relação entre samba e tango foi apenas ocasional ou tu apostas na existência de uma afinidade entre estes estilos musicais?

Foi uma brincadeira meio irônica/meio dramática mas que abriu portas para pensar e criar. Eu ouço muito tango, especialmente uma cantora chamada Adriana Varela, é um universo que adoro, me reconheço nele. Experiências de misturar tango e Brasil já são feitas há muito tempo e em várias esferas (Nazareth que o diga!), acho que é riquíssima, assim como outros cruzamentos possíveis de sonoridades de longe ou de tempos passados… [Escutem abaixo a versão de Se, por Ligiana.]

5) A formação que tu tens em canto lírico e as pesquisas que fizeste em música barroca e ópera italiana contribuem de alguma forma para o teu trabalho como intérprete de música popular?

Acho que tudo que a gente estuda, lê, vê e sente influencia no jeito de fazer arte, de pensar no mundo, nas coisas. No meu caso, pela minha caminhada, acabei realmente conhecendo muita coisa antiga, erudita e rara…então é claro que essa poética faz parte de mim, e cada vez mais isso me interessa: unir em mim essas referências, esses mundos e transmitir algo de forte e amoroso.

6) Alguma outra expressão artística (como filmes, livros, entre outros) te inspira de alguma forma na tua produção artística na música?

Todas essas que você citou e mais a vida, as pessoas, os dramas diários (planetários e pessoais). Tento observar o mundo com olhos de magia e isso vai me dando aberturas para letras, idéias e conceitos. E claro, ver um Antonioni, um Glauber, ler um Borges, Pessoa ou um Dante é uma forma de celebrar a vida e abrir as possibilidades de visões e sensibilidades.

7) Você já se relacionou com a música através da pesquisa acadêmica e da profissionalização artística como intérprete e compositora. Quais seriam as semelhanças e diferenças nestas duas áreas entre a Europa e o Brasil?

A academia é academia em qualquer lugar do mundo, carrega seu charme, sua faísca da curiosidade e seu tédio… em qualquer lugar. Por eu ter estudado um tema ligado à Europa (minha tese de doutorado é sobre ópera barroca veneziana) me senti privilegiada em poder estudar isso no lugar de origem, com professores que vivem deste repertório e destes pensamentos, e tendo acesso às grandes bibliotecas, aos manuscritos, aos livros antigos.

Estudei também em um conservatório clássico europeu (na Holanda, em Haia) e vivi um pouco da rígida e maravilhosa formação que eles proporcionavam. Realmente eles têm grandes mestres e a sorte de terem acesso a coisas raras e muito ricas, mas os grandes talentos que vi nascer ali eram quase todos de países pobres, eram pessoas que agarravam com unhas e dentes a possibilidade de estar ali, que faziam faxina de noite para se sustentar e que de dia tocavam e cantavam com alma e coração. Então o que me parece é que realmente uma formação de qualidade é tudo para um artista, mas se ele não tem por quê chorar, por quê rir, por quê sonhar, não vale muito e não toca realmente os outros.

8 ) Theodor Adorno, referência quando pensamos sobre arte e cultura, afirmou o seguinte: “Na era da opressão social universal, apenas nos traços do humilhado e esmagado indivíduo vive a imagem da liberdade contra a sociedade. […] Concretamente, a liberdade se dá nas formas cambiantes da repressão: na resistência contra elas. Tanta liberdade da vontade havia quantas eram as pessoas que queriam libertar-se”. A tensão entre catarse e resistência na arte ainda é um dilema para pesquisadores e artistas. Pensando no trabalho ao qual te dedicas no Centro de Referência da Diversidade, tu acreditas no papel da música como um meio de exercitar a liberdade e superar ou amenizar as opressões sociais e os preconceitos culturais?

Acredito muito! Meu trabalho ali dentro se baseia no amor e na crença que tenho de que as artes podem ser um caminho em direção à dignidade e justiça social. Não espero que ninguém ali vire artista (se isto acontecer será, é claro, maravilhoso), mas torço e sonho que estas pessoas sejam acolhidas pela sociedade, que batalhem pela própria história e dignidade e que a música seja um dos instrumentos para esta transformação. Tento aproximar meus alunos de um universo que, a principio, é reservado às elites, que é negado a eles. É um primeiro passo para uma integração em vários níveis: social, espiritual, artístico. [Confira abaixo a reportagem da Revista Trip sobre o assunto.]

9) Quais são teus novos projetos musicais? Há previsão de um novo disco?

Tenho um novo disco na cabeça, quase todo pronto e à espera de uma possibilidade para vir ao mundo. Fora isso, estou cantando e fazendo shows e encontros musicais importantes para mim. Estou também traduzindo as cartas de Claudio Monteverdi, que devem sair em breve pela mesma editora que lançou minha tradução do “Teatro à Moda” do Benedetto Marcello. É um trabalho que tem me tocado muito, estou acompanhando os passos de um grande homem, de um dos maiores criadores musicais que conheço e observando esta figura que é o pai do barroco.

10)  Deixe um recado para os leitores do Música Esparsa.

Que a música seja sempre maior que nós mesmos, que ela seja grande, universal e esparsa!

[Abaixo um trecho do excelente programa Ensaio (do Fernando Faro da TV Cultura), com Ligiana]

 

DISCOGRAFIA ESPARSA (CANTOS DA PALAVRA)

Se fosse pra tentar falar do estilo da nova moçada
Do samba-reggae-funk-mangue-beat-pop-timbalada
E de outras tantas praias por aí que não estão no mapa
Pois é, silêncio é ouro e por isso fala só é prata
(Cantos da Palavra)

Dando continuidade à seção que comenta álbuns raros, esgotados ou com uma particularidade interessante (que começou com uma coletânea sobre o sambista Sinhô), hoje escrevo sobre o disco Cantos da Palavra, lançado em 1998 por Marcelo Sandmann e Benito Rodriguez.

Em 2009, o poeta, músico e professor de literatura Marcelo Sandmann inaugurou a seção de entrevistas deste blog, a Conversa Esparsa. Em uma das respostas, Marcelo falou sobre a parceria com Benito Rodriguez neste álbum: “Aprimorei-me como letrista nesse trabalho de parceria com ele. No Cantos da Palavra, com algumas exceções, a parte musical em geral é minha. Muitas letras são só do Benito. Algumas escrevemos juntos, por vezes ajustando a música ao texto quando isso se impunha”.

Essa parceria entre Sandmann e Rodriguez rendeu um excelente conjunto de canções que exploram as pontencialidades da relação entre palavra e música. No entanto, não são quaisquer palavras ou músicas, mas letras e arranjos de extrema sensibilidade e criatividade.

No caso das primeiras, as temáticas são bastante diversificadas: relacionamentos amorosos e suas vicissitudes, internet, metalinguagem do samba e até mesmo uma afiada refelxão sobre “o fim da história”. Já as melodias formam um conjunto eclético e desafiador ao ouvinte, com sonoplastias supreendentes e uma sonoridade que envolve ora pela sua animação ora pelas suas sutilezas.

Cantos da Palavra ainda aprimora-se com a colaboração do produtor Paulo Brandão, da intérprete Silvia Contursi e de um conjunto de participações especiais de alto nível, como o nome de Antonio Saraiva deixa explícito. O álbum é uma bela obra de arte da música popular brasileira contemporânea e um dos representantes da cena poética e musical riquíssima de Curitiba que, na maioria das vezes, não tem a atenção necessária de público e crítica.

Vocês podem conferir abaixo, queridos leitores/ouvintes, as músicas Louco (na voz de Marcelo Sandmann) e Cantos da Palavra (com Silvia Contursi e Luciana Martins nos vocais), que faz um belo passeio pelos nomes consagrados da música nacional. Mas não todos, obviamente, já que como diz a própria letra: “Um samba que incluísse todo mundo nunca se acabava/ Os nomes que eu não disse vão nos cantos da palavra“).

Saudações musicais!

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