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Música Esparsa

CONVERSA ESPARSA COM LIGIANA

Em 2009, a cantora, compositora e musicóloga Ligiana lançou seu álbum de estréia intitulado De Amor e Mar. Ano passado, escrevi um singelo comentário sobre o disco aqui no blog, que nem de longe aproxima o leitor da qualidade e da beleza daquele trabalho.

Créditos: Sébastien Dolidon

O repertório do disco de Ligiana é um dos que mais ressoa nos meus ouvidos nos últimos dois anos, pois a qualidade e refinamento das escolhas feitas pela artista, somada à sua voz forte e doce, fazem das canções obras de arte a serem apreciadas cotidianamente.

Em De Amor e Mar, que conta com excelentes participações especiais (como Philippe Baden Powell e Hamilton de Holanda), Ligiana interpreta canções de sua autoria (como Onda) e “clássicos desconhecidos” do cancioneiro brasileiro (como Consideração, de Cartola e Heitor dos Prazeres), entre músicas já consagradas, como Eu quero é botar meu bloco na rua (Sérgio Sampaio).

Nascida em Brasília e agora radicada em São Paulo, a artista estudou na universidade de sua cidade natal e também na Itália, Holanda e França, onde desenvolveu seus estudos sobre música barroca e concluiu seu doutorado.

Nesta entrevista, concedida gentilmente por Ligiana, com exclusividade para o Música Esparsa, a artista conta um pouco sobre sua trajetória, seu álbum de estréia, seus novos projetos e seu trabalho no Centro de Referência da Diversidade, abordado pela Revista Trip dias atrás.

Assim, aproveitem esta Conversa Esparsa (a primeira deste ano) para conhecerem um pouco mais sobre essa ótima artista e apreciar o que há de melhor na música brasileira mais recente. Vocês podem também acessar o MySpace da cantora aqui. E, para finalizar, fica aqui um apelo para produtores e donos de casas de espetáculo do Rio Grande do Sul: brindem-nos com um show de Ligiana!

Saudações musicais!

De Amor e Mar (2009)

1) No teu álbum de estréia, a base da sonoridade foi formatada a partir do samba. Teus interesses ainda continuam voltados para esse estilo ou estás se aventurando em outros ritmos e influências?

O samba é uma das  matrizes da nossa música, é algo de muito fundamental e foi por este caráter, por ser iniciático e por mexer com meu coração de forma direta, que comecei a cantar música popular a partir do samba. Por isso fui atrás de aprender um pouco desse universo e gravei um disco que “flerta” com ele. Mas minha criação atual tem sido mais livre, mais aberta para o mundo e para os tempos, o próximo disco deve ser por esse lado (esses lados, aliás).

2) Como foi a recepção do teu disco “De Amor e Mar” no Brasil e no exterior? Tem alguma previsão do show deste álbum ser apresentado no Rio Grande do Sul?

Foi muito interessante! Eu não vivia no Brasil há nove anos e não tinha ninguém que conhecesse a minha música por aqui, assim que voltei lancei o disco e fiquei feliz com a forma como foi recebido. Claro que nada é fácil, começar algo artístico é difícil em qualquer lugar do mundo, é duro e é batalha constante… mas gosto disso.

No caso do exterior nem sei dizer muito porque este disco ainda não foi verdadeiramente lançado fora do Brasil, fiz alguns shows pela Europa e África mas o disco não saiu por lá, apesar disso alguns jornais e revistas escreveram sobre ele, em alguns casos porque haviam acompanhado o iniciozinho do meu trabalho de cantora na França.

Ainda não tenho show previsto para o Sul, espero que seja em breve, brevíssimo!

3)  Tu pretendes investir mais no trabalho de compositora ou em futuras produções ainda deve predominar principalmente tua faceta de intérprete?

Tenho composto bastante e quero muito gravar algumas dessas coisas, acho que o próximo disco vai ser quase todo de composições minhas. Mas gosto muito também de interpretar, de ser a leitora de um poema, de uma idéia, isso é um privilégio enorme.

4) Na releitura feita no teu álbum de estréia da canção “Se” (Tom Zé) há um diálogo com o tango a partir da música “Malena” (Lucio Demare e Homero Manzi). Essa relação entre samba e tango foi apenas ocasional ou tu apostas na existência de uma afinidade entre estes estilos musicais?

Foi uma brincadeira meio irônica/meio dramática mas que abriu portas para pensar e criar. Eu ouço muito tango, especialmente uma cantora chamada Adriana Varela, é um universo que adoro, me reconheço nele. Experiências de misturar tango e Brasil já são feitas há muito tempo e em várias esferas (Nazareth que o diga!), acho que é riquíssima, assim como outros cruzamentos possíveis de sonoridades de longe ou de tempos passados… [Escutem abaixo a versão de Se, por Ligiana.]

5) A formação que tu tens em canto lírico e as pesquisas que fizeste em música barroca e ópera italiana contribuem de alguma forma para o teu trabalho como intérprete de música popular?

Acho que tudo que a gente estuda, lê, vê e sente influencia no jeito de fazer arte, de pensar no mundo, nas coisas. No meu caso, pela minha caminhada, acabei realmente conhecendo muita coisa antiga, erudita e rara…então é claro que essa poética faz parte de mim, e cada vez mais isso me interessa: unir em mim essas referências, esses mundos e transmitir algo de forte e amoroso.

6) Alguma outra expressão artística (como filmes, livros, entre outros) te inspira de alguma forma na tua produção artística na música?

Todas essas que você citou e mais a vida, as pessoas, os dramas diários (planetários e pessoais). Tento observar o mundo com olhos de magia e isso vai me dando aberturas para letras, idéias e conceitos. E claro, ver um Antonioni, um Glauber, ler um Borges, Pessoa ou um Dante é uma forma de celebrar a vida e abrir as possibilidades de visões e sensibilidades.

7) Você já se relacionou com a música através da pesquisa acadêmica e da profissionalização artística como intérprete e compositora. Quais seriam as semelhanças e diferenças nestas duas áreas entre a Europa e o Brasil?

A academia é academia em qualquer lugar do mundo, carrega seu charme, sua faísca da curiosidade e seu tédio… em qualquer lugar. Por eu ter estudado um tema ligado à Europa (minha tese de doutorado é sobre ópera barroca veneziana) me senti privilegiada em poder estudar isso no lugar de origem, com professores que vivem deste repertório e destes pensamentos, e tendo acesso às grandes bibliotecas, aos manuscritos, aos livros antigos.

Estudei também em um conservatório clássico europeu (na Holanda, em Haia) e vivi um pouco da rígida e maravilhosa formação que eles proporcionavam. Realmente eles têm grandes mestres e a sorte de terem acesso a coisas raras e muito ricas, mas os grandes talentos que vi nascer ali eram quase todos de países pobres, eram pessoas que agarravam com unhas e dentes a possibilidade de estar ali, que faziam faxina de noite para se sustentar e que de dia tocavam e cantavam com alma e coração. Então o que me parece é que realmente uma formação de qualidade é tudo para um artista, mas se ele não tem por quê chorar, por quê rir, por quê sonhar, não vale muito e não toca realmente os outros.

8 ) Theodor Adorno, referência quando pensamos sobre arte e cultura, afirmou o seguinte: “Na era da opressão social universal, apenas nos traços do humilhado e esmagado indivíduo vive a imagem da liberdade contra a sociedade. […] Concretamente, a liberdade se dá nas formas cambiantes da repressão: na resistência contra elas. Tanta liberdade da vontade havia quantas eram as pessoas que queriam libertar-se”. A tensão entre catarse e resistência na arte ainda é um dilema para pesquisadores e artistas. Pensando no trabalho ao qual te dedicas no Centro de Referência da Diversidade, tu acreditas no papel da música como um meio de exercitar a liberdade e superar ou amenizar as opressões sociais e os preconceitos culturais?

Acredito muito! Meu trabalho ali dentro se baseia no amor e na crença que tenho de que as artes podem ser um caminho em direção à dignidade e justiça social. Não espero que ninguém ali vire artista (se isto acontecer será, é claro, maravilhoso), mas torço e sonho que estas pessoas sejam acolhidas pela sociedade, que batalhem pela própria história e dignidade e que a música seja um dos instrumentos para esta transformação. Tento aproximar meus alunos de um universo que, a principio, é reservado às elites, que é negado a eles. É um primeiro passo para uma integração em vários níveis: social, espiritual, artístico. [Confira abaixo a reportagem da Revista Trip sobre o assunto.]

9) Quais são teus novos projetos musicais? Há previsão de um novo disco?

Tenho um novo disco na cabeça, quase todo pronto e à espera de uma possibilidade para vir ao mundo. Fora isso, estou cantando e fazendo shows e encontros musicais importantes para mim. Estou também traduzindo as cartas de Claudio Monteverdi, que devem sair em breve pela mesma editora que lançou minha tradução do “Teatro à Moda” do Benedetto Marcello. É um trabalho que tem me tocado muito, estou acompanhando os passos de um grande homem, de um dos maiores criadores musicais que conheço e observando esta figura que é o pai do barroco.

10)  Deixe um recado para os leitores do Música Esparsa.

Que a música seja sempre maior que nós mesmos, que ela seja grande, universal e esparsa!

[Abaixo um trecho do excelente programa Ensaio (do Fernando Faro da TV Cultura), com Ligiana]

 

DISCOGRAFIA ESPARSA (CANTOS DA PALAVRA)

Se fosse pra tentar falar do estilo da nova moçada
Do samba-reggae-funk-mangue-beat-pop-timbalada
E de outras tantas praias por aí que não estão no mapa
Pois é, silêncio é ouro e por isso fala só é prata
(Cantos da Palavra)

Dando continuidade à seção que comenta álbuns raros, esgotados ou com uma particularidade interessante (que começou com uma coletânea sobre o sambista Sinhô), hoje escrevo sobre o disco Cantos da Palavra, lançado em 1998 por Marcelo Sandmann e Benito Rodriguez.

Em 2009, o poeta, músico e professor de literatura Marcelo Sandmann inaugurou a seção de entrevistas deste blog, a Conversa Esparsa. Em uma das respostas, Marcelo falou sobre a parceria com Benito Rodriguez neste álbum: “Aprimorei-me como letrista nesse trabalho de parceria com ele. No Cantos da Palavra, com algumas exceções, a parte musical em geral é minha. Muitas letras são só do Benito. Algumas escrevemos juntos, por vezes ajustando a música ao texto quando isso se impunha”.

Essa parceria entre Sandmann e Rodriguez rendeu um excelente conjunto de canções que exploram as pontencialidades da relação entre palavra e música. No entanto, não são quaisquer palavras ou músicas, mas letras e arranjos de extrema sensibilidade e criatividade.

No caso das primeiras, as temáticas são bastante diversificadas: relacionamentos amorosos e suas vicissitudes, internet, metalinguagem do samba e até mesmo uma afiada refelxão sobre “o fim da história”. Já as melodias formam um conjunto eclético e desafiador ao ouvinte, com sonoplastias supreendentes e uma sonoridade que envolve ora pela sua animação ora pelas suas sutilezas.

Cantos da Palavra ainda aprimora-se com a colaboração do produtor Paulo Brandão, da intérprete Silvia Contursi e de um conjunto de participações especiais de alto nível, como o nome de Antonio Saraiva deixa explícito. O álbum é uma bela obra de arte da música popular brasileira contemporânea e um dos representantes da cena poética e musical riquíssima de Curitiba que, na maioria das vezes, não tem a atenção necessária de público e crítica.

Vocês podem conferir abaixo, queridos leitores/ouvintes, as músicas Louco (na voz de Marcelo Sandmann) e Cantos da Palavra (com Silvia Contursi e Luciana Martins nos vocais), que faz um belo passeio pelos nomes consagrados da música nacional. Mas não todos, obviamente, já que como diz a própria letra: “Um samba que incluísse todo mundo nunca se acabava/ Os nomes que eu não disse vão nos cantos da palavra“).

Saudações musicais!

JABU MORALES

A mesma flor que você plantou, você deixou secar
e o tédio da rotina, dos dias sem tentar
fez do nosso amor história, pra viver no seu altar

(Jabu Morales – De olhos bem fechados)

No ano passado, a cantora, compositora e percussionista mineira Jabu Morales lançou seu primeiro álbum solo, intitulado jabu. Na primeira audição que fiz das canções do disco me chamou a atenção uma característica muito importante: a forma com que diversos ritmos musicais eram apresentados com coesão e naturalidade inéditas para minha experiência como ouvinte.

Explicando melhor: mesmo com a diversidade de influências rítmicas e de sonoridade nas músicas de jabu, a maneira como acontece a mistura e a transição entre os estilos soa tão agradável que faz parecer que o mosaico formado por eles não foi formatado, mas originou-se de uma troca mística ou metafísica entre as múltiplas sonoridades.

No entanto, conhecendo um pouco da trajetória da artista, podemos perceber que é mesmo de seus vínculos culturais e de sua sensibilidade  artística que aflora esse mosaico belíssimo do disco. Nascida em Belo Horizonte, Morales teve seus primeiros contatos com a música através da capoeira e aprofundou seus conhecimentos sobre a música popular e o folclore brasileiro a partir de viagens e participações em coletivos culturais, como o Gonguê. Decisivo em sua trajetória foi o contato com o Maracatu de Baque Virado e a experiência no Baque Trovão das Minas. Essas influências foram tão fortes que, atualmente, Jabu dirige o Grupo Maracatu Mandacaru e integra o projeto Tambor de Saia, ambos em Barcelona.

Assim, não é por acaso que essa artista enraizada na pesquisa, no ensino  e na expressão da cultura popular brasileira e de diversas manifestações folclóricas conseguiu mesclar forró, salsa, maracatu, samba e afrobeat de maneira tão descontraída e refinada. Além disso, o álbum (cuja capa é baseada numa pintura lindíssima da artista plástica Eliza Marx) foi dirigido e coproduzido por Mauricio Ribeiro) e teve ótimas participações especiais, como Lenis Rino, Mateus Bahiense, Aline Morales, Rafael Macedo, Analu, Rafael Leite, Daniela Ramos e o incrível Sérgio Pererê.

Abaixo, confiram Gastrotema e De olhos bem fechados, duas canções espetaculares do álbum que mostram o ritmo envolvente e a brasilidade sofisticada da música de Jabu Morales, com sua voz  doce e límpida. Além disso, acessem o site e o MySpace da artista para mais informações.

Saudações musicais!

2 ANOS DE MÚSICA ESPARSA

Hoje, sábado dia 29 de janeiro de 2011, este humilde blog completa dois anos de existência virtual. No primeiro aniversário, constatei como a criação deste espaço foi importante para mim e, passados mais 365 dias desde então, o sentimento continua o mesmo.

Neste segundo ano (de 2010 a 2011), as atualizações foram em pequeno número, comparadas àquelas de 2009. No entanto, essa situação não teve nada a ver com falta de interesse ou motivação, mas sim com novos compromissos profissionais e, admito, certa falta de organização.

Por isso, muitos álbuns e artistas que prometi e queria abordar aqui no Música Esparsa em 2010 acabaram não aparecendo, o que me deixou bastante chateado.

É imensamente necessário, por isso, agradecer aos leitores que continuaram acompanhando o blog (que mais do que dobrou o número de visitantes) apesar do ritmo fraco de postagens e também àqueles novos leitores, que sempre fortalecem meu compromisso com estas palavras divulgadas aqui.

Mas agora é hora de colocar a casa em ordem e recuperar o tempo perdido:  a partir de hoje o blog terá um ritmo mais intenso de atualizações e diversas mudanças. Entre elas, adianto apenas duas: a criação das seções Making of (que apenas foi anunciada ano passado) e Música para pensar, dedicadas, respectivamente, a acompanhar o processo de produção artística de um músico (seja de uma canção, show ou álbum) e a provocar reflexões e debates sobre determinados temas do mundo musical em geral.

Encerro essa postagem homenageando o incrível pianista gaúcho Geraldo Flach (falecido dia 3 de janeiro) que, de alguma maneira, influenciou a criação do Música Esparsa, já que foi durante um show dele que decidi criar este blog. Nos próximos meses, a trajetória artística de Geraldo será abordada por aqui.

Geraldo, uma saudação musical especial para ti, sentiremos tua falta!

SEMPRETANGO 7: FRACTURA EXPUESTA

El tango no es antigüo, es el presente y el futuro
Es la vida misma, lo que hacemos, lo que decimos
Y muchisimas veces describe lo que fuímos
Para recordar lo que somos

(Chamuyeros)

A dica de hoje da seção tanguera do Música Esparsa não é um artista ou um grupo, mas sim a rádio Fractura Expuesta, que desde 2003 faz uma importante e belíssima divulgação do tango argentino, incluindo aí os principais destaques da cena mais recente deste gênero musical.

A equipe que comanda o AM 530 em Buenos Aires todas as quintas a partir das 22h e 30 min é formada por Germán Marcos e Maximiliano Senkiw (condução, edição artística e produção geral), Hernán Casares (coordenação), Nicolás Esquibel (operação técnica) e Sebastián Linardi (colunista).

No entanto, para quem infelizmente não mora na capital argentina (como eu), basta visitar o sítio eletrônico de Fractura Expuesta, no qual vocês podem, além de ouvir os programas da rádio, conferir ótimos textos sobre intérpretes, compositores e orquestras de tango, notícias e links relevantes, além da indispensável agenda.

Além do excelente trabalho radiofônico, a equipe produz ótimos vídeos das gravações, dos quais deixo dois para vocês assistirem abaixo: o primeiro é do trio Chamuyeros (formado por Jorge “Negro” Latini, Lucas Ferrara e  Maxi Cortez) interpretando Corrientes y  Esmeralda e La abandone y no sabía e o segundo traz Juan Vattuone (ótima dica do Chico Cougo) interpretando Bendito por Dios, um tema inédito em homenagem ao incrível Rubén Juárez.

Portanto, barra querida, escutem Fractura Expuesta que, segundo seus próprios integrantes, seria apreciada até mesmo por Enrique Susini!

Saudações musicais!

LHASA FOREVER

Demorou um pouco, mas agora é oficial: está aberta a temporada 2011 do Música Esparsa. Apesar das mudanças que ocorrerão neste espaço a partir de agora (que serão anunciadas na postagem de aniversário), o primeiro texto deste ano tem o mesmo teor da primeira postagem de 2010: lamentar que já faz um ano que a cantora Lhasa de Sela deixou órfãos seus admiradores.

É claro que esse sentimento de orfandade é consideravelmente diminuído quando escutamos rotineiramente sua obra curta (3 discos), porém intensa, diversificada e (na minha opinião) brilhante. No entanto, ainda não é fácil digerir a idéia de que não teremos mais as fantásticas surpresas trazidas até nós por cada música nova.

No último dia 31 de dezembro, foi lançada uma linda homenagem à artista, uma canção intitulada Snow days for Lhasa, que vocês podem escutar aqui, da autoria de Esmerine e Patrick Watson.

Para quem ainda não conhece a história e a arte desta marvilhosa cantora indico que visitem o site dela e uma postagem que fiz em 2009. E como uma prova da sensibilidade desta artista, confiram abaixo uma bonita e interessante fala dela (baseada em uma história paterna) sobre nascimento e morte e uma interpretação para a canção I’m going in (registrada no álbum Lhasa, de 2009) em um show em Toronto (Canadá), no ano de 2006. Reparem na emoção dela, do público e mesmo na de vocês quando entenderem a letra da canção (que reproduzo abaixo do vídeo).

Saudações musicais!

I’m Going In

When my lifetime had just ended
And my death had just begun
I told you I’d never leave you
But I knew this day would come
Give me blood for my blood wedding
I am ready to be born
I feel new
As if this body were the first I’d ever worn
I need straw for the straw fire
I need hard earth for the plow
Don’t ask me to reconsider
I am ready to go now
I’m going in I’m going in
This is how it starts
I can see in so far
But afterwards we always forget
Who we are
I’m going in I’m going in
I can stand the pain
And the blinding heat
‘Cause I won’t remember you
The next time we meet
You’ll be making the arrangements
You’ll be trying to set me free
Not a moment for the meeting
I’ll be busy as a bee
You’ll be talking to me
But I just won’t understand
I’ll be falling by the wayside
You’ll be holding out your hand
Don’t you tempt me with perfection
I have other things to do
I didn’t burrow this far in
Just to come right back to you
I’m going in I’m going in
I have never been so ugly
I have never been so slow
These prison walls get closer now
The further in I go
I’m going in I’m going in
I like to see you from a distance
And just barely believe
And think that
Even lost and blind
I still invented love
I’m going in
I’m going in
I’m going in

 

GUALITXO

Em novembro de 2009, publiquei aqui no blog uma entrevista com o duo Garufa Tango, formado pelo pianista espanhol Gorka Pastor e o cantor argentino Axel O’Mill. Naquela ocasião, comecei a admirar uma banda da qual Axel (com o pseudônimo de Txe Zelomi) é integrante e também vocalista: a Gualitxo.

Sobre a origem do nome do grupo, vale a pena conferir um trecho da biografia disponível no site da banda:

“Gualitxo, Gualicho o Walichu, para los indios tehuelches de Sudamérica era una especie de espíritu maligno al que se le atribuían todas las desgracias. Los primeros misioneros que llegaban del nuevo mundo lo compararon con el diablo del catolicismo. En la actualidad la palabra gualicho ha adquirido el significado de hechizo o embrujo provocado a través de infusiones, magia negra etc. Lo que se denomina hacer un gualicho o engualichar. Pues el mundo está engualichado hoy en día… Solo que el gualicho ahora es menos mitológico y más egoísta y ambicioso. Las multinacionales deciden el curso de la historia, respaldadas por sus ejércitos y encubiertas por las religiones. La política ha dejado de ser ciencia para transformarse en inconsciencia y los medios de comunicación cumplen la parte de sedante y cortina de humo”.

Formada em Pamplona no ano de 2004, a banda Gualitxo tem dois discos lançados. O primeiro, homônimo, de 2005 traz como principal música a pungente Latinoamerica (confiram abaixo):

Além da importante atitude crítica e política das músicas da Gualitxo, outra marca fundamental é a mistura de sonoridades do grupo, que mescla rock, funk, soul e ska com ritmos latinos, como a cumbia. Outra vez, é siginificativo (e cômico) conferir a descrição da própria banda sobre essa sonoridade:

“Pues se toma dos tazas de ska se agregan 300 gramos de cumbia con unas gotitas de cha cha cha se bate y se agrega el soul y el funky…Se condimenta con Punk y metal a gusto…Se hornea y se adereza con milonga y hip hop para obtener asi una masa de musica Lirico-genital…( lo que nos cantan los cojones)”.

A atual formação da banda é a seguinte: Kiko Terremoto (Bateria) ,Yanpól (Baixo), Mr. Trufa (Guitarra), Iñaki Panoramix (Trompete), Er Tito Poshito (Trombone), Txe Zelomi (Voz e Guitarra acústica) e Jaime e Sérgio Peluso na programação.

O segundo e mais recente álbum foi lançado em 2008 e intitula-se Y sigue el kambalatxe, apropriando-se da temática das malezas do mundo moderno assim como o fez Enrique Discépolo com seu tango Cambalache em 1934. Para exemplificar bem esse aspecto nada melhor do que vocês conferirem a música e a letra de Leche Amarga, uma das composições mais discepolianas dos últimos tempos. Depois disso, vocês ainda podem visitar o site da Gualitxo e baixar o último álbum, dançando ao ritmo de uma afiada crítica à modernidade enfeitiçada pelo consumo e pela mercantilização da vida.

Saudações musicais!

LECHE AMARGA

No te lo creas.
No existe cura para el mal de este planeta.
Todo se vende.
El precio te lo pone siempre una etiqueta.
Y ese martirio que llevas en tu interior
ya te lo mata un aprendiz de Sigmund Freud.
Pagando cara la consulta,
el perdon de quien te indulta,
la idiotez masificada en este rito de terror.

Te la mastican,
te la rebajan, te la venden digerida,
esa mentrira,
que si la dejas te devora tu interior.
Cualquiera es heroe si sale en televisión,
y en esta orgía derrochamos la pasión.
Mientras gozamos como enanos
y de esa teta chupamos
leche amarga que nos quema el corazón.

Y aqui seguimos,
como ingredientes del puchero de unos pocos.
Participamos
en la cocción pero no en la repartición.
Y si reclamas tu bocado te darán,
una paliza por tu bien, ellos dirán,
mientras sonrien en campaña
por detrás te dan castaña
y te clavan su doctrina sin piedad.

Nietos de puta.
Porque al decir solo hijos me quedo corto.
Y en sus bolsillos,
sangre, sudor y lagrimas por capital.
Ellos comandan, tu obedeces y ya está.
Y de las sobras te tienes que alimentar.
Y asi funciona la encerrona
que te aplasta y no perdona.
Si nos ganan que no sea por no luchar.

Por eso grito,
pecando siempre de insistente,
yo no me dejo,
me quedo con toda mi sangre y con mi mente.
Y no me creo esta patraña,
a mi ya facil no me engañan.
La leche amarga de esa teta rancia
ya saben donde guardarla
yo sigo cantando esta canción.
Y lo que dejo en esta tierra
es un grito de insurrección.

BEBETO ALVES EM 3D

2010 não poderia chegar ao fim sem antes eu comentar o mais importante lançamento musical do ano no Brasil: a caixa “Bebeto Alves em 3D”.

Para quem considerar ousada a afirmação anterior, justifico-a com algumas razões: 1) a quantidade do material: não é  qualquer artista (isso só acontece com aqueles que trabalham duro e são bem assessorados) que consegue reunir uma tríade de discos com conteúdos diferentes em um mesmo lançamento; um cd duplo ao vivo, uma coletânea de trilhas sonoras e um cd com canções inéditas gravadas principalmente com voz e violão; 2) a qualidade do material: desde o encarte até às melodias e poesias, o conjunto 3D de Bebeto exala refinamento, cuidado e criatividade, renovando sempre a surpresa agradável de ouvir tanto suas novas composições quanto as releituras de sua carreira; 3) a importância histórica do material: lançamento de caráter inédito no mercado fonográfico nacional, os 3 discos expressam a constante renovação da trajetória artística de Bebeto Alves, que transita com facilidade entre a releitura e a renovação de seu repertório.

Além disso tudo, no trabalho de divulgação deste projeto, circulou um interessante jornal (que vocês podem ler aqui) com entrevistas, depoimentos e comentários de diversos artistas e jornalistas sobre as múltiplas facetas do músico gaúcho.

No disco duplo Bebeto Alves e Os Blackbagual, o repertório é formado por 20 canções que passeiam pela trajetória de 30 anos de carreira do artista. Gravado ao vivo no Teatro de Arena em julho de 2009, em dois shows memoráveis (eu estava lá!), o cd mostra a potencialidade criativa de Bebeto que consegue fazer novas versões que chegam a superar muitas vezes (para o meu gosto) o registro anterior das canções. Álbuns como Bebeto Alves (1981),  Notícia Urgente (1982), Novo País (1985), Pegadas (1987), ... Y la Milonga Nova (2000), Blackbaugalnegovéio (2004) e Devoragem (2008) são representados por duas ou três canções cada um.

Indispensável para a qualidade das canções é a banda formada pelos Blackbagual: Marcelo Corsetti (guitarra), Luke Faro (bateria) e Rodrigo Reinheimer (baixo) que conseguem, ao lado da voz e do violão de Bebeto, extasiar o ouvinte com uma sonoridade rica e empolgante. Participaram também dos shows os grandes músicos Jimi Joe (em Sandina) e Oly Jr. (na sua Milonga Blues). Para um aperitivo do cd, confiram abaixo a belíssima canção Tchau, uma das minhas preferidas:

No disco Cenas, que reúne trilhas sonoras compostas por Bebeto, constam contribuições do artista para cinema, teatro e televisão, entre elas: o espetáculo de luz e sombra A Salamanca do Jarau (da Cia de Teatro Lumbra), o filme Neto Perde A Sua Alma (com trilha de Celau Moreira e direção de Tabajara Ruas e Beto de Souza) e o espetáculo de dança-teatro Deslocamentos, de Renata de Lélis. Abaixo a versão de Boi Barroso (Barbosa Lessa).

E no álbum de inéditas, O Maravilhoso Mundo Perdido, são 15 músicas gravadas basicamente com voz e violão no estúdios da TEC ÁUDIO, em Porto Alegre, que mostram a poesia sempre contemporânea de Bebeto, transitando entre amores, despedidas e histórias urbanas, como na divertida Mar de Gente (escutem abaixo):

Então pessoal, visitem o site do artista aqui e confiram mais detalhes de Bebeto Alves em 3D: lá vocês podem adquirir os discos e saber mais informações sobre um dos mais importantes artistas da nossa música.

Saudações musicais!

PEDRO AZNAR (A SOLAS CON EL MUNDO)

Na minha opinião, o argentino Pedro Aznar é um dos melhores músicos da atualidade. Baixista consagrado desde o final dos anos 1970 como integrante da fantástica banda Serú Girán e convidado em apresentações do Pat Metheny Group, Aznar possui uma carreira de compositor e intérprete invejável e de rara qualidade.

Ano passado, o artista lançou um DVD ao vivo do seu excelente álbum Quebrado (2008), um disco duplo formado por canções próprias e versões inspiradíssimas de gente como Charly García, Sting, Nick Drake, entre outros. Preciosidades como Nocturno Suburbano (no vídeo abaixo) fazem parte do repertório.

Neste ano, expandindo a proposta de espalhar ótimas versões de músicas de artistas consagrados, Pedro lançou o disco A Solas Con El Mundo, que inclui 10 releituras de compositores como Violeta Parra, Joni Mitchell, Cuchi Leguizamón, Andrés Calamaro, entre outros.

Gravado em alta definição, o álbum é formado por canções captadas em 5 shows especiais do artista, que buscaram valorizar um aspecto mais intimista das intepretações.

Para matar a curiosidade, confiram a versão emocionante de While my guitar gently weeps (George Harrison).

Saudações musicais!

 

 

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