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Música Esparsa

RODA MORTA (ou as verdades que não calam)

RODA MORTA

(Sérgio Sampaio)

O triste nisso tudo é tudo isso
Quer dizer, tirando nada, só me resta o compromisso
Com os dentes cariados da alegria
Com o desgosto e a agonia da manada dos normais.

O triste em tudo isso é isso tudo
A sordidez do conteúdo desses dias maquinais
E as máquinas cavando um poço fundo entre os braçais,
eu mesmo e o mundo dos salões coloniais.

Colônias de abutres colunáveis
Gaviões bem sociáveis vomitando entre os cristais
E as cristas desses galos de brinquedo
Cuja covardia e medo dão ao sol um tom lilás.

Eu vejo um mofo verde no meu fraque
E as moscas mortas no conhaque que eu herdei dos ancestrais
E as hordas de demônios quando eu durmo
Infestando o horror noturno dos meu sonhos infernais.

Eu sei que quando acordo eu visto a cara falsa e infame
como a tara do mais vil dentre os mortais
E morro quando adentro o gabinete
Onde o sócio e o alcaguete não me deixam nunca em paz

O triste em tudo isso é que eu sei disso
Eu vivo disso e além disso
Eu quero sempre mais e mais.

ENCONTRO COM O POETA

DSC01760Ontem visitei a pequena mas graciosa Feira do Livro de Cachoeira do Sul, exercitando um pouco da minha parcial solidão entre meus amigos inseparáveis, os livros. Depois do caminho traçado entre as bancas, decidi aproveitar as guloseimas do café montado especialmente para o evento na Casa de Cultura da cidade.

Porém, seria um passeio bem comum caso um senhor de nome Luis Carlos de Arapey não tivesse se aproximado de minha mesa e apresentado seu cartão com a lista de seus livros de poemas já publicados. Poucos minutos depois, a surpresa da abordagem transformou-se em insuspeita afinidade e a conversa passeou de forma empolgante por literatura, religião, política, cinema e música.

E é sobre a parte musical de nossa conversa que quero comentar aqui, indicando algumas raridades mencionadas por Arapey. No primeiro vídeo, um belíssimo tango de Virgilio San Clemente (letra) e Maruja Pacheco Huergo (música), El adiós (1937), na voz de Ignacio Corsini.

Nesta segunda dica, o grande Enrico Caruso interpreta La partida, de Eusebio Blasco Soler, uma clássica canção que tematiza as saudades da terra natal.

Neste terceiro vídeo, Guiomar Novaes,  a fabulosa pianista brasileira que foi aclamada ainda adolescente por Claude Debussy, interpreta Frédéric Chopin:

E, para terminar, é importante destacar uma interpretação de Arapey sobre a dificuldade que a música platina, especialmente aquela melancólica e melodramática, tem de conquistar número expressivo de ouvintes do Rio de Janeiro até o norte/nordeste do país, corroborando a existência  de uma “outra história” musical que acontece pelas plagas do sul da América do Sul. No entanto, existem belíssimas exceções do contato entre a música carioca e a melancolia tanguera. Assim, dedico a Luis Carlos de Arapey, este grande poeta uruguaio que vive há tantos anos no Brasil (acesse seu blog aqui), uma versão fabulosa de As rosas não falam (Cartola) pela voz do cantor franco-argentino Brian Chambouleyron, como singela homenagem à incrível conversa que tivemos ontem em Cachoeira do Sul.

Un fuerte abrazo, poeta!

ANGELO PRIMON: SOM, SENTIMENTO E SENTIDO

Foto: Camila Mazzini

Angelo Primon é um dos melhores instrumentistas que já tive oportunidade de assistir ao vivo. Desde a apresentação de seu álbum Mosaico (2004) em Santa Maria (2007) até as performances recentes com o quarteto Realidade Paralela (ao lado de Marcelo Corsetti, Vanessa Longoni e Luke Faro), a minha admiração pela arte deste instrumentista só aumenta.

Apesar de ter escrito alguns comentários sobre a trajetória do músico ano passado aqui no blog, sempre me pareceu que faltava um espaço a mais no Música Esparsa para a música e as ideias de Primon. Pensando nisso, convidei o violonista para escrever um pouco sobre seu processo de composição e sobre seu trabalho instrumental, tanto sobre o já lançado Mosaico quanto sobre o disco Solar (atualmente em pré-produção).

Para acompanhar mais de perto o trabalho de Angelo, é só acessar o blog do músico e conferir as músicas do álbum Mosaico no site do artista.

Saudações musicais!

1) Como você concebe o processo de composição na música em geral e o seu processo de composição em particular?

Angelo Primon: Compor sempre é um estado de sofrimento para mim. Existem muitas situações pontiagudas quando me coloco nesta situação. Coisas que vão desde a definição do caminho a ser tomado como até mesmo a própria desconfiança, muito pautada pelo meu senso crítico.

Mesmo assim, o que busco atualmente é um diálogo muito claro das idéias musicais independentemente de sua simplicidade, jocosidade ou brejeirice com a forma.

Esta “situação de composição” me coloca invariavelmente em um leque muito grande de opções no tratamento do substrato musical. Este pode vir de uma frase em uma viola de dez cordas ou talvez até mesmo  de experimentações tímbricas no sitar ou na viola de cocho, por exemplo. O fato é que deste caldeirão de possibilidades tímbricas faz-se vir à tona o som, o sentimento e o sentido.

São estes os três pilares do meu “sofrimento”: Som, sentimento e sentido.

Pelo “Som”, leia-se timbre, dinâmica, divisão, frase, encadeamentos harmônicos, etc.

Tudo que possa me movimentar internamente a ponto de me impulsionar de encontro à resolução, construção de algo, apaixonar-me. “Sentimento” é isso!

Após este turbilhão de sensações e sentimentos, existe um processo, ainda que intuitivo, de construção. Aí eu busco o “Sentido”, uma espécie de organização para tudo o que eu quero dizer. Isto não significa que vou colocar tudo em simetria, aliás, tenho me sentido cada vez menos afeito a este tipo de dimensionamento musical, mas sim, uma construção de como esta música se distribuirá no espaço/tempo para que possa ser ouvida.

[Assista abaixo o vídeo da música El Tunge Le, interpretada por Adriana Deffenti e que, a partir dos 3min e 50s mostra Angelo Primon e Marcelo Corsetti “colocando abaixo” o Theatro São Pedro]

2) Como foi o processo de composição e produção do álbum Mosaico (2004)?

AP: O Mosaico foi meu trabalho composicional de estréia, portanto muito cercado de expectativas e por vezes, ansiedades. Eu reuni composições de fases bem iniciais da minha carreira como Chão batido e Dona Helena,  por exemplo, a composições novas como Altos da Glória, Mato e a Quadrilogia Encantada. O que marcou bastante o processo todo do cd foi o fato de que me coloquei como um compositor muito mais do que um instrumentista, pois na época não fazia mais sentido para mim um trabalho instrumental feito diretamente para músicos, acadêmicos ou iniciados em música. Eu queria contar uma estória! Que as pessoas pudessem ouvir e sentir, se emocionar. Esta foi minha pretensão. Tive a certeza da dose certa disso tudo quando em uma situação de estúdio, em plenas gravações, fomos visitados por pessoas e, depois de um tempo, uma destas saiu assoviando uma frase de uma das minhas músicas. Cara, para mim, naquela hora, eu estava me sentindo satisfeito! E tecnicamente, as colocações dos meus instrumentos foram muito mais  para a composição do arranjo do que uma clara e manifesta atitude solista. Foi bastante divertido tudo aquilo. Era para por a cara à tapa mesmo.

3) Conte um pouco como está sendo a formatação do teu próximo álbum, Solar.

AP: Quase que antagonizando o Mosaico,  Solar caminha em sentido oposto no que se refere à sua construção composicional. Neste novo trabalho, eu claramente componho a partir dos instrumentos e, posteriormente, analiso a possível colocação de coberturas de outros instrumentos para a formatação final. Refletindo em uma situação de solo entre o instrumentista e suas atitudes musicais.

Se no Mosaico eu priorizei a composição das músicas para após colocar-me como instrumentista, no Solar o instrumentista fala para o compositor: a música é esta e com este instrumento! Arranja aí!

Solar está nascendo a partir desta viagem em solitude que o compositor mergulha, para extrair-se de si através de seu instrumento musical.

É das sensações de solidão, de solitude, de abandono, de vácuo, de flutuação que tento pintar em som através do instrumento que estou tocando o momento.

Tenho aprendido ao longo destes anos a observar meu tempo, por isso ainda estou em processo de pré-produção. As coisas estão se encaminhando bem.

4) Escreva um pouco sobre as características da música instrumental que você faz, pensando em divulgá-la a um público que não é acostumado a ouvir compoisções só intrumentais.

AP: Olha Icaro, é bem difícil falar sobre isso, até porque a música por si só já é uma arte que é imaterial, por conseqüência invisível, mas ainda assim, mexe com sensações do momento que se ouve até fixar-se em lembranças e sentimentos por anos afora. Acho que o convite para que as pessoas ouçam e falem sobre o que sentiram seria um desafio e tanto!

Contudo, acho que talvez esta dificuldade seja a própria explicação do que eu busco com a música que faço. Tentar contar estórias, pintar um quadro mental, sintonizar sensações.

Existem tantas formas em que a música instrumental é expressa. No jazz, por exemplo, temos as qualidades técnicas improvisatórias a desafiar o ouvinte. Na música erudita, temos as várias paisagens de muitas épocas e contextos artísticos, históricos e políticos do velho mundo. Na música étnica temos o reconhecimento da raiz da expressão do som como os cantos mouros, os couros africanos e a flutuação das melodias védicas e seus comas de tons de um transcendente mundo ainda mais antigo.

Acho que por hora posso me definir como um músico que tenta passear por estes universos citados com a simplicidade de um assovio, um cantarolar, um ferir das cordas de uma viola e a construção do meu silêncio.

BELLE & SEBASTIAN: WRITE ABOUT LOVE

Pouquíssimas vezes escrevi aqui no blog sobre músicas em língua inglesa. Pensando rapidamente agora, acho que só Lhasa de Sela (com seu último álbum principalmente) e Norah Jones foram aqui citadas nesse sentido. No entanto, engana-se quem pensa que eu só escuto música brasileira e platina. Apenas não costumo achar interessantes e/ou relevantes minhas opiniões sobre muitas bandas e artistas (de língua inglesa) amplamente divulgados por aí.

Mas muitas vezes impera aquele desejo de que, se não tenho muito o que escrever, tenho o que mostrar. E esse é o caso do oitavo álbum da banda escocesa Belle & Sebastian, intitulado Write about Love.

Muito aguardado pelos admiradores da banda, já que o último trabalho foi The Life Pursuit, em 2006, este novo disco apresenta Belle & Sebastian com sua indefectível leveza, criatividade e arrebatamento à primeira audição. Com o tempo, escreverei mais sobre a trajetória do grupo e sobre este último lançamento (previsto oficialmente para 11 de outubro). Enquanto isso, a canção I want the world to stop (no vídeo abaixo) mostra que esperar pelos lançamentos da banda é sempre gratificante.

Saudações musicais!

RODRIGO NASSIF LANÇA “FRONTEIRA”

Foto da capa: Luiz Carlos Felizardo
Foto da capa: Luiz Carlos Felizardo

Em fevereiro escrevi algumas palavras sobre o excelente e premiado álbum de estréia  do violonista Rodrigo Nassif. Agora, sete meses depois, um dos destaques da atual cena da música instrumental gaúcha apresenta seu segundo disco, com show de lançamento marcado para esta quarta-feira (22/09), no Café da Oca (João Telles, 512, a partir das 21h e 30min), com entrada franca!

Intitulado Fronteira, este segundo trabalho autoral de Rodrigo já demonstra ser pelo menos tão qualificado como o anterior, como podemos inferir a partir de 4 músicas disponibilizadas pelo artista no seu MySpace: Blimundiando, Fronteira, Tio Pepepo e Todas as coisas não ditas aquela noite.

As composições instrumentais de Nassif, que possuem forte influência da sonoridade platina (não é à toa o nome do álbum), transportam o ouvinte para um universo de riqueza melódica inconfundível. Pode até ser apenas impressão minha, mas a musicalidade do violonista me parece atender àqueles fundamentos da Milonga de sete cidades (de Vitor Ramil): rigor, profundidade, clareza, concisão, pureza, leveza e, também em alguns casos, melancolia. Só que tudo isso soa com uma originalidade e uma autenticidade inéditas. Porém, antes de tudo isso, há uma outra grande motivação para os leitores conhecerem as músicas deste artista: é muito bom ouvir Rodrigo Nassif!

Então está feito o convite, apareçam lá no Café da Oca na quarta ou no Sesc em Passo Fundo, dia 24/09. Para quem ainda quer conferir um pouco antes do show, é só dar o play no vídeo abaixo.

Saudações musicais!

SEMPRETANGO 6: VIRGINIA LUQUE

Em tempos de Soledad Villamil (que encanta seus fãs tanto no cinema quanto nos seus discos de tango), é importante lembrar que a dupla jornada de atriz e cantora já teve outras grandes e maravilhosas representantes na Argentina.

Um ótimo exemplo é Virginia Luque, nascida Violeta Mabel Domínguez em 1927. Principalmente nas décadas de 1940 e 1950, Virginia atuou em diversos filmes que tematizaram o universo tanguero, como La historia del tango (Manuel Romero, 1949) e Del cuplé al tango (Julio Saraceni, 1958), sendo que uma das suas mais recentes aparições está no dvd do cultuado Café de los Maestros (2008).

Virginia, que foi incentivada a cantar tangos pelo grande Francisco Canaro, gravou belíssimos álbuns interpretando temas de Carlos Gardel e Enrique Discépolo. Deste último, vocês podem conferir no vídeo abaixo a formidável interpretação da cantora para Desencanto.

Saudações musicais!

REALIDADE PARALELA CONVIDA NEI LISBOA

CONVERSA ESPARSA COM LEANDRO MAIA

Eu já corri o mundo inteiro

Eu tenho pé de cantador

(Leandro Maia)

Em 2009, o projeto Unimúsica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul convidou o cantor e compositor Leandro Maia para apresentar seu álbum de estréia Palavreio na série Cancionistas. Naquela ocasião, tive a oportunidade e o privilégio de assistir pela primeira vez o excelente show de Leandro, recheado de belíssimas canções e de parcerias fantásticas ao lado de Michel Dorfman, Marcelo Corsetti, Luke Faro, Marcelo Delacroix, Andréa Cavalheiro, entre outros.

Lançado em 2008, o álbum de estréia de Leandro Maia é acompanhado de um livreto e divide-se em três partes: Palavra de papel (poemas), Palavra dita (poemas recitados) e Canções.

E para dedicarmos atenção especial a esse “projeto musical” de Leandro, convidei o cantor e compositor para protagonizar esta edição das Conversas Esparsas. Aqui, os leitores podem ler um pouco mais sobre o Palavreio, a cultura e a canção brasileiras e sobre as interessantes ideias deste cancionista, que gentilmente topou conversar conosco.

Portanto, leiam, ouçam e desfrutem.

Saudações musicais!

1) Conte-nos um pouco da tua trajetória artística antes do lançamento de Palavreio (2008).

Leandro Maia: O “Palavreio” marca meus dez anos de atuação profissional. Eu marco esta data com o surgimento do Grupo Café Acústico – um quinteto de música popular de câmara que conquistou o II Festival de Música de Porto Alegre e dois Prêmios Açorianos de melhor grupo de MPB. Paramos com o Café em 2001 e eu segui me dedicando à minha formação acadêmica, paralelamente atuei como regente e arranjador de coros juvenis, e integrei projetos juntos com músicos como Alexandre Vieira, Jorge Hermann, Karine Cunha, Mário Falcão, Alejandro Massiotti, Dunia Elias, depois participei do teatro em Antígona, do Alabarse, música do Arthur de Faria. Foi o momento em que me aproximei também do Marcelo Delacroix, com quem colaborei em Depois do Raio. Ainda tive rápida passagem pelo Serrote Preto e pelo Depósito de Teatro. Enquanto mixava o “Palavreio” também compunha e gravava a trilha do Espetáculo Penélope Bloom, na Costa Rica. Minha trajetória de vida musica inicia, no entanto, cantando numa língua inventada antes dos quatro anos de idade. Com oito, escrevia poemas. Com dez anos já era um compositor de sucesso numa escola chamada “Oficina de Música” (risos), compondo “palitos”, pecinhas musicais nas teclas pretas do piano. Aos doze iniciei o estudo de “violão clássico”, aos quatorze já tocava Villa-Lobos. Estudei na escola de música da OSPA, cantei no Coro Juvenil da Escola Técnica da UFRGS, no Madrigal do Departamento de Música da UFRGS e participei do Conjunto de Música Popular do Projeto Prelúdio, que deu origem ao Café Acústico.

2) Em 2007 defendeste uma dissertação de mestrado sobre a canção O Quereres de Caetano Veloso. De que modo a atenção acadêmica que dedicaste ao estudo da canção influenciou na construção do teu primeiro álbum solo?

LM: Na verdade, a coisa é inversa: as minhas inquietações e descobertas como compositor e intérprete é que me fizeram adentrar na trajetória acadêmica. Foi cursando o pós na Unirriter e depois o mestrado na UFRGS que conscientizei algumas coisas que já praticava intuitivamente. Uma intuição sábia que todo o cancionista/cantautor utiliza. Eu componho como quem estuda. Então achei que deveria estudar como se compõe (risos). Então o mestrado foi um mergulhar de cabeça na canção como forma de pensar, como forma de conhecimento, como exercício de pensar a própria condição brasileira. Acho que a minha dissertação – orientada pelo prof. Luís Augusto Fischer e co-orientada pelo prof. Celso Loureiro Chaves – foi pioneira neste aprofundamento. Acho que “Quereres de Caetano: da canção à Canção” é a primeira dissertação sobre apenas uma canção. 110 páginas sobre uma canção de três minutos e meio. E faltou coisa para aprofundar.

3) Em relação à estrutura de Palavreio, dividida em Palavra de papel, Palavra dita e Canções, ela foi pensada como uma maneira de explorar os laços estreitos existentes entre literatura e música popular?

LM: Sim. Nisso tem muito a ver com a dissertação de mestrado, que é considerar a canção popular como literatura. Mas também tem um lance de buscar a origem de tudo, quando música e poesia eram uma coisa só. Então busquei um espectro de tudo que circunda a canção, a relação letra e música, o poema falado e o poema para se ler em silêncio. Parte também do pressuposto da canção como “linguagem”: assim como pensamos através de palavras, pensamos através de sons, imagens e creio que pensamos letra e música de forma espontânea e articulada, que é o que um repentista ou trovador faz: se utiliza da estrutura musical para deixar fluir seu texto verbal. Nisso a canção popular e a canção erudita se diferenciam radicalmente. Ao que tudo indica: na canção popular é a música que dá o texto, e na canção erudita é o texto que determina a música. Essas reflexões fazem parte dos antecedentes do “Palavreio”, que tem um bisão, uma pintura rupestre, que é uma forma de dizer que estamos fazendo uma das coisas mais antigas, talvez a coisa mais antiga do mundo, que é canção.

4) Voltando ao tema dos estudos acadêmicos sobre música, você poderia resumir, sobre aquilo que conhece, o “estado da arte” destas pesquisas na área das Letras?

LM: É uma área bastante heterogênea. Talvez ainda predominem os estudos sobre “a poesia da letra da canção”, na minha humilde opinião equivocados. Em geral jornalistas ou pessoal das letras que busca analisar “a poesia” de Chico Buarque, por exemplo. Existe a linha de estudo de uma poética da voz, que estuda a vocalidade. Tem americanos que tratam da melopoética, que é a relação letra e música, mesmo, com mais influência da “teoria dos afetos”, da ópera e do lied europeu, por exemplo. Outro campo de estudo é o campo histórico: o resgate de determinado compositor, as biografias, os festivais, a análise do conjunto da obra. Autores como Jairo Severiano, Zuza Homem de Melo, Sérgio Cabral, entre outros. Tem a linha da “semiótica da canção” que é a linha do Luiz Tatit, por exemplo, que é quem se atém na análise da relação melodia e letra propriamente ditas, com um método de análise bastante rigoroso e influenciado pela lingüística. É um autor obrigatório, concorde-se ou não. Eu, particularmente, gosto muito das análises escritas pelo pessoal que é músico, mas dá aula de literatura, como o José Miguel Wisnik e o Arthur Nestrovski, acho que tem uma escrita mais ensaística e com muita informação musical, se analisa harmonia, etc, que ao meu ver é o mais interessante. Gosto muito do Carlos Sandroni, que é o cara que consegue trazer o ritmo para a análise da canção. Daqui do sul, Celso Loureiro Chaves e Luís Augusto Fischer estão nos devendo publicações nestas áreas. Novos pesquisadores no RS são o Luciano Zanatta e o Carlo Pianta. Neste sentido, eu destacaria o Núcleo de Estudos da Canção, da UFRGS, que é um grupo dedicado ao assunto.

5) No sítio eletrônico do jornalista Luís Nassif, Palavreio foi indicado como representante da “Nova música gaúcha”. Quais os possíveis diálogos da tua música com os múltiplos significados que podem ter o conceito de “novo” e a expressão “música gaúcha”?

LM: Pois é. Acho que é “nova” porque é recente (risos), não necessariamente uma novidade. É nova porque é o primeiro disco, porque é de 2008. Embora em música POP 2008 já seja uma velharia. Algo que eu nunca advoguei foi a “novidade”. Quem precisa de novidade é o mercado. As pessoas precisam de qualidade. Talvez o Nassif esteja usando o termo “nova música gaúcha” como uma diferenciação da música gaúcha que o Brasil conhece como gaúcha, ou seja, aquela apropriada pelos CTGs e pelo Tradicionalismo, representada, digamos, pelo gaúcho da Fronteira, pelo Teixeirinha. A música que é popular, com raiz folclórica, que o Brasil conhece. A minha música tem essa raiz, mas não se encaixa no estereótipo do gaúcho, clichê do cavalo. Sou extremamente gaúcho em “Palavreio”, mas não falo de cavalo, nem bombacha, nem querência. É um gaúcho da linha do Mário Quintana, do Vitor Ramil, do Luís Fernando Veríssimo, um gaúcho que não ta nem aí para os caudilhos. Minhas músicas não entram em festivais nativistas, por exemplo, mas gente de todo o país me reconhece como gaúcho sem eu ter que dizer uma palavra sobre isso. Ser gaúcho é uma fatalidade. Gosto do meu sotaque rio-grandense carregado, por exemplo, mas não acho que gaúcho é adjetivo, um termo carregado de valores morais e estéticos pré-concebidos. Há pouco foi requentada essa briga. A discussão sobre música gaúcha acaba revelando, diferente de outras músicas, uma série de questões ideológicas e até políticas, relacionadas com questões de poder. De todos os lados.

6) Ao longo da história, a definição do que seria uma “cultura brasileira” alterou-se inúmeras vezes e, em diversos momentos, novas pesquisas problematizam esse tema. De que forma os estudos mais recentes sobre a “canção” redimensionam o debate sobre as características e manifestações da “cultura brasileira”?

LM: Eu defendo o seguinte, digamos: a melhor sinfonia é a austríaca, os melhores concertos são italianos, as melhores óperas italianas, os melhores contos, americanos, os melhores romances são russos, a melhor poesia é francesa, a melhor canção popular é a brasileira. É algo totalmente discutível, uma simplificação bárbara. Mas acho que se sustenta por termos 1) uma variedade de ritmos enorme: vanera, samba, milonga, maracatu, côco, repente, carimbo, catira, pagode de viola, etc. 2) Uma língua extremamente sonora, onde as vogais combinadas com fonemas como “z”, “v”, “j”, associadas à nasalidade, um timbre único, onde cada palavra tem sua cor, sem falar nos inúmeros sotaques. Não posso cantar “Joana Francesa”, do Chico, em gauchês, por exemplo, é uma canção que soa em carioquês/francês. 3) uma variedade temática absurda: os mais diferentes tipos de narradores, personagens, temáticas sociais, líricas, épicas, não fazemos só canção de amor e protesto como em muitos lugares. 4) A canção popular é um gênero híbrido que é o próprio resultado de nossa mestiçagem. É um gênero literário composto de diversos gêneros musicais. Nosso primeiro cancionista, o Domingos Caldas Barbosa já era um padre mulato e chegado na boemia. Não tem jeito (risos). Agora tem os argumentos do José Miguel Wisnik, que diz que a canção popular é uma espécie de “riflessione brasiliana”, ou seja, uma forma através da qual o próprio país se pensa, a forma utilizada pelo brasileiro, digamos, para constituir a sua subjetividade, é muito interessante e palpável. O Luiz Tatit fala que a canção brasileira tem dois grandes pólos de atuação: a Bossa Nova (triagem) e o Tropicalismo (mistura). Bem, existem estudos sobre a influência do Tropicalismo na Nueva Trova Cubana, que influenciou toda estética latinoamericana. Fatores políticos: foi através do samba que o governo Vargas se estabeleceu, por exemplo. È inegável o peso da canção popular na vida do país e mais, o Caetano fala na canção popular como “maior forma de propagação da lingua portuguesa no mundo”. A música é o maior produto de exportação brasileiro e o engraçado é que é a música com letra, ou seja, a canção, uma grande responsável por isso. A importância da canção para a cultura brasileira é inegável e creio que inesgotável.

7) Existem poetas e/ou músicos que são referências constantes na sua produção? Se sim, quais seriam eles e por quê?

LM: Sim. São muitas referências. Eu busco a referência nos mestres. Acho que o principal é sintonizar com o espírito poético de cada autor. Não adianta eu dizer que gosto de Tom Jobim, Piazzola, Drummond, Guimarães Rosa, Mário Quintana, Fernando Pessoa, Chico Buarque, Villa-Lobos, etc, se isso não se faz presente em alguma esfera na minha criação. O que interessa para o ouvinte do meu disco se eu gosto de ouvir Beatles ou Tião Carreiro? Se eu conheço todos os discos da Califórnia da Canção? Dos Almôndegas e do Saracura? Do Gelson, Nelson, Totonho e Bebeto? Leminsky e Che Guevara? Talvez alguma curiosidade de coluna social. Agora, no caso do “Palavreio” estas referências são o tempo todo, “Palavreio” é diálogo com muita gente, às vezes é explícito, às vezes não. Meu primeiro disco é pura referência e reverência.

8 ) Quais são teus projetos em relação à música atualmente?

LM: Tive um vazio existencial depois do Palavreio (risos). Porque muitas portas criativas foram abertas. Eu faria um disco de cada faixa, um disco de jazz todo na linha do Vaga-Lua, por exemplo ou um disco Pop como Digno de Nota (Connecticut). A vida está me convidando a radicalizar e estou compondo novamente coisas, bem elaboradas, com muito critério. Estou escrevendo mais letras para gente que vem da música instrumental. O lance é que estou começando a encontrar parceiros, o próximo disco terá novas parcerias. Já estou enxergando o próximo trabalho, o que é muito bom. Parou o devaneio mero desejo e a coisa está se tornando concreta. Acho que a ansiedade vai estabilizando, acho que a música que eu faço é para um público especial, que se dedique a sentar e ouvir atentamente. Acho que daqui a vinte, cinqüenta anos, uma pessoa vai ouvir o meu trabalho e ele vai continuar valendo alguma coisa. Pra mim está claro que o negócio é compor, inventar, contar e recontar. E projetos são muitos: segundo disco, publicar os estudos sobre canção, projetos de educação musical, livro de arranjos para coros juvenis, disco infantil, peça de teatro, palestras, shows.

9) Deixe um recado para os leitores do Música Esparsa.

LM: Valeu gente. Deixo um abraço carinhoso e um salve ao Icaro por ter colocado a gente em contato. Um abração para vocês. Apareçam no meu MySpace e no blog Palavreio pra gente trocar uma ideia. Abração.

COLAGEM

Um poema e uma música. Ou será o contrário?

A Música

A música p’ra mim tem seduções de oceano!
Quantas vezes procuro navegar,
Sobre um dorso brumoso, a vela a todo o pano,
Minha pálida estrela a demandar!

O peito saliente, os pulmões distendidos
Como o rijo velame d’um navio,
Intento desvendar os reinos escondidos
Sob o manto da noite escuro e frio;

Sinto vibrar em mim todas as comoções
D’um navio que sulca o vasto mar;
Chuvas temporais, ciclones, convulsões

Conseguem a minh’alma acalentar.
— Mas quando reina a paz, quando a bonança impera,
Que desespero horrivel me exaspera!

Charles Baudelaire
Tradução de Delfim Guimarães

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