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CONVERSA ESPARSA COM FRANCISCO PELLEGRINI

No retorno da seção de entrevistas do blog, compartilhamos a música e algumas buenas ideias do músico Francisco Pellegrini, compositor, pianista e acordeonista nascido em Niterói e já com quatro discos lançados. Continuar lendo “CONVERSA ESPARSA COM FRANCISCO PELLEGRINI”

CONVERSA ESPARSA COM CARMEN CORREA

Para finalizar o ano de maneira especial, o Música Esparsa convida a todos para conhecerem o álbum Do Outro Lado, da cantora e compositora Carmen Correa (na imagem acima, em registro de Fabrício Simões), lançado há menos de um mês e que traz um conjunto de belas e instigantes canções. Continuar lendo “CONVERSA ESPARSA COM CARMEN CORREA”

CONVERSA ESPARSA COM JULIANA CORTES

Em 2013, a cantora curitibana Juliana Cortes lançou seu álbum de estreia, intitulado Invento. Não tardou muito para que eu conhecesse o disco, cujo repertório incluía três músicas já gravadas por Vitor Ramil, cantor e compositor que escuto quase diariamente desde 2008.

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CONVERSA ESPARSA COM TATÁ AEROPLANO

Tatá Aeroplano (Cŕeditos: Maira Acayaba)
Tatá Aeroplano (Cŕeditos: Maira Acayaba)

Faz pouco tempo que conheci os dois discos solo do cantor e compositor Tatá Aeroplano, integrante das bandas Cérebro Eletrônico e Jumbo Elektro. Desde então, a audição constante das canções de Tatá Aeroplano (2012) e Na Loucura & Na Lucidez (2014) traz sucessivas descobertas sonoras e poéticas a partir da abordagem multifacetada de experiências urbanas, amorosas e noturnas que o artista explora nas suas composições.

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CONVERSA ESPARSA COM BEBETO ALVES

Relendo a postagem que fiz em 2010 sobre o lançamento da caixa Bebeto Alves em 3D identifiquei prontamente o tom deveras elogioso do meu comentário. E agora, com a chegada do mais recente álbum de Bebeto, o Milonga Orientao, não posso deixar de ir pelo mesmo caminho.

Renovando a parceria com os Blackbagualnegovéio (Marcelo Corsetti nas guitarras, Luke Faro na bateria e Rodrigo Rheinheimer no baixo), o disco apresenta doze canções muito fortes, seja pelo questionamento político e existencial afiado de algumas composições seja pela leveza e pelo lirismo não menos cortante de outras. Isso tudo reforçado pelas levadas impecáveis dos instrumentistas citados acima, pelas participações especiais, como a de Humberto Gessinger, e pelas parcerias com Rodrigo Rheinheimer, Fernando Corona, Gastão Villeroy e Reinaldo Arias.

Da esquerda para a direita (sentados): Rodrigo Reinheimer, Bebeto Alves e Marcelo Corsetti. Em pé: Luke Faro.
Da esquerda para a direita (sentados): Rodrigo Rheinheimer, Bebeto Alves e Marcelo Corsetti. Em pé: Luke Faro.

Mas como a minha intenção é que vocês escutem as músicas e percebam a força desse trabalho, organizei uma postagem diferente. É o seguinte: vocês escutam a canção, depois descobrem o que me instigou nela e produziu uma pergunta e depois conferem a resposta do próprio Bebeto, que gentilmente aceitou colaborar com o Música Esparsa.

Antes de começar, no entanto, convido a todos a adquirirem o álbum no site da Stereophonica e contribuírem para viabilizar o show de lançamento do Milonga Orientao no crowdfunding do Traga Seu Show em Porto Alegre, no Teatro do CIEE.

Prontos agora? Então vamos lá! Com vocês, Milonga Orientao!

Saudações musicais!

Primeira canção: CARNEADO DE LUZ

MÚSICA ESPARSA: Esse teu mais recente álbum contém algumas das canções mais instigantes que escutei ultimamente com conteúdo relacionado a certo desconforto com diversas questões culturais, políticas e existenciais. Que características do contexto histórico e cultural contemporâneo influenciam para o “desassossego” e para as “interrogações” que parecem ter motivado as canções do disco?

BEBETO ALVES: O meu trabalho é uma manifestação da minha própria vida, sou autobiográfico, sempre foi assim.  À medida que o tempo passa, obviamente, ela, a vida, vai se avolumando em sua própria experiência. Esse disco traz uma relação de/com coisas que aparentemente não teriam nada a ver, pois são de planos diferentes: social, espiritual, existencial, psíquico, como observaste, mas que em minha reflexão acabam construindo um mosaico do qual tiro a poesia necessária para continuar respirando, transformando, criando, recriando uma realidade que me absorve. Objetivamente, e esse é o tom maior do disco, minha experiência com a morte, ou na perspectiva dela, por exemplo, é o turning point do disco. Nesses últimos dois ou três anos, apesar de estar em atividade, filmando, criando canções e fotografando, a proximidade com a sensação de finitude me proporcionou amadurecer a sua ideia e o ambiente ao redor. Quero dizer com isso que vivi tão intensamente isso tudo ao ponto de contemplar a criação com todos esses aspectos. E acho que é esse o determinante desse disco, e daqui por diante. Apesar do desassossego, foi a leveza de uma sensação de amor o que me movimentou. É inexplicável e indescritível.

Tentando ainda contextualizar dentro da tua pergunta, um pouco mais, diria que esse sentimento fez com que eu olhasse para toda essa realidade, do ponto de vista intelectual, do que compreendemos pelo conhecimento, pela nossa estrutura educacional e cultural, com os olhos de uma outra humanidade possível. E assim me dei por um novo homem, com uma reflexão, completando uma ideia de estar por aqui.

Eu sempre estive aqui. (Humberto Gessinger)

Essa é uma outra coisa, a emoção de sentir o outro. O Humberto foi confessional nessa letra e muito perspicaz. Me causou uma emoção enorme reconhecê-lo nessa afirmação.

Segunda canção: ARMANDO

MÚSICA ESPARSA: Tu consideras que há uma tendência no pensamento contemporâneo de relativizar a propriedade intelectual e apontar determinadas “transformações” no mundo da cultura sem questionar as bases da produção capitalista?  Fico pensando nisso porque muitas vezes tenho essa impressão, como se alguns defendessem a possibilidade de questionar a propriedade sobre a criação na área da cultura ao mesmo tempo em que se aprofunda a monopolização do capital em outros setores da produção de bens e mercadorias.

BEBETO ALVES: É que isso, na verdade, se tornou uma moeda na disputa política, pelo menos aqui no Brasil. Não existe boa intenção nisso. O discurso da coletividade através de uma postura ideológica claramente identificada dentro da rede como uma esquerda digital, aliada ao campo político do governo, faz o seu jogo e sua negociação, onde a parte mais frágil da produção do capital, a indústria cultural, é depreciada e seus agentes condenados a um cárcere virtual, sujeitos a desapropriação ilegal de seus bens, em nome de um coletivo que se diz dono de tudo: tudo é de todos, toda a produção intelectual é do povo e para o povo e o criador vai ser remunerado por isso, se for,  conforme valores estabelecidos por esse poder. Ora, isso é muito feio. Roubo, assalto. Por que não fazem isso com as revendedoras de automóveis? Com os supermercados? Com os bancos? Isso é pura covardia. Jogo de interesses, jogo de cena que influencia os desavisados e inocentes úteis. No âmbito internacional, desde a quebra do mercado fonográfico pelo mau-caráter do Napster, que não lembro o nome, houve um efeito dominó e uma terra arrasada que faz suas vítimas em todos os segmentos do mercado da indústria cultural. Alguma coisa mudou e está mudando e vai continuar a mudar. Não está nada mais estabelecido. É tudo cada vez mais rápido e o que começou com esse desmantelamento está se construindo de diversas outras maneiras, por exemplo como os crowdfundings e crowdsourcings. Novos tempos. A inteligência humana não tem igual, o tiro saiu pela culatra.

Terceira canção: MILONGA ORIENTAO

MÚSICA ESPARSA: Um dos teus esforços artísticos (como exemplifica o documentário “Mais uma Canção”) tem sido rastrear caminhos e narrativas possíveis sobre as origens de expressões culturais e musicais como a Milonga. Quais os principais discursos sobre a cultura brasileira e gaúcha tu acabaste relativizando nesse percurso?

BEBETO ALVES: Eu não relativizei nada, nunca, sempre me postei na dimensão de uma cultura sul- brasileira, como um apêndice, como um anexo, ao que se convencionou denominar identidade nacional. E quando falo anexo, ou apêndice,  falo de uma dimensão cultural ininteligível para a postura de uma cultura dominante no país caracterizada como uma  cultura tropicalista. Sou pós-tropicalista, não no sentido estético, o que poderia ser uma identificação, mas, no sentido do que “vem depois”, do “adiante”, da dimensão de um país integralizado pelas suas manifestações regionais, por suas riquezas, diversidades e diferenças, pelo meu tempo, pela contemporaneidade. Poderia fazer uma dissertação sobre essa questão do ponto de vista do preconceito imposto pela inteligentzia nacional, pela centralização cultural, que sempre nos identificou com o autoritarismo, com a ditadura, com os militares, com a homofobia, com o racismo e separatismo, não exatamente nessa ordem e muito menos como uma cultura genuína. Nós temos muitos problemas internos e isso nos desfavorece, nos fragiliza nessa relação. Nós somos o nosso maior problema. De qualquer modo acho que essa dimensão de um sul rico, multicultural, contemporâneo e criativo é onde eu me encontro e não abro mão, seja para que Brasil for, ou que sul do Brasil for.

MÚSICA ESPARSA:  Deixe um recado para os leitores do “Música Esparsa”.

BEBETO ALVES: Se assuma!

CONVERSA ESPARSA COM EZEQUIEL DA ROSA

Uma das grandes lacunas do Música Esparsa continua sendo a presença diminuta neste espaço de artistas que desenvolvem suas trajetórias nas cidades do interior do Brasil. E esse é um problema ainda mais grave quando se trata desse blog, que sempre prezou pela música independente e autoral antes de qualquer coisa. No entanto, aos poucos a situação vai se transformando e, nessa postagem, conto com a ajuda do músico cachoeirense Ezequiel da Rosa para me auxiliar nesse propósito.

Conheci virtualmente o artista há alguns poucos anos, mas só recentemente travamos uma conversa presencial muito frutífera e cujo um dos desdobramentos é essa nova edição do Conversa Esparsa, a seção de entrevistas do blog.

Músico e educador musical, Ezequiel desde cedo teve consciência de sua necessidade de expressão artística, dedicando-se à música como forma de concretizar aquela. Em Cachoeira, participou nos anos 1990 de grupos musicais de diferentes matizes, como a banda punk Ogiva Nuclear e do grupo Cheiro de Samba, justamente experimentando formas de expressão diferenciadas dentro da música.

Nos últimos anos, após a graduação em Música na Universidade Federal de Santa Maria, vem se dedicando à educação musical e à musica autoral independente (principais temas da entrevista abaixo). A experiência mais significativa de profissionalização como compositor aconteceu no cenário da música regional gaúcha/nativista, como é um exemplo a coletânea da qual participou em 2013 intitulada Conterrâneos (Coletânea Musical de Autores Cachoeirenses).

No entanto, diversificando mais uma vez sua expressão musical, atualmente Ezequiel está envolvido com outro projeto, a banda Os Soluzantes, que ele compõe ao lado de Felipe Radünz e Rafael Nunes e da qual o artista também fala nessa entrevista e ainda nos oferece a gentileza de escutarmos em primeira mão o segundo single do grupo, Nessa de entender. Além disso, quem primeiro comentar essa postagem leva como presente o cd Conterrâneos (outro regalo para os(as) leitores(as) do Música Esparsa.

Portanto, confiram abaixo as ideias e a música de Ezequiel da Rosa e Os Soluzantes e acompanhem as novidades na fanpage da banda.

Saudações musicais!

FOTO MSC ESPARSA

Música Esparsa: Qual a importância da educação musical para a educação básica?

Ezequiel da Rosa:  A música na escola é fundamental para a formação integral dos alunos. Sempre achei muito estranho, em um país como o nosso, a música ficar tanto tempo fora da escola. Tem coisas que a gente não entende. Mas isso está mudando, mesmo que muito lentamente. Hoje vemos projetos musicais acontecendo em várias escolas. Na fala dos colegas professores de outras áreas já percebo que está mudando o pensamento sobre a música no espaço escolar e a importância que ela tem na formação dos alunos.

Mas não podemos cair naquela história que música na escola é para preparar os alunos para se apresentarem nas datas comemorativas, ou que a função da música na escola é acalmar os alunos para que eles possam estar bem calminhos para as aulas de português e matemática. Ainda escuto essas coisas por aí! A música é uma área do conhecimento humano e tem tanta importância como qualquer outra.

Falando em projetos, vejo com bons olhos o Mais Educação. Tem várias oficinas legais, inclusive de música. Mas também entendo que, em alguns casos, precisa de gente capacitada para dar aula. Penso que os oficineiros desses projetos também têm que receber uma formação antes de tudo. A ideia de que se a pessoa toca alguns acordes no violão já pode dar aula de música é bem equivocada. E mesmo para aqueles que são excelentes músicos, uma formação pedagógica é fundamental.

Música Esparsa: Quais as dificuldades encontradas pela música autoral e independente (em termos de visibilidade, público e espaços) em cidades do interior como Cachoeira e o que tu sugeres para que a situação seja mais propícia a essa expressão artística?

Ezequiel da Rosa:  Fazer música autoral é um trabalho que requer paciência e persistência. O compositor não pode duvidar da sua própria música. Ser compositor faz parte da minha identidade e, como toda identidade que é móvel, minha música também é. Não tenho problemas em fazer música regional, rock, samba, etc. Ou até misturar tudo e ver no que vai dar como é o caso da música que estamos fazendo no grupo Os Soluzantes.

[Confiram abaixo a música Nem tudo é sorte, com a participação especial de Fábio Pivetta no bandoneón]

Penso que uma das formas de dar visibilidade para autores, principalmente no interior do estado, é a criação de coletivos. Juntar vários compositores e promover encontros, apresentações, criar novos espaços para a música autoral e gravar coletâneas em cd, usar as redes sociais, etc.

Mas não se deve ficar apenas com os compositores de sua cidade. É necessário ampliar as experiências com autores de outras regiões. Penso que diferentes dificuldades são encontradas em qualquer lugar, principalmente no Brasil, onde historicamente o compositor não tem o mesmo status do intérprete ou do instrumentista, por isso é interessante trocar ideias com autores de outros locais, assim todo mundo aprende junto.

Aqui em Cachoeira do Sul tenho participado de alguns projetos. O mais recente lançou uma coletânea intitulada Conterrâneos pela gravadora Luna Soluções Culturais. É focado na música regional e reúne diversas canções que participaram de festivais nativistas. Integrar essas coletâneas é importante principalmente para quem ainda não tem um álbum próprio, que é o meu caso.

Dia 21 de março, no Porto 21 Pub, estaremos lançando um projeto que se chamará “Compositor, muito prazer!”. É um coletivo de autores locais de diversos estilos musicais que apresentarão 21 canções. Esse projeto circulará por outros espaços na cidade e terá uma apresentação mensal. É um começo para criarmos uma cena de música autoral na cidade.

Música Esparsa: Comente um pouco sobre a canção “Nessa de entender”, que está sendo lançada com exclusividade nessa postagem.

Ezequiel da Rosa: Nessa de entender é uma canção feita em parceria com Dado Romagna, autor que reside em Porto Alegre. Um virtuose da palavra. Começamos a trabalhar juntos no final de 2007. Desde então já fizemos mais de vinte canções numa proposta mais híbrida, misturando elementos do rock, folk, soul e MPB. Também realizamos alguma coisa de música regional gaúcha, mas o nosso foco ficou mesmo em outros gêneros. Nessa de entender é um bom exemplo das nossas várias influências.

O interessante da parceria com o Dado é que comecei a compor as melodias e enviar pra ele colocar a letra. Eu nunca havia feito isso. Foi uma proposta que surgiu do próprio Dado. Sempre fiz letras e depois as músicas. Ou recebia as letras de alguém para fazer a melodia ou entregava minhas poesias para alguém musicar. Uma prática muito comum no contexto dos festivais nativistas de onde vem as minhas maiores vivências como autor.

Outra novidade desse repertório é que foi pensado para eu cantar minhas próprias músicas, numa ideia de cantautor. Tudo bem diferente das músicas que eu vinha fazendo direcionadas para os festivais nativistas e que, no próprio processo de composição, eu já ia pensando no intérprete para ela, os músicos que eu gostaria que estivessem no palco para apresentá-la, etc. Isso tudo entra junto no desenvolvimento da música criada, no meu caso é claro, pois cada compositor tem um forma de criar.

Ao fazer primeiro a melodia, me senti mais livre para criar. Deixei a música fluir sem me preocupar no que ia dar. Nossa única preocupação foi fazer uma música que as pessoas escutassem e “saíssem assoviando”. Que levassem junto consigo para onde fossem se valesse a pena levar. Na realidade nem foi uma preocupação, mas sim, uma construção que realizamos através de nossas conversas por e-mail. Não pensamos em uma proposta comercial ou em realizar algo completamente original, mas sim, em uma música simples e sincera com o nosso atual momento. Com o passar do tempo, fomos percebendo que as canções tinham uma direção. Temos como plano fazermos um álbum com estas canções.

É importante falar também que a Nessa de entender ficou com um arranjo bem na proposta de Os Soluzantes, que é o nome da banda que integro juntamente com Felipe Radünz (guitarra e vocal) e Rafael Nunes (percuteria e vocal). Eu faço voz e violão no trio. O grupo tem cerca de um ano de atividade. Enquanto banda, nós pensamos em construir uma sonoridade que tenha um “pé no rock e outro na América Latina”, mas, nem por isso excluímos outras possibilidades de ritmos, timbres, etc. A música comentada em questão exemplifica bem para onde estamos olhando musicalmente, hoje. É o nosso segundo single. A canção Nem tudo é sorte foi o primeiro.

Música Esparsa: Para concluir, deixe um recado para os leitores do Música Esparsa.

Ezequiel da Rosa: Gostaria de agradecer ao Icaro pela oportunidade. Valeu mesmo! Para finalizar gostaria de dizer que existem várias formas da gente passar pela vida. Eu “escolhi” ser esse cara que gosta de ensinar música, compor, tocar, cantar… E que gosta de compartilhar com as outras pessoas as vivências proporcionadas pelo trabalho com a música . Apenas isso! Bem simples. Encadeamento sem empréstimo modal. Só dominante/tônica!

CONVERSA ESPARSA COM BIANCA OBINO

Desde que conheci o trabalho da Bianca Obino em 2010, tenho acompanhado, mesmo que à distância, sua contribuição à cena artística de Porto Alegre e o desenvolvimento de seu trabalho autoral.

Bacharel em Música (Habilitação Canto) pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) desde 2007, Bianca é uma cantora e compositora versátil, que transita pela música popular, pelo canto lírico, pelo ensino de música e também pela promoção de apresentações nas quais a performance musical dialoga com outras expressões artísticas ou integra-se a uma abordagem analítica do seu processo criativo e de composição.

Essa diversidade que caracteriza o trabalho da artista, bem como a clareza e ótima fundamentação das suas ideias e propostas, são evidentes nessa Conversa Esparsa que agora disponibilizo para os leitores. Muito gentilmente, Bianca contribuiu para o conteúdo do Música Esparsa com excelentes análises e uma abordagem instigante sobre temas musicais em geral e sobre o seu trabalho artístico em particular.

Assim, é com imensa satisfação que disponibilizo abaixo essa entrevista exclusiva com a Bianca Obino, para os leitores conhecerem ou aprofundarem seus conhecimentos e sensibilidades em relação à arte dessa cantora e compositora que faz uma belíssima contribuição aos nossos ouvidos, mentes e inspirações criativas.

Saudações musicais!

Créditos: André Christo

1) Nos últimos anos, tu promoveste vários encontros artísticos articulando a música com outras artes. O que fundamenta, na tua visão sobre a criação artística, a proposta de fazer interagir essas diferentes expressões?

Bom, na verdade estes encontros artísticos que mencionaste fazem parte de um projeto de 3 anos que leva meu nome (“Bianca Obino Convida”), mas que foi concebido pelo artista Felipe Azevedo, e também dirigido por ele. Meu contato com o Felipe se deu mais profundamente em nossas aulas individuais (que ocorreram antes e durante o projeto) onde eu aprofundei com ele meus conhecimentos em arranjo, composição, história da música popular brasileira e minha técnica ao violão. Aconteceu que, durante este período, o Felipe me ajudou a identificar e desenvolver traços estéticos importantes nas minhas composições. A canção que marcou o início deste processo foi justamente “Artesão”, e dela conseguimos extrair o conceito de “Artesania”, como uma maneira específica de compor, baseada em organizar os materiais musicais promovendo uma espécie de “entrelaçamento” entre os instrumentos “violão” e “voz”, para que o resultado de cada canção seja coeso e autêntico. Por isto, então, a idéia de também entrelaçar “universos artísticos” no contato com artistas de outras áreas. Penso que o grande fundamento de interagir desta forma foi, justamente, o contato com cada convidado e a troca de experiências! Aprendi muito sobre os processos criativos de todas as pessoas que estiveram comigo, assim como também aprendi muito sobre meu próprio processo criativo. Percebi que as diferentes expressões artísticas podem nascer de um mesmo “impulso” (em perceber coisas do mundo e dizer ao mundo de volta, através da arte), e podem perfeitamente se complementar neste discurso. Foi o que tentamos fazer durante o projeto.

2) Na música Artesão [confira no vídeo abaixo], tu cantas sobre a especificidade do trabalho artesanal, que origina um produto único e especial. Comente um pouco sua opinião sobre os benefícios desse tipo de atividade e de suas características nesse contexto atual, no qual a padronização do comportamento e dos produtos culturais parece ser hegemônica.


O que sempre me chamou atenção em trabalhos artesanais é a singularidade de cada peça, e a dedicação necessária do artesão para aquilo ser concebido. Sinto que vivemos em um mundo que talvez, mais do que nunca, nos convide a não aceitação da nossa individualidade, e a vivermos realizando o máximo de coisas que nos demandem o mínimo tempo, em todas as instâncias da vida (justamente o oposto do que sinto sobre o processo artesanal). Em “Artesão” eu expus uma reflexão minha sobre meu próprio processo…eu realmente me considero uma “artesã”. E esta descoberta, o simples fato de compreender e aceitar esta maneira de ser e proceder, tem me feito uma pessoa mais inteira, com talvez mais condições de contribuir um pouquinho ao mundo, justamente pela diferença. Todos nós temos a nossa “diferença”, e por isso eu acredito ser muito importante a disposição de cada pessoa em talvez se abster momentaneamente da grande “extroversão” que o mundo nos incita para identificar qual é a sua própria “artesania”…e a partir daí, aceitar e desenvolver isto, com confiança de que a melhor coisa que podemos fazer é justamente sermos, com cada vez mais integridade. É super filosófico (risos). Mas eu acredito muito nisto.

3) Em 2009, o músico Lucas Santanna lançou o álbum Sem Nostalgia, tentando fazer um trabalho baseado em voz e violão que não sucumbisse às referências consagradas desse estilo, como João Gilberto, por exemplo. No teu caso, quais são as potencialidades criativas que tu atribui ao explorar constantemente esse “formato”?

Primeiro, o formato “violão e voz” era freqüente no meu contato com o público pela autonomia que ele me proporcionava (a de poder me apresentar em diversos locais apenas dependendo dos meus próprios horários, por exemplo) e também porque, embora cantora por formação, sempre senti um amor imenso pelo violão. Entretanto, com o passar do tempo, identifiquei na prática de tocar e cantar simultaneamente um traço estético característico, que representa, de fato, a “Bianca artista”, e isto vem sendo ressaltado de forma mais consciente nos últimos anos. Por isto busquei (e busco) aprofundar meu conhecimento nos dois instrumentos. No período de aulas com Felipe Azevedo tive contato com o pensamento dele, e de outros etnomusicólogos e educadores musicais a respeito do violão e seu “poder de síntese”: isto significa que é comum, dentro da cultura popular brasileira, utilizar o violão para tocar canções que podem ter originalmente uma instrumentação muito maior. Ou seja, o violão nos permite executarmos o ritmo e a harmonia de uma forma peculiar, que, dependendo de como for trabalhada, pode remeter o ouvinte a “atmosfera” de uma banda, de uma bateria de escola de samba, ou até de uma orquestra! Então, perceber a riqueza contida no violão me fez explorar possibilidades dentro deste formato enxuto, buscando uma união, uma espécie de “dialogo” entre o violão e a voz, para que ambos sejam iguais em importância no resultado final das minhas músicas e arranjos. Confesso que é algo que me exige muito, tanto em termos técnicos quanto artísticos, mas também acredito que aí reside o diferencial deste trabalho, e sou grata a todos os “mestres” que me possibilitaram enxergar e desenvolver isto. É um processo pra vida toda.

4) No ano passado, o primeiro LP independente aqui do estado, o Juntos, do Nelson Coelho de Castro, completou 30 anos. Qual a tua visão sobre a “cena independente” da música popular urbana da capital gaúcha, considerando os pontos positivos e as limitações que ela enfrenta? Se possível, relacione o tema com a tua experiência de compoisção do teu primeiro disco.


Da experiência de tocar em bares por um tempo, trabalhar em eventos, e depois abraçar junto com o Felipe a realização do projeto “Bianca Obino Convida”, sinto que temos um público potencial aqui em Porto Alegre para música autoral, atento e receptivo às novidades. Porém, percebo que faltam espaços culturais de circulação destes trabalhos, uma cena que pudesse “sustentar” uma certa freqüência/regularidade de apresentações dos artistas, atingindo um público maior. Acabei tendo muito auxílio, do Felipe, dos artistas convidados de cada edição, de pessoas que tiveram contato com meu trabalho e comentaram com outros, do próprio estabelecimento que nos acolheu (a Palavraria), mas houve muita disposição, muita energia e muito boa vontade para que o projeto perdurasse em 3 anos. Sobretudo, uma esperança de que a freqüência de apresentações constituiria um público fiel. Neste estágio, creio que o objetivo inicial foi atingido, e daqui pra frente é importante concretizar todo este esforço na gravação de um CD. Aqui, temos, felizmente, algumas alternativas de apoio e financiamento, através do governo e sistemas de “financiamento colaborativo” via internet, com as quais estamos trabalhando. A quantidade de trabalhos nesta mesma situação é grande, a verba é pouca, mas, graças a Deus, ainda há. Mesmo assim, seria muito rico se pudéssemos fazer circular mais pela cidade e estado a quantidade de bons artistas que temos. Vejo, por exemplo, Luiza Caspary, Gisele De Santi e Filipe Catto morando em outros centros, buscando outros meios para viabilizar a circulação de seus próprios trabalhos, principalmente através de shows. Acho que isto diz algo a respeito do que comentei, das dificuldades em relação à cena local.

5) Uma parte da tua formação como intérprete diz respeito ao canto lírico. Tu pretendes incorporar essa experiência em trabalhos futuros ou, por enquanto, teu trabalho está concentrado na música popular?

Sim! Eu gostaria muito de juntar tudo isto (canto lírico/popular e violão), numa única expressão! Eu faço alguns experimentos, mas ainda não cheguei em um formato onde eu me reconhecesse. Ainda não sei bem como fazer tudo soar de uma forma “natural”, digamos. Existe uma dificuldade técnica em equilibrar os volumes dos dois instrumentos, bem como em executar músicas com uma sonoridade vocal “lírica” tocando violão ao mesmo tempo. Enfim, pode ser que haja um caminho do meio…e, com certeza, estou em busca dele.

6) Tu já divulgaste dois vídeos comentando as características e o contexto no qual se originaram composições tuas. Na tua interpretação, qual a importância dessa troca artística com o público, além da apresentação/performance musical em si?

Sempre fui uma pessoa interessada em processos. Gosto de ver os “extras” dos DVDs dos artistas, os bastidores, assistir entrevistas, procurar entender como pensam e são aqueles que eu admiro. Por esta minha característica e pelo meu lado docente (trabalho como professora de canto), achei que seria rico e humilde dividir com as pessoas estes processos, criando mais um canal de comunicação com quem gosta das minhas canções. Seria uma maneira de eu também saber o que elas pensam e sentem sobre as músicas, coisa que não consigo identificar claramente quando me apresento. Acredito que, inclusive por meu trabalho ser novo, cada vez que comento algo no show sobre alguma canção ou arranjo, o interesse na escuta modifica. É uma audição munida de outros elementos, muda a fruição. Acho isso muito interessante! A idéia em “explicar” os processos não é convencer as pessoas de uma “verdade absoluta”, nem privá-las das suas próprias interpretações, mas instigá-las a refletir sobre o objeto de escuta (e quem sabe descobrirem algo delas próprias – maneiras de pensar, sentir e criar).
Por isso está acontecendo a série “A História da Canção” no meu site [confira abaixo o segundo vídeo da série]. Também por isto que a palestra-show “Artesania do Som” surgiu: nela eu falo um pouco sobre meu processo criativo nas canções, mas também sobre alguns conceitos musicais, a relação do violão com a voz que comentei nas outras questões. Gosto muito destes momentos, tanto quanto dos shows.

7) Em 18 de agosto de 2008 foi publicada a Lei Nº 11.769 que torna obrigatória a inclusão da música como conteúdo dos currículos escolares no Brasil. O que você, como musicista, argumentaria para convencer os educadores e os educandos da importância dessa arte específica para a formação geral dos indivíduos?

A música tem um poder imenso, incrível e maravilhoso de agregar pessoas. Além disto, a música nos possibilita uma reaproximação com nossa sensibilidade, muitas vezes adormecida pela vida prática e o mundo de “excessos”, como discutimos na pergunta 2. Quanto mais pudermos entender, vivenciar e apreciar música, mais ganhamos em qualidade de vida e poder de reflexão a respeito das coisas. E juro que isto não é algo clichê, mas algo fundamental para uma mudança de consciência do nosso papel no mundo e da nossa importância como seres únicos e capazes. É uma medida governamental louvável, e, com a capacitação do corpo docente e melhores condições de trabalho, acredito que poderemos ver o bom reflexo dessa educação ao longo dos próximos anos.

8) Deixe um recado para os leitores do Música Esparsa.

Deixo um super abraço e o convite para conhecerem mais sobre meu trabalho em www.biancaobino.com. Não hesitem! Entrem em contato, manifestem opiniões, vamos trocar idéias sobre música.

Também agradeço muito a ti, Icaro, por me dar a oportunidade de expor o que penso de uma forma mais aprofundada e bem conduzida. Considero muito importante este espaço critico que proporcionas no teu blog, e valorizo a atenção que dás a inúmeros artistas. Fico feliz de estar “em palavras” por aqui! Obrigada!

CONVERSA ESPARSA COM VITOR RAMIL

Esse é um dos mistérios da arte. O encontro é um reencontro. O texto, o quadro, a música, enfim – a obra, quando genuína, autêntica e forte, ao surgir a primeira vez diante de nós, nos dá a sensação de intimidade, de pertencimento. Ela vem ocupar em nós um lugar para ela reservado há muito. É como no amor. Um re-conhecimento. Um momento de plenitude.”

(Affonso Romano de Sant’Anna)

Escutar as músicas de Vitor Ramil há tempos tornou-se para mim uma experiência de intimidade e de pertencimento. A cada dia que passa, a cada audição (concentrada ou despretensiosa) de suas canções, muito do que sinto, penso ou imagino sentir e pensar parecem ganhar uma expressão possível pela arte do cantor e compositor pelotense.

Muitas vezes já escrevi sobre o artista neste espaço, mas tendo em vista o momento emblemático do futuro lançamento de um álbum duplo que revisita canções de sua carreira, Foi no mês que vem, convidei Vitor Ramil para trazer algumas de suas próprias ideias para o conteúdo do Música Esparsa.

Assim, mesmo em meio a esse movimentado trabalho de preparação do novo álbum, o artista fez a grande gentileza de responder às questões que enviei, conseguindo inclusive sanar as dificuldades e o caráter hermético de determinadas dúvidas ainda mal lapidadas da minha parte.

Convido a todos os leitores (cativos ou eventuais) deste modesto e intermitente blog a conferir as respostas do Vitor, apreciar as músicas indicadas pelo próprio e também a contribuir com o financiamento coletivo de Foi no mês que vem AQUI.

Saudações musicais!

1) Sobre a coletânea de canções de sua carreira a ser lançada ainda este ano, você poderia comentar sobre duas músicas do repertório (já divulgadas como parte do disco) para os leitores da postagem escutarem durante ou após a leitura da entrevista?

Vitor Ramil: A resposta e Noa Noa. Se me pedissem para selecionar músicas que eu considerasse tipicamente minhas, eu começaria por elas. Para quem toca violão, as duas têm afinação preparada. Quase não toco A resposta em shows porque a afinação é muito complicada de ser preparada na hora, durante o espetáculo. Tenho que deixar um violão só para tocá-la, e nem sempre isso é possível.

2) O filósofo francês Jacques Rancière argumenta que as relações possíveis entre estética e política podem ser analisadas a partir do que ele chama de “partilha do sensível”. Citando o autor: “A estética e a política são maneiras de organizar o sensível: de dar a entender, de dar a ver, de construir a visibilidade e a inteligibilidade dos acontecimentos”. A partir disso, o regime estético das artes (conceituação que o autor pensa mais útil do que “arte moderna”) ao permitir a exploração de diferentes possibilidades de produção e apropriação do sensível estaria vinculado com uma prática política mais “democrática”, pois essa permite a convivência de pontos de vista discordantes e diversificados. Pensando nisso, você poderia imaginar na sua “Estética do Frio” algum tipo de partilha da sensibilidade que dialoga com uma modalidade específica de comportamento político?

VR: Não conheço o pensamento de Jacques Rancière, nem os elementos que me trazes são suficientes (não poderia ser diferente nesta circunstância), para que eu possa te dizer qualquer coisa que tome o autor como referência. Falo então por pura intuição da ideia. “Estética do frio” torna-se uma expressão cada vez mais abrangente à medida que se distancia do meu âmbito pessoal e ganha as ruas, mais por adesão de outras pessoas (que não só aderem, mas agregam-lhe sentido) que por um trabalho meu para difundi-la. Aliás, a expressão sempre se fez sozinha. Eu ainda nem tinha pensado em falar nela por aí e ela já tinha fugido lá de casa. Acho bom que tenha sido e continue a ser assim. E acho que talvez isso aponte para partilhas de sensibilidade que parecem existir nela (ou deveria dizer “a partir dela”?). A estética do frio é usada hoje em dia associada a arte, comportamento, moda, futebol… Acho que ela só vai dar provas de ser portadora de um sentido se sobreviver a toda a diluição. Paradoxalmente, o processo de diluição só se inicia se a ideia é portadora de sentido. Comportamento político? Qual comportamento não é político? (Atenção: não estamos falando de política partidária.) Na origem da ideia da estética do frio está uma motivação artística e outra identitária e política, que se confundem. Acho que ela, que tem se desenvolvido por mostrar-se receptiva à contribuição de outras ideias, tem contribuído, por exemplo, para que muitos brasileiros, mesmo de regiões distantes da nossa, como já me confidenciaram muitos nordestinos, nortistas ou paulistas, reflitam sobre suas próprias identidades. Isso é algo que só ajuda a dar relevo à nossa diversidade nacional. Tem acontecido algo semelhante até entre os nossos vizinhos uruguaios e argentinos. Em Portugal um jornalista me disse que a estética do frio e o disco délibáb lhe davam a sensação de estar recebendo notícias de um lugar novo no mundo. Não seria tudo isso uma “partilha do sensível”?

3) No seu livro “O Século da Canção”, Luiz Tatit afirmou: “Se o século XX tivesse proporcionado ao Brasil apenas a configuração de sua canção popular poderia talvez ser criticado por sovinice, mas nunca por mediocridade. Os cem anos foram suficientes para a criação, consolidação e disseminação de uma prática artística que, além de construir a identidade sonora do país, se pôs em sintonia com a tendência mundial de traduzir os conteúdos humanos relevantes em pequenas peças formadas de melodia e letra”. Pensando nesses dois aspectos salientados por Tatit em relação à canção brasileira (“identidade sonora” e “tradução de conteúdos humanos”) quais aspectos possíveis você destacaria sobre as características da canção no teu trabalho como compositor no que diz respeito aos temas da “identidade cultural” e da “tradução de conteúdos humanos em melodia e letra”?

VR: Não dá para separar identidade cultural e conteúdo humano. As canções ou milongas que componho, e que já soam como uma coisa só, são sempre um depoimento pessoal, explícito ou não e, ao mesmo tempo, falam do lugar do mundo de que faço parte.  Não me refiro só à temática das letras, mas à forma delas, bem como à forma musical. A ideia central da estética do frio é chegar a uma linguagem síntese, uma mistura em essência, de gêneros musicais que reconheço como formadores da minha linguagem, mas que sempre vi isolados, até como antagonistas, na nossa cena musical e em meu próprio trabalho. Busco uma linguagem que rompa a barreira dos estereótipos e fale de nós com mais propriedade (uso o “nós”, por força de expressão, porque não posso, como artista, abrir mão do contexto em que estou inserido. A rigor, estou falando de mim mesmo. Um artista que more na casa ao lado da minha pode ter, e espero que tenha, uma visão e uma busca totalmente diferentes). Falar em identidade é ter um senso de coletividade, é reconhecer uma auto-imagem compartilhada. A busca da linguagem síntese refratária aos estereótipos é a busca da expressão mais justa dessa identidade-conteúdo-humano. Quando falo em canções e milongas que já são uma coisa só, estou querendo dizer que me sinto a caminho dessa linguagem síntese, até porque esses dois gêneros já fluem como uma síntese de outros na minha produção. Harmonias, melodias, letras, interpretação… Espero que, atualmente, qualquer um desses aspectos possa, se não expressar, ao menos sugerir essa busca.

4) Um aspecto importante da tua trajetória parecer ser a formação de uma identidade musical que se fortalece independente da indústria fonográfica, como bem você já comentou em outras entrevistas. E, nessa questão, o que mais me parece louvável é que essa construção não se dá exatamente em “oposição” à indústria cultural (postura que muitas vezes acaba trazendo embutidos muitos preconceitos relacionados a termos nada consensuais como “cultura popular” e “bom gosto”), mas em um interesse focado no próprio processo criativo que, ao final, como que por características próprias, acaba não se coadunando com a sensibilidade massificada própria da indústria cultural e do entretenimento. Você pensa que essa leitura faz sentido? Quais outras nuances você destacaria, sobre o teu trabalho, dessa relação entre identidade artística, cena independente e mercado fonográfico?

VR: É uma leitura tortuosa. Se não me perdi em alguma curva, acho que faz sentido. Cruzando teu caminho a bordo de um balão, para uma visão clara e do alto, digo que eu não estaria fazendo o que faço hoje se tivesse tido apenas a opção de seguir os caminhos convencionais do mercado fonográfico. Na real, acho que não estaria sequer fazendo música. Os esquemões não gostam de mim; eu não gosto dos esquemões.

5) Aqui no “Música Esparsa” iniciei em 2009 uma série de postagens de “longa duração” sobre a tua discografia e a do Zeca Baleiro, abordadas no mesmo texto. Como deixei claro desde a primeira postagem, estabeleci um vínculo entre essas discografias baseado em uma apreciação subjetiva, que tento explicar na análise despretensiosa de cada “dupla” de discos. Assim, gostaria de saber se, para além desse caráter subjetivo da afinidade que eu estabeleci entre as composições tuas e do Zeca, você realmente encontraria algumas relações dignas de nota entre a tua trajetória e a dele e quais seriam?

VR: Acho que somos semelhantes e diferentes em tudo. Por quê? Não sei dizer. Nem mesmo as duas músicas (inéditas) que compusemos juntos me deram uma pista clara. Vou consultar tuas postagens em busca de uma resposta.

6) Conte-nos um pouco sobre a experiência artística como Barão de Satolep, citada apenas sumariamente em alguns textos sobre tua trajetória artística, mas que principalmente os admiradores mais recentes da sua arte não conhecem muito bem.

VR: Criei o personagem para participar de um dos muitos aniversários do Tangos e Tragédias, o de 10 anos, talvez. Depois disso resolvi fazer um espetáculo, Midnicht Satolep, em que o Barão comandava a primeira parte. Ele se chama Barão Vamp de Sato, mas, com o tempo, o nome Barão de Satolep, como todos o chamavam, se impôs. Era uma espécie de vampiro corcunda e mal-humorado, mas de uma afetividade indisfarçável. Cantava um repertório baseado em músicas que eu criara para os poemas podres de Paulo Seben, poeta porto-alegrense e meu vizinho na época. Era divertido fazê-lo, o público também parecia gostar, ria muito. Com ele descobri o prazer de estar no palco e, por mais estranho que pareça, de ser eu mesmo em cena. Aposentei o Barão, mas muito dele permanece no Vitor atual, pois ele era uma exacerbação de como posso ser na intimidade, ácido e divertido. Aprendi com ele a gostar de estar no palco. Aposentei-o quando determinadas piadas dele começaram a ser esperadas pelo público ou até por mim mesmo, pois a força dele estava na espontaneidade, nas piadas ou comentários que surgiam na hora, a partir da relação com a platéia. Ao mesmo tempo, eu não poderia conciliá-lo com o caminho que meu trabalho começava a tomar. Ele vive hoje em Satolep. Nos visitamos às vezes.

[Confira abaixo a aparição do Barão de Satolep no 25º aniversário do espetáculo Tangos e Tragédias, em 2009]

7) Há uns 3 anos atrás, conheci a discografia do quinteto argentino 34 Puñaladas e, para minha surpresa, encontrei a Milonga del Tiro de Gracia, na qual você faz uma participação especial como intérprete. Indique uma ou mais parcerias que fizeste com outros artistas que você pensa não ser muito conhecida pelo público em geral.

VR: Sugiro que escutem Pimble Machine, que está em O primeiro disco, de Cláudio Levitan. É uma das coisas que mais gostei de conceber e gravar. O Totonho Villeroy me disse na ocasião: “Tens que fazer um disco inteiro assim.” Tocaram comigo Fernando Pezão, Zé Natálio e Leo Henkin, que depois formariam o Papas da Língua. Ou será que o Papas já existia?

8 ) Comente um pouco sobre as características da narrativa ficcional no teu trabalho como compositor e escritor. De que maneira ela se expressa de forma similar ou diferenciada nesses dois contextos de criação?

VR: Como ficcionista sou um fingidor, finjo não ser minha a dor que deveras não sinto. Minhas ficções nos dois contextos se parecem, até mesmo quando finjo nos moldes do poeta a la Pessoa. E a forma é determinante em ambas, muitas vezes como disparadora do conteúdo.

9) Em 18 de agosto de 2008 foi publicada a Lei Nº 11.769 que torna obrigatória a inclusão da música como conteúdo dos currículos escolares no Brasil. O que você, como músico, argumentaria para convencer os educadores e os educandos da importância dessa arte específica para a formação geral dos indivíduos?

VR: Música engloba Matemática, Português, Inglês, Física, História, Geografia, Religião, Ciências, Biologia, Filosofia, Educação Física, o recreio, o beijo no pátio, a merenda e a sineta que toca no começo e no fim das aulas. Além do mais, se dançar em Matemática, por exemplo, não é bom, dançar em Música é ótimo.

10)  Deixe um recado para os leitores do Música Esparsa.

Vitor Ramil: Coloquem As Variações Goldberg, de Bach, com Glenn Gould (segunda versão) para tocar e comecem bem a semana. Abraço a todos.

CONVERSA ESPARSA COM LUZMALA

Se o Rock morreu, como afirmam os diagnósticos mais catastróficos, o que estou ouvindo há alguns dias são as correntes arrastadas por um fantasma (muito vivo, por sinal!). O EP de estreia da banda uruguaya Luzmala prendeu minha audição como há meses nenhum lançamento “rockeiro” conseguiu. Composto de 7 músicas de letras rápidas e incisivas e de sonoridade empolgante, essa é uma dica incontornável para quem aprecia “rock das antigas” e poesia underground.

Matias Singer: guitarra e voz; Gonzalo Petersen: guitarra e coros; Zelmar Borrás: guitarra e coros; Rodrigo Gils: baixo e coros; Matias Guerreros: bateria; Nacho Echevarría (piano e percussão em Espiral) formam o time da orquesta rockeira que concedeu uma entrevista especial para a seção Conversa Esparsa, que retorna cerca de 7 meses após a última edição (com a cantora portuguesa Luisa Sobral).

Na entrevista abaixo, o guitarrista Zelmar Borrás, da banda uruguaia Luzmala, que esse ano lançou seu primeiro registro discográfico, comenta sobre a trajetória do grupo, a cena rock uruguaia e as referências das canções do EP. Confiram, portanto, essa nova Conversa Esparsa e escutem, no final da postagem, a música Tenemos refugio.

Saudações musicais!

1) Como os integrantes da orquesta Luzmala se conheceram e decidiram começar uma parceria?

Os três guitarristas de Luzmala (Gonzalo, Matías e Zelmar) tocavam em uma banda chamada Culpables. Quando essa banda se separou, em seguida pensamos fazer uma nova banda para tocar rock n roll clássico e “obscuro”.

Meio que naturalmente agregou-se o Rodrigo (baixo), a quem conhecíamos há tempos da cena do rock under de Montevideo (Vellocets) e Matías (bateria) com quem faz anos compartilhamos nossa sala de ensaios, El templo. El templo é uma sala de ensaio que montamos entre umas poucas bandas e é somente para nós e nossos amigos. É onde nos encontramos todas as semanas.

2) Qual a trajetória da banda até agora?

Somos uma banda bastante nova, começamos em meados de 2010 e recém debutamos no ano passado. Desde então tocamos várias vezes em Montevideo e também cruzamos a Argentina um par de vezes. No final do ano passado entramos nos estúdios Sondor para gravar nossos primeiros temas, resultando disso um minidisco de 7 temas que se pode baixar, gratuitamente AQUI.

3) Conhecem algo da música brasileira? Se sim, o que dela vocês mais apreciam? Existe alguma previsão de show para o Brasil?

Existem vários músicos que gostamos do Brasil: Sepultura, Ratos de Porão, Chico Buarque, Caetano Veloso, Os Mutantes, Dorival Caymmi. Culpables foi editado no Brasil através do selo Laja Records e por isso também conhecemos outras bandas muito boas como Merda, Os Pedreros e Leptospirose, com as quais tocamos em Montevideo. Nos encantaria ir tocar aí, assim que os promotores de evento se interessem e pensem que podem ganhar muita grana nos levando para tocar.

4) Que avaliação vocês fazem da cena rock uruguaia? Quais são as forças que aproximam ou distanciam o gênero do processo de “aburguesamento” que ele sofreu nos últimos tempos?

A cena uruguaia nos parece ser bem diferente daquela do Brasil, ou mesmo da Argentina. A população é de somente 3 milhões de pessoas e mais da metade está em Montevideo. Essa característica impõe dificuldades para as bandas tocarem fora da capital e, portanto, não podem se apresentar muito seguidamente na capital para não aborrecer o escasso público montevideano. Aqui é muito parecido com um povoado. Outra dificuldade é que quase não há espaços onde se possa tocar música elétrica.

Além disso, artisticamente há uma inquietude por parte de muitas bandas. Talvez por ser um meio difícil e não ser economicamente rentável, as bandas se veem obrigadas a trabalhar mais e fazer uma busca musical mais autoral e específica, ao invés de criar bandas de gênero como acontece em outros lugares.

5) Comentem sobre algumas inspirações artísticas importantes para as letras das canções do EP.

A inspiração principal é toda a parte negativa da condição humana. Isso pode parecer muito pessimista, porém, a filosofia subjacente é transformar algo mal em algo bom.

6) Quais outros grupos do rock independente uruguaioi vocês indicariam para o ouvinte brasileiro?

Oro, Revolver, Hablan por la Espalda, Santacruz, Señor Faraón, Ufesas, Buenos Muchachos, Hotel Paradise. Todas essas bandas são muito boas e com estilos muito pessoais.

7) Deixem um recado para os leitores do Música Esparsa.

Bom, oxalá possamos viajar em algum momento para o Brasil e mostrar pessoalmente nossa música. Muito obrigado pelo interesse por nosso trabalho!

Tenemos refugio

El humo de ese cigarro
Como los recuerdos que tenes
Se van disipando
Y tosiendo los ves no volver
Voy a encontrar a mis leyendas
En las cicatrices de tu piel
Como un ciego tocandote leer
Que entre nosotros hay refugio

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